quarta-feira, 18 de julho de 2012

A juventude da velhice


Juremir Machado da Silva*
Crédito: ARTE PEDRO LOBO

Fazer aniversário não me fascina. Nem me aborrece. Como diz aquela piada, é algo que pode ser comemorado por qualquer idiota sem que ele tenha feito qualquer coisa em favor do acontecimento, salvo permanecer vivo, o que pode ser, bem pensado, bastante, ou, em outros casos, um excesso e até mesmo um abuso. Não chego a pensar como o filósofo Cioran, que escreveu um livro impressionante, "Do Inconveniente de Ter Nascido", mas também não fico, como se diz lá em Palomas, "me gavando", ainda mais agora que fui rebaixado de aquário para capricórnio. Estou fazendo 49 anos hoje. Segundo a leitora Ruth Wigner, a chegada aos 50 anos de idade representa sair da velhice da juventude para entrar na juventude da velhice. Adorei essa ideia. Viverei meu último ano na velhice da juventude. Ano que vem, voltarei, enfim, a ser jovem.
Com o passar do tempo, a gente aprende que no pronome "eu" quase sempre há um "nós". Na juventude, acreditamos na singularidade absoluta do nosso eu e custamos a nos imaginar no lugar de qualquer outro. Na velhice da juventude, descobrimos que as experiências particulares quase sempre andam na média de um grupo, faixa etária ou sociedade. Ficamos menos narcisistas. Ou definitivamente egocêntricos. É incrível como se pode prever o futuro. Dá até para calcular, salvo acidente de percurso, quanto ainda vai se ganhar em dinheiro até o final da vida, o que só não é preciso por conta da possibilidade de demissão ou pelo rebaixamento das aposentadorias imposto pelo bizarro sistema brasileiro. Da até para especular sobre a doença que um dia nos afetará. É uma questão de sorteio. O destino é quem joga os dados. Um dia, sem mais nem menos, sai o sorteio da gente. Às vezes, tem sinal.
Aquilo que um jovem chama de sinal, começa-se, mais tarde, a chamar de sintoma. Em comunicação, existe uma "teoria" ou hipótese conhecida como "agenda-setting". Ela diz que a mídia não nos diz o que falar, mas sobre o que falar. Deve ser por isso que falamos de futebol. Isso até o momento em que o homem passa a frequentar consultórios médicos e entra na confraria dos pacientes impacientes, ainda dispostos a mudar de assunto, mas cada vez mais monotemáticos e falantes. É uma idade estranha. Surge o interesse pela leitura de bulas, mas a vista está cansada, obrigando a tirar os óculos para enxergar perto e a colocá-los numa tentativa vã de enxergar longe. No fim da velhice da juventude surgem muitos vampiros. Alimentam-se de sangue jovem na esperança de escapar, ainda não do sorteio, mas já da obsessão pela medicina.
Cioran -Imagem da Internet
Chega de pensamentos sombrios, embora eles me pareçam tão divertidos. O trágico pode ser cômico. Vamos comemorar com espumante. Afinal, a vida é uma espuma que passa rápido, exceto a dos detergentes e da raiva dos fanáticos. Como afirma Cioran, "esperar é desmentir o futuro". A minha esperança é desmentir o tempo, esse grande sacana que não nos larga. Quero ser imortal, mas não como gremista, nem como membro da Academia Brasileira de Letras. Eterno enquanto dure. Obrigado ao poeta.
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Deste blog:
OBS: Gosto do CIORAN. Em suas tiradas trágicas a vida sem sentido torna-se fumaça e clama pelos que dizem que a vida tem sentido. Quem é CIORAN? Emil Cioran (Raşinari, 8 de abril de 1911 — Paris, 20 de junho de 1995) foi um escritor e filósofo romeno radicado na França. Em 1949, ao publicar "précis de decomposition", passa a assinar E.M. Cioran, influenciado por E.M. Forster -esse "M" não tem nenhuma relação com outros nomes do filósofo (como Michel, Mihai, etc.)(Fonte: Wikipédia).

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