sábado, 28 de julho de 2012

Bruxas ontem e hoje


Bruxas ontem e hoje: por uma crença sem pecado que estimula o autoconhecimento
Luciano Machado - lucianomachado@terra.com



Bruxas ontem e hoje
A bruxa velha e feia é um estereótipo ultrapassado
O herege não é aquele que é queimado na fogueira, mas sim aquele que acende a fogueira.

Escolhi essa frase de Willian Shakespeare para ser o ponto de partida nessa breve aventura no universo da Bruxaria e de suas protagonistas, as Bruxas, pois talvez nenhuma outra traduza de forma tão clara a realidade que temos vivenciado em séculos de intolerância e radicalismo.

Compreender o fenômeno da bruxaria requer deixar de lado a nossa visão romântica perpetuada pelo imaginário popular com representações que reduzem as bruxas a caricaturas do Mal, bem como nos distanciarmos também da visão estereotipada das Wiccans, ou bruxas modernas.

Nossa abordagem sobre o tema começa respondendo a questão fundamental para muitos. Sim, as bruxas existiram e ainda existem. E, da mesma forma que no passado, atuam na construção social de sua época como objeto de purificação de uma sociedade dominada por religiões institucionalizadas e por conceitos e dogmas que não exercitam o nosso autoconhecimento, mas ao contrário, querem tornar todos de um mesmo jeito, como se fôssemos todos iguais, sem anseios nem sonhos tão diferentes.

Um pouco de História

A Inquisição, instituída para combater a heresia, revelou uma verdadeira obsessão pelo Demônio e por uma legião de seguidores a serviço dele. Em 1233, o papa Gregório IX admitiu a existência de rituais de perversão, orgia e heresia, os sabás; em 1326, o papa João XXII, autorizou a perseguição à bruxaria classificando-a como heresia. Em 1484, Inocêncio VIII publicou a bula Summis desiderantes affectibus, na qual reforçava a necessidade de combater e extirpar a “perversão herética” por todos os meios e confirmava a existência da bruxaria como prática demoníaca.

Dois anos depois, em 1486, foi publicado o Malleus maleficarum, que, além de fornecer elementos à repressão, originou a caça às bruxas, pois ainda que evocasse os bruxos, que inegavelmente existiam, ressaltava a mulher como agente a serviço do Mal. De fato, sempre se admitiu que a mulher fosse mais inclinada às práticas mágicas, porém a partir de agora era evocada a sua demonização.

A Europa foi varrida numa insana e desmedida caça aos servos do demônio. As perseguições atingiram indiferentemente cidades e vilarejos, ricos e pobres, homens e mulheres, com uma maioria esmagadora de mulheres. A perseguição à bruxaria atingiu assim seu auge no século XV e só diminuiu significativamente 200 anos depois.

Bruxaria ou Feitiçaria

A Bruxaria é um dos muitos ramos da Feitiçaria, embora alguns entendam que é a mesma coisa. Para os escritores e pesquisadores ingleses Evan John Jones e Doreen Valiente é importante lembrar que o termo bruxaria advém de uma época e lugar específico, a Europa medieval, enquanto o termo feitiçaria seria muito mais antigo e usado por diferentes povos e culturas.

Nas palavras de Evan John Jones, Nunca se ouviu falar de uma bruxa chinesa, uma bruxa árabe ou uma bruxa africana, porém em cada uma dessas culturas e em muitas mais sempre existiram feiticeiras, mulheres que lidam com forças sobrenaturais, nem sempre positivas, porém muito poderosas.

Para Scott Cunningham, um dos mais conhecidos pesquisadores e autores sobre Bruxaria, a diferença está relacionada ao culto. Segundo ele, a Bruxaria tem forma organizada, com rituais, datas de celebração e divindades cultuadas, enquanto a feitiçaria é uma forma de magia relacionada à crença animista, mais primitiva e intuitiva. Dessa forma ela defende que embora possa ser solitária, familiar ou comunitária, a Bruxaria é uma religião enquanto a feitiçaria é puramente prática de sortilégios e magia dispensando dogma e ritual.

Gerina Dunwich, outra renomada pesquisadora sobre Bruxaria na idade média e um dos principais expoentes da Bruxaria Moderna (Wicca) concorda com Scott Cunningham e destaca: A bruxaria antiga, assim como a moderna, prioriza o bem-estar coletivo, o desenvolvimento do conhecimento humano e a visão da Mulher como complemento da Divindade.


Bruxaria hoje

Com o advento da Bruxaria Moderna, surgida na metade do século XX e atualmente difundida em muitos países ocidentais, inclusive no Brasil, estamos diante de um movimento que busca resgatar o contato íntimo com a natureza física e humana, uma “religião” tolerante a toda diversidade e simpática às causas sociais e ambientais. A Bruxaria defende as faculdades mágicas presentes no Homem, na Mulher e em toda Natureza, uma crença que nos liberta do “pecado” e nos motiva a buscar um conhecimento mais profundo de nós mesmos.


Eu sigo a bruxaria desde sempre, eu acho (risos). Está em mim, está em toda mulher que se descobre, se conhece e sabe que somos parte do mundo, parte da Mãe Terra, somos uma expressão da Grande Mãe e devemos estar em harmonia com Ela para gozarmos de sua plenitude. 

Lana Vial, 46 anos, casada, mãe de uma filha, mora em Porto Alegre e dedica-se a prática da Bruxaria há mais de 20 anos.

Concordo com Lana, essa adorável bruxa que tive o prazer de conhecer há muito tempo e que me orientou nesse universo de encanto e magia onde a prática da Bruxaria mistura-se com a vivência do Sagrado Feminino, tão renegado e mal compreendido através dos séculos.

É fato que as bruxas existem, não somente na História, mas também nos dias atuais, assim como é fato que a Bruxaria é um caminho de sabedoria, de reencontro e de harmonia. Um aprendizado capaz de tornar mais pleno todo homem e toda mulher.

Para saber Mais

História do medo no Ocidente, Jean Delumeau, Companhia das Letras, 1989
História Noturna – decifrando o Sabá, Carlo Ginzburg, Companhia das Letras, 1991
Pensando com demônios, Stuart Clark, Edusp, 2006.
Feitiçaria para amanhã, Doreen Valiente, Londres, 1978.
A Bruxaria Moderna, Scott Cunningham, Editora Gaia, 1997.
A Bruxaria Ontem e Hoje, Hans Holzer, Londres, 1986.

Receitas para o Dia das Bruxas - 31 de Outubro

Aproveitando o clima e o mês das bruxas, selecionei duas receitas simples de rituais para serem realizados nessa época:

Ritual de Celebração

No dia 31 de Outubro, arrume a casa, prepare doces para serem compartilhados com qualquer pessoa que vier a sua casa nesse dia. Se você não tem tempo para fazer os doces não se preocupe, pode ser bombons e balas comprados com antecedência. Ofereça a todos que vierem a sua casa, amigos, familiares, vizinhos, o carteiro, etc.

Para o jantar, prepare uma comidinha caseira daquele jeito que só você sabe e para a sobremesa um bolo preferencialmente feito por você ou uma mulher mais velha da família. Esse bolo pode ser de frutas, nozes ou até mesmo um brigadeiro, não importa, desde que agrade a todos.

Puxe a conversa, esse será um ótimo dia para se perguntar como as pessoas que amamos estão, como vão seus sonhos, seus anseios e aproveitar para celebrar esse convívio.

Nestes tempos modernos seu maior desafio será concentrar todos da família a mesa e saborear os alimentos com calma. Este ritual simples deveria fazer parte do nosso dia-a-dia e vale tentar adicionar mais essa data como uma ocasião especial.

Ritual para atrair um amor

O Dia das Bruxas aqui no hemisfério sul coincide com o Sabá de Beltane – a União Sagrada e é uma época propícia para atrair o amor. Nesse dia se você procura um amor, poderá fazer um simples ritual, afinal uma ajudinha sempre vai bem.

Você precisará de uma maçã, mel, ramos de alecrim e um poema escrito por você mesmo(a) ou de uma poetiza falando de um amor como você almeja.
Comece tomando um banho relaxante sentindo todas as partes do seu corpo. Depois, coloque seu perfume favorito muito suavemente, sem exagero. Coloque os ramos de alecrim presos em seu lingerie.

Vá para um local onde possa estar só e leia o poema visualizando o amor que deseja em sua vida. Coma a maçã regada com mel e a saboreie-a delicadamente, reforçando a sua visualização. Leia novamente o poema e siga o ritual até que tenha comido toda a fruta.

Depois disso, enrole as sementes da maçã e os ramos de alecrim na folha onde está escrito o poema e guarde esse pequeno embrulho como um talismã dentro da sua bolsa ou numa gaveta de lingeries.

Vale lembrar que não é aconselhável você visualizar alguém de quem já goste. Se você confia nos Deuses do amor, peça alguém para lhe dar e receber amor e não alguém que você acha que pode fazer isso. Boa sorte!


Luciano Machado nascido em Porto Alegre/RS, é estudioso da Ciência das Religiões, Teologia e de História Antiga. Atua na área de Consultoria Espiritual. Sacerdote do Rito Cambinda (Nação do Rio Grande do Sul) também ministra palestras e cursos sobre esoterismo e espiritualidade. Fundador da associação filantrópica Fraternidade Senhora das Águas e Coordenador do grupo de debate, dogma e prática de Bruxaria, Discípulos da Deusa.

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