domingo, 29 de julho de 2012

corrupção


A LUTA CONTRA A CORRUPÇÃO DESANIMA.


Escolhi um título que pode somar vários e até distintos
 significados. 
Na verdade, a corrupção nos desanima porque, embora a 

opinião
 pública a tolere cada vez menos, e tenhamos visto a 
demissão 
de vários acusados de mal-feitos, no Brasil e no mundo, 
restam 
três grandes problemas.

O primeiro é a suspeita de que o desvio de dinheiro

 público
 esteja
 crescendo, em vez de diminuir. Falo em suspeita e não 
em certeza, 
porque a corrupção, quando bem conduzida, não
 deixa traços.

O tempo todo, lemos denúncias de atos corruptos, 

mas 
geralmente
se trata de casos pequenos ou que foram descobertos
 devido a
 erros primários. 

É possível que os grandes corruptos jamais deixem 

impressões 
digitais.
Para dar um exemplo: 
os sistemas de controle do governo federal checam se 

o funcionário 
pagou 8 reais por uma tapioca, mas dificilmente descobrem 
se ele foi subornado.
(...)
Para além da questão factual, difícil de responder,

 fica a sensação
 de que algo está errado no regime democrático - se 
este 
efetivamente, aqui como na França, Estados Unidos e
 Itália, 
não consegue pôr fim à corrupção em larga escala.

Também é grave um segundo ponto: 
a percepção de que castigo, mesmo, não ocorre. 

Corruptos não 
devolvem o dinheiro, não são presos nem sofrem
 penas maiores

Assistimos agora a uma sucessão de denúncias 

sobre o
 governo federal. 
Dois ministros já caíram, sob a suspeita de práticas 

não-éticas. 
Ignoramos se houve mesmo corrupção. 

Não dispomos de provas para condená-los. 
Mas a opinião pública sentiu-se informada o bastante 

para se 
indignar com suas ações e lhes negar a legitimidade
 ética, que
 um homem público deve ter como um de seus maiores
 capitais. 

Daí, a demissão deles. 
Contudo, na série ininterrupta de denúncias que vem 



desde o
 governo Collor, passando pelos episódios da reeleição e da 
privatização das teles (governo FHC) e chegando ao
 mensalão
 (governo Lula), o fato é que pouquíssimos, se é que
 alguns, 
foram realmente condenados e/ou devolveram o dinheiro 
desviado
Tudo isso faz pesar, sobre o ambiente político, grande 

descrédito.

Mas o mais grave é o terceiro ponto.
Nos parágrafos anteriores, supus uma clara 

divisão clara
 entre
 a minoria de corruptos ("eles" ou, nos debates políticos,
 "vocês")
 e a maioria de gente decente ("nós", "nós", "nós"). 

Ora, cada vez me convenço mais, lendo as manifestações

 contra
 a corrupção, de que a grande maioria delas emana de 
pessoas
 absolutamente indiferentes à corrupção.

"Nós" não estamos nem aí para a corrupção. "Nós" 

queremos é instrumentalizá-la para fins políticos. 

Na maior parte dos casos, o que se lê são acusações 

severas a
 corruptos, que imediatamente são ligados a um partido.
 A bola da 
vez é o PT, mas poderia ser qualquer agremiação. 
Como ele tem
o governo federal e conta com a oposição de vários 
grandes jornais,
 é alvejado. 

Mas lembrem que Alceni Guerra (PFL), ministro 

de Collor, 
e Ibsen Pinheiro (PMDB), que presidiu a votação 
de seu
 impeachment,
 tiveram as carreiras políticas truncadas por acusações 
falsas
de corrupção.

O uso da corrupção como álibi para atacar o outro 

mostra,
 não só uma cabal despreocupação com as provas dos 
malfeitos,
 mas também um completo repúdio a investigar toda 
denúncia que 
afete os políticos do "nosso" lado. 

Se alguém diz que é preciso apurar todas as denúncias 

de corrupção,
 custe o que custar, sofre prontamente um ataque 
de "nós".
Vi a revolta de um facebooker porque um jornalista 

reputado,
 discutindo o superfaturamento de obras públicas
pediu 
em seu blog que também fossem investigados 
casos do 
governo paulista.

Ora, para o indignado seletivo, a corrupção só valia 

contra a
 política petista. O que ele condenava não era a
 corrupção, era 
o PT. Se a corrupção fosse de outro partido, não cabia
 investigá-la.

O que é particularmente grave nessa atitude, que 

está longe 
de ser rara? 
É o descaso pela honestidade. Se a corrupção serve

 apenas para
 atacar o outro, é porque falta real empenho em
 combatê-la, em 
separar o público do privado. 
(...)
Diante disso, nosso quase esquecido Rui Barbosa o 

que diria? 
Talvez que, "de tanto ver agigantar-se o poder nas

 mãos dos
 homens, o homem chega desanimar-se da virtude, 
a rir-se da
 honra e ter vergonha de ser honesto." 
Porque, aqui, não há meio termo. 

Ou condenamos a corrupção, ou somos seus

 cúmplices. 
Condená-la é condenar todo ato de corrupção, 

é exigir
 sua apuração,
 seja qual for o partido ou o governo que a pratique 
ou tolere. 
Quem é seletivo é conivente. 

E, dado que citei o brasileiro que talvez tenha escrito 

mais difícil
 em nossa história, a ponto de hoje ser pouco lido 
porque não se
 entende o que ele disse, posso terminar indo para o 
outro lado, o da
 telenovela, e dizer que na novela "Insensato coração" 
é muito bom
 o nome do blog do jornalista Kleber Damasceno,
 "Impunidade zero". 
É disso que precisamos.

Renato Janine Ribeiro é professor titular de ética 

e filosofia 
política na Universidade de São Paulo. 

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