quinta-feira, 26 de julho de 2012

Os cruzados




Entrevista com Thomas Madden, 
historiador americano

Os cruzados não eram ávidos depredadores ou colonizadores 
medievais como afirmam alguns livros de história, diz um
 especialista ao concluir um estudo com novas revelações. 
Thomas Madden, professor associado da Faculdade de História da
 Universidade de San Luis (Estados Unidos) e autor de «A Concise
 History of the Crusades» («Breve História das Cruzadas»), sustenta
 que os cruzados represent
avam uma força defensiva que não aproveitava as próprias empresas
 para ganhar com isso riquezas terrenas ou territórios.
 Madden traçou os mitos mais difundidos sobre os cruzados
 e os novos descobrimentos históricos que os privam de fundamento.
QUAIS SÃO OS ERROS HISTORIOGRÁFICOS MAIS COMUNS
 SOBRE AS CRUZADAS E SOBRE OS CRUZADOS?
Madden: — Alguns dos mitos mais comuns e as razões
 de sua falta de fundamento são os seguintes:
MITO NÚMERO 1
As cruzadas eram guerras de agressões provocadas contra
 um mundo muçulmano pacífico. Esta afirmação é
 completamente errônea. Desde os tempos de
 Maomé os muçulmanos haviam tentado conquistar o 
mundo cristão. E inclusive haviam obtido êxitos notáveis. 
Após vários séculos de contínuas conquistas, os exércitos 
muçulmanos dominavam todo o norte da África, o Oriente Médio, 
a Ásia Menor e grande parte da Espanha. Em outras palavras, ao 
final do século XI, as forças islâmicas haviam conquistado 
dois terços do mundo cristão. Palestina, a terra de Jesus Cristo;
 Egito, onde nasce o cristianismo monástico; Ásia Menor, onde 
São Paulo havia plantado as sementes das primeiras 
comunidades cristãs. Estes lugares não estavam na periferia
 da cristandade, mas eram seu verdadeiro centro. E os impérios
 muçulmanos não acabavam ali. Seguiram expandindo-se para
 o Ocidente, para Constantinopla e mais além chegando até os 
confins da Europa. As agressões provinham, portanto, da parte
 muçulmana. Chegados a um certo ponto, a parte que ficava do
 mundo cristão não tinha mais remédio além de se defender,
 se não quisesse sucumbir à conquista islâmica.
MITO NÚMERO 2:
Os cruzados levavam crucifixos, mas a única coisa que lhes
 interessava era conquistar riquezas e terras. Suas intenções 
piedosas eram só uma cobertura sob a que se escondia
 uma avidez voraz. Há tempos, os historiadores afirmavam 
que na Europa se havia produzido um aumento demográfico
 que levou a um número excessivo de nobres secundários, 
adestrados nas artes da guerra de cavalaria, mas privados 
da herança de terras feudais. As cruzadas, portanto, eram vistas
 como uma válvula de escape que impulsionava estes homens 
guerreiros a sair da Europa para terras por conquistar a expensas 
de outros. A historiografia moderna, com a ajuda da 
chegada das bases de dados computadorizadas, destruiu este mito. 
Hoje sabemos que foram mais os primogênitos da Europa os que
 responderam ao chamado do Papa em 1095 e à conseguinte Cruzada. 
Ir a uma cruzada era uma operação muito custosa. Os senhores se viam
 obrigados a vender ou hipotecar as próprias casas para conseguir
 fundos necessários. Muitos deles, também, não tinham interesse 
em constituir um reino de ultramar. Mais ou menos como os soldados
 de hoje, os cruzados medievais se sentiam orgulhosos de cumprir
 com seu dever, mas ao mesmo tempo desejavam voltar para casa.
Após os êxitos espetaculares da primeira cruzada, com a conquista
 de Jerusalém e de grande parte da Palestina, praticamente todos 
os cruzados voltaram para casa. Só uma mínima parte ficou para
 consolidar e governar os novos territórios. Desta forma o ganho 
era escasso. Ainda que os cruzados tivessem sonhado com 
grandes riquezas nas opulentas cidades orientais, praticamente quase 
nenhum conseguiu nem sequer recuperar os gastos. Contudo, o 
dinheiro e a terra não eram o motivo para se lançar à aventura de uma
 cruzada, iam para expiar os pecados e ganhar a salvação mediante 
as boas obras em uma terra distante. Enfrentavam gastos e fatigas
 porque acreditavam que, indo socorrer suas irmãs e seus irmãos 
cristãos no Oriente, haveriam acumulado riquezas onde nem a
 ferrugem nem a traça corroem. Eram bem conscientes da exortação 
de Cristo, segundo a qual quem não toma sua cruz não é digno dEle.
 Recordavam também que «ninguém tem um amor maior do que
 aquele que dá a vida pelos amigos».
MITO NÚMERO 3:
Quando os cruzados conquistaram Jerusalém, em 1099, 
massacraram todos os homens, mulheres e crianças da cidade,
 até inundar as ruas e sangue. Esta é uma das histórias preferidas 
por quem quer demonstrar a natureza malvada das Cruzadas. 
Certamente é verdade que muitas pessoas em Jerusalém 
encontraram a morte depois que os cruzados conquistaram 
a cidade. Mas este aspecto se deve considerar no contexto
 histórico. O princípio moral aceito em todas as civilizações
 européias ou asiáticas pré-modernas era que uma cidade que 
havia resistido à captura e havia sido tomada pela força
 pertencia aos vencedores. E isto não incluía somente os edifícios
 e os bens, mas os habitantes. Por esta razão, cada cidade ou
 fortaleza tinha que pesar cuidadosamente se podia se permitir
 resistir aos sitiadores. Se não, era mais sábio negociar os termos
 da rendição. No caso de Jerusalém, tentou-se a defesa até o último
 momento. Calculava-se que as formidáveis muralhas da cidade
 deteriam os cruzados até a chegada de uma força proveniente do
 Egito. Mas estavam em um erro. E quando a cidade caiu, foi saqueada.
 Deu-se morte de muitos habitantes, mas outros muitos foram
 resgatados ou libertados. Segundo o critério moderno, isto pode
 parecer brutal. Mas um cavaleiro medieval poderia fazer notar que um 
número muito maior de homens, mulheres e crianças inocentes morreria
 cada dia mediante as modernas técnicas de guerra, comparado com
 o número de pessoas que podiam cair sob a espada durante 
um ou dois dias. Há que observar que
 nas cidades muçulmanas que se renderam aos cruzados, as pessoas 
não foram atacadas. Suas propriedades eram confiscadas e se 
lhes deixavam livres para professar a própria fé.
MITO NÚMERO 4:
As cruzadas eram uma forma de colonialismo medieval revestido
 de atributos religiosos. É importante recordar que na Idade Média
 o Ocidente não era uma cultura poderosa e dominante que se
 aventurava em uma região primitiva e atrasada. Na realidade, quem
 era potente, acomodado e opulento era o Oriente muçulmano. 
A Europa era o Terceiro Mundo. Os Estados Cruzados, fundados
 após a primeira cruzada, não eram novos assentamentos 
de católicos em um mundo muçulmano, semelhante às colonizações 
ritânicas na América. A presença católica nos Estados cruzados era
 sempre muito reduzida, em geral inferior 10% da população. Eram 
governantes e magistrados, comerciantes italianos e membros das 
ordens militares. A grande maioria da população dos Estados
 cruzados era muçulmana. Não eram, portanto, colônias no sentido 

de plantações ou fábricas, como no caso da Índia. Eram postos de
 avanço. A finalidade última dos Estados cruzados era defender os 

santos lugares na Palestina, especialmente Jerusalém, e proporcionar 
um ambiente seguro para os peregrinos cristãos que visitavam aqueles 
lugares. Não havia um país de referência dos Estados cruzados 
com o qual pudessem manter relações econômicas, nem os europeus
 obtinham benefícios econômico
os destes Estados. Pelo contrário, os gastos das cruzadas para
 manter
o Oriente latino pesavam fortemente sobre os recursos europeus.
 Como posições de vanguarda, os Estados cruzados tinham um 
caráter militar. Enquanto os muçulmanos combatiam entre eles, os
 Estados cruzados estavam a salvo, mas, quando os muçulmanos 
se uniram, foram capazes de derrubar as fortificações, tomar as
 cidades e, em 1291, expulsar completamente os cristãos.
MITO NÚMERO 5:
As cruzadas se fizeram também contra os judeus. Nenhum Papa 
lançou jamais uma cruzada contra os judeus. Durante a primeira 
cruzada, um numeroso bando de malfeitores, não pertencentes 
ao exército principal, invadiram as cidades de Renania e decidiram
 depredar e assassinar os judeus que ali residiam. Isto se produziu 
em parte por pura avidez e em parte por uma errônea concepção pela 
qual os judeus, enquanto responsáveis pela crucificação de Cristo, 
eram objetivos legítimos da guerra. O Papa Urbano II e os 
Papas sucessivos condenaram energicamente estes ataques contra
 os judeus. Os bispos locais e os outros eclesiásticos e leigos 

trataram de defender os judeus ainda que com pouco êxito. De 
modo parecido, durante fase inicial da segunda cruzada, um 
grupo de renegados assassinou muitos judeus na Alemanha,
 antes que São Bernardo conseguisse alcançá-los e detê-los. Estes
 desvios do movimento eram um indesejado subproduto do entusiasmo 
das Cruzadas, mas não eram o objetivo das Cruzadas. Par usar uma
 analogia moderna, durante a Segunda Guerra Mundial alguns soldados
 americanos cometeram crimes enquanto se encontravam em
 ultramar. Foram presos e castigados por tais crimes, mas o 
motivo pelo qual haviam entrado em guerra não era o de cometer crimes.
PENSA QUE A LUTA ENTRE O OCIDENTE E O MUNDO
 MUÇULMANO É DE CERTO MODO UMA REAÇÃO ÀS CRUZADAS?
Madden: — Não. Pode parecer uma estranha a resposta 
se consideramos que Osama Bin Laden e outros islâmicos
 com freqüência se referem aos americanos como «Cruzados».
 É importante recordar que durante a Idade Média, na realidade
 até finais do século XVI, a superpotência do mundo ocidental
 era o islã. As civilizações muçulmanas gozavam de grande
 bem-estar, eram sofisticadas e imensamente poderosas. O que
 hoje chamamos Ocidente era atrasado e relativamente fraco. 
Há que fazer notar que, com a exceção da Primeira Cruzada,
 praticamente o restante das Cruzadas lançadas pelo Ocidente --
e houve centenas-- não tiveram êxito. As Cruzadas podem haver 
freado o expansionismo muçulmano mas de nenhum modo o detiveram.
 O império muçulmano continuou expandindo-se para territórios 
cristãos, conquistando os Bálcãs, grande parte da Europa do Leste
e inclusive a maior cidade cristã do mundo, Constantinopla.
Desde a perspectiva muçulmana, não tiveram tanta importância. 
Se você tivesse perguntado a alguém do mundo muçulmano pelas 
Cruzadas no século XVIII, não saberia nada do tema. Eram importantes
 para os europeus porque foram esforços massivos que fracassaram. 
Contudo, durante o século XX, quando os europeus começaram a
 conquistar e colonizar países do Oriente Médio, muitos
 historiadores --especialmente escritores franceses nacionalistas 
ou monárquicos-- começaram a denominar as Cruzadas como o 
intento da Europa de levar os frutos da civilização ocidental ao 
mundo muçulmano atrasado. Em outras palavras, as Cruzadas foram 
transformadas em guerras imperialistas.
Estas histórias se ensinavam nas escolas coloniais e se
 converteram no ponto de vista normalmente aceitado no Oriente
 Médio e mais além. No século XX, o imperialismo foi 
. Islamistas e alguns nacionalistas árabes assumiram a
 visão colonial das Cruzadas, denunciando que o Ocidente
 era responsável por sua miséria porque havia depredado os
 muçulmanos desde as Cruzadas.
Diz-se com freqüência que o povo no Oriente Médio tem uma 
duradoura; é verdade. Mas no caso das Cruzadas, tem uma 
memória reconstruída, fabricada por seus conquistadores europeus.
HÁ SEMELHANÇAS ENTRE AS CRUZADAS E A ATUAL GUERRA
 CONTRA O TERRORISMO?
Madden: — Junto ao fato de que os soldados de ambas guerras 
desejavam servir a alguém maior que eles mesmos e que desejavam
 voltar para casa enquanto acabaram, não vejo outras
 semelhanças entre os cruzados medievais e a guerra contra
 o terror. As motivações da sociedade secular de depois do
 Iluminismo são muito diferentes das do mundo medieval.
EM QUE AS CRUZADAS SE DIFERENCIAM DA JIHAD ISLÂMICA
 OU DE OUTRAS GUERRAS DE RELIGIÃO?
Madden: O objetivo fundamental da jihad (guerra santa) é estender
 o «Dar al-Islã» - (A Morada do Islã). Em outras palavras, a
 jihad é expansionista, busca conquistar os não-muçulmanos e 
impor-lhes o regime muçulmano.
Aos que são conquistados é dada uma só possibilidade.
 Para os que não são do Povo do Livro --em outras palavras, 
os que não são cristãos ou judeus-- a única opção é converter-se
 ao islã ou morrer. Para os que pertencem ao Povo do Livro, a
 opção é submeter-se ao regime muçulmano e à lei islâmica 
ou morrer. A expansão do islã, portanto, estava diretamente
 ligada ao êxito militar da jihad. Os cruzados eram outra 
coisa. Desde seus inícios a Cristandade sempre proibiu a
 conversão forçada de qualquer tipo. A conversão pela espada,
 por conseguinte, não era possível para a Cristandade.
o contrário da jihad, o objetivo dos cruzados não era estender
 o mundo cristão nem expandir a Cristandade mediante conversões
 forçadas. Os cruzados eram uma resposta direta e relacionada com
 os séculos de conquistas muçulmanas de terras cristãs. 
O acontecimento que fez explodir a Primeira Cruzada foi a
 conquista turca de toda Ásia Menor de 1070 a 1090.
A Primeira Cruzada foi convocada pelo Papa Urbano II em 
1095 em resposta a uma urgente petição de ajuda do 
imperador bizantino de Constantinopla. Urbano fez um chamado aos
 cavaleiros da Cristandade para que acudissem a ajudar seus irmãos
 do Oriente. A Ásia Menor era cristã. Formava parte do império
 bizantino e foi em primeiro lugar evangelizada por São Paulo. 
São Pedro foi o primeiro bispo de Antioquia. Paulo escreveu sua
 famosa carta aos cristãos de Éfeso. O credo da Igreja foi
 redigido em Nicéia. Todos estes lugares estão na Ásia Menor.
 O imperador bizantino suplicou aos cristãos do Ocidente ajuda para
 recuperar estas terras e expulsar os turcos. 
As Cruzadas foram esta ajuda. Seu objetivo, contudo, 
não era só reconquistar a Ásia Menor, mas recuperar outras terras
 antigamente cristãs perdidas
 por causa das jihads islâmicas. Inclusive a Terra Santa.
Em poucas palavras, portanto, a maior diferença entre Cruzada e jihad
 é que a primeira foi uma defesa contra a segunda. Toda a história 
das Cruzadas no Oriente é
 uma resposta à agressão muçulmana.
TIVERAM ALGUM ÊXITO OS CRUZADOS EM CONVERTER O
 MUNDO MUÇULMANO?
Madden: — Quero fazer notar que no século XIII 
franciscanos
 iniciaram uma missão no Oriente Médio para 
tentar converter os muçulmanos. Não tiveram êxito,
 em grande parte porque a lei islâmica castiga a 
conversão a outra religião com a pena de morte. 
Este intento, contudo, era uma coisa distinta das 
Cruzadas, que não tinham nada a ver com a conversão. 
E foi um intento e persuasão pacíficos.
COMO A CRISTANDADE ASSIMILOU SUA DERROTA NAS 
CRUZADAS?
Madden: — Da mesma maneira que os judeus do
 Antigo Testamento. Deus negou a vitória a seu povo porque era
 pecador. Isto levou a um movimento devocionista de grande
 escala na Europa, cujo objetivo era purificar totalmente a
 sociedade cristã.


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