quarta-feira, 18 de julho de 2012

Profecia e consciência.


 Luiz Alberto Gómez de Souza*

 

Inspirado pela última crônica de Carlo Maria Martini, Luiz Alberto Gómez de Souza, leigo e sociólogo, comenta a atual situação da Igreja Católica.


O Cardeal Martini escreveu há poucos dias uma última crônica no Corriere della Sera e anunciou que, por idade e enfermidade, se retiraria de uma presença na opinião pública para preparar-se, num tempo de meditação, para a grande e definitiva passagem. Cala-se uma das grandes vozes proféticas que temos hoje (sei que a profecia não pára e outras vozes irão surgindo). Ele é um daqueles Padres da Igreja tão caros a Comblin. Nos últimos conclaves pensamos nele (“É preferível um Martini bianco”). Mas as estruturas de poder não permitiriam o que tanto desejávamos. Houve uma boa dose de ingenuidade de nossa parte. A história das instituições religiosas (e do estado também), trazem o terrível vício do poder que inebria. Martini, no sínodo dos bispos europeus de 1999, pensava num futuro concílio e inclusive indicou alguns temas que poderiam estar na sua pauta (a posição da mulher da sociedade e na Igreja, a participação dos leigos em ministérios, a sexualidade, o matrimônio, o sacramento da penitência, o ecumenismo...). Mais adiante, em 2008, em Colóquios noturnos em Jerusalém, considerando o celibato como uma vocação pessoal e apontando a liberalização do uso dos preservativos, ele pensava que um concílio deveria talvez tratar apenas de um ou dois pontos, deixando os outros para futuros concílios. Seria quase uma Igreja em estado de concílios sucessivos, mais decisivos que os sínodos atuais, basicamente dando apenas sugestões. Nesse mesmo ano, demonstrava um certo pessimismo com relação às mudanças. “Houve um tempo no qual sonhei com uma Igreja na pobreza... que dá espaço aos que pensam mais longe... Uma Igreja jovem. Hoje já não tenho esses sonhos. Depois de 75 anos decidi rezar pela Igreja” (El País 25-5-2008). É o que estará fazendo nos próximos anos. Penso na Idade Média no seu zênite. Quem expressava mais o Espírito e anunciava o Reino, o frágil Francisco ou o violento Inocêncio III? Perto de nós, Oscar Romero ou João Paulo II (que não o recebeu em Roma e com isso abriu caminho, sem querer, para d’Habuisson mandar matar o arcebispo)?

A revista Concilium lançou um esclarecedor número (2012/2) sobre as tensões entre bispos e teólogos nas diversas regiões do mundo. São diferentes as funções do magistério e da reflexão sobre a Fé. A coisa de complica hoje quando temos um papa teólogo, ainda que ele, no livro sobre Jesus, afirma não falar ali como bispo, mas como pensador. Entretanto, sua orientação teórica não deixa de permear os atos do magistério. E visões distintas como as de Jon Sobrino ou de J. A. Pagola (Jesus, uma aproximação histórica, 2007) são postas em juízo. Teólogos e bispos são dois sujeitos em relação, complementariedade e frutíferas tensões. Mas, como leigo não teólogo, senti falta, em alguns momentos da revista, do outro sujeito central, o povo de Deus. Ele está presente no artigo do norte-americano James A. Coriden, nos parágrafos sobre comunhão eclesial: “Nisto estamos todos juntos: teólogos, bispos e fiéis batizados... somos todos membros do corpo de fiéis cristãos, participando da função profética do próprio Cristo, e somos todos chamados a exercer a missão da Igreja, inclusive sua função docente, no mundo” (p. 68, baseando-se inclusive no Código de Direito Canônico, c. 204). Lembro um importante artigo de J. H. Newman na revista The Rambler (julho de 1859), em que ele disse que, no século IV, quando parte do episcopado aderira ao arianismo e o próprio Papa Libério estava titubeante, quem manteve a Fé foi o sentir religioso dos fiéis (sensus fidelium). Jean Guitton, leigo ele mesmo, escreveu a partir desse texto sobre a decisiva iniciativa laical (L’Èglise et les laïcs, 1963). Penso que os teólogos, em sua reflexão, deveriam debruçar-se sempre mais sobre o sentir e o agir do povo de Deus. Um exemplo: a prática dos anticoncepcionais entre os fiéis, hoje considerada com tranquilidade como coisa normal. Não se trata de tomar uma posição oportunista ou populista, mas de perceber a ortopráxis em ação. A sociologia da religião também pode iluminar os caminhos da reflexão e do magistério, com suas mediações sócio-analíticas. Digo isso de minha posição de leigo e de sociólogo político. Não tenho ofício teológico, ainda que como membro do povo de Deus, e experiência eclesial de muitas décadas, tenha algo a dizer aí. Gustavo Corção, em seus tempos de neurastenia, me chamou de “teólogo leigo tropical”. Gostei dessa última palavra, que me colocava dentro de minha cultura brasileira-espanhola e vizinho dos novos baianos de então.

Hoje, além dos escândalos da pedofilia e da má gestão das finanças, vemos uma disputa pelo poder nas altas esferas da Igreja, quando as lutas em surdina saem em boa hora à luz do dia, levando até à prisão do camareiro do Papa. Há muita coisa a ser repensada, e um lugar privilegiado aberto para a profecia e o pensamento utópico. Em lugar de priorizar um trabalho evangelizador fecundo e irradiante nas bases e nas pequenas comunidades, as autoridades religiosas parecem preferir as grandes manifestações de massa, como o recente encontro das famílias em Milão, reafirmando velhas fórmulas e como poderá acontecer provavelmente no encontro dos jovens aqui no Rio, no ano que vem. Agora, com o resultado do último censo, que mostra a diminuição constante dos fiéis na Igreja, um estudo publicado em órgão da CNBB, indica que há vitalidade, porque cresceram o número das paróquias e dos padres!  Azeita-se a máquina burocrática com fórmulas, instituições (as velhas e anônimas paróquias tridentinas) e agentes que não correspondem às necessidades do mundo de hoje. Nessa linha é significativo, como exemplo vindo do campo evangélico, o decréscimo da Igreja Universal, das reuniões multitudinárias, como nossas paróquias, e o crescimento da Assembléia de Deus, das pequenas comunidades, como nossas CEBs. Uma lúcida análise do sociólogo Pedro Ribeiro de Oliveira mostra outro resultado preocupante, a diminuição muito mais rápida da presença dos jovens na Igreja, o que permite projetar para a frente o resultado de uma Igreja que envelhece e que seguirá diminuindo ainda mais (entrevista em IHU, 5-07-2012). Isso, aliás, já se foi dando nos últimos anos na Europa.

Mas há movimentos significativos pelo mundo afora, pedindo mudanças e uma profecia difusa em tantas intervenções. As religiosas americanas e a teóloga Elizabeth Johnson, os padres alemães afirmando o direito à desobediência, os teólogos de língua alemã, dois bispos da Austrália, um dos quais, o de Camberra, renunciou denunciando a política vaticana, o próprio arcebispo de Paris pedindo mudanças em Roma, vários teólogos espanhóis tão valentes e que estão sob a mira do ex-Santo Ofício (Pagola, Queiruga)... Temos agora uma interrogação interessante. O papa nomeou, para a Congregação da Doutrina, o bispo alemão Gehard Müller, considerado “um ratzingeriano de ferro fiel ao concílio”, que estudou com Gustavo Gutiérrez e publicou com este último um livro sobre a escolha eclesial dos pobres. Podemos ter surpresas pela frente.

Mas não posso deixar de questionar: e a Igreja latino-americana? Leio um belo texto de Jon Sobrino sobre os pobres, também na linha da sempre presente reflexão de Gustavo Gutiérrez, mas há relativamente poucas reflexões sobre a necessidade de mudanças. Onde estão os bispos, os teólogos, os agentes pastorais e os cientistas sociais que marcaram Medellín e Puebla e colocaram a Igreja da região na vanguarda das opções? No Brasil, temos um episcopado coletivamente conservador, mediano e silencioso, longe dos tempos de Dom Hélder, dos primos gaúchos e de Dom Luciano. Dom Demétrio Valentini é uma voz quase isolada. Ainda bem que bispos eméritos estão aí, Clemente Isnard antes de morrer sendo corajoso, Waldyr Calheiros, José Maria Pires,Tomás Balduíno, Moacyr Grecchi, nosso querido Pedro Casaldáliga, profeta e poeta de vôo latino-americano, Evaristo Arns, como Martini, numa vida contemplativa e voltando à patrística de seus começos de teólogo. Mas o conjunto do episcopado na ativa fica aquém. E a CNBB expressa esse tom furta-cor. Falar de nomeações tutoradas pelos núncios é pouco dizer. É verdade que D. Hélder, em diálogo com o núncio Lombardi (que ele sonhava como um futuro secretário de Estado, não tivesse morrido logo depois do golpe), colocou em várias dioceses padres vindos da Ação Católica, mas muitos outros começaram conservadores e se converteram pela realidade da noite escura brasileira e pelo exemplo das comunidades. E a presença incômoda dos teólogos, relativamente poucos levantando a voz no discenso, como o faz a valente e implacável Ivone Gebara? Talvez o mais importante seja sair do mundo sufocante das cúrias e do direito canônico e, como Leonardo Boff, falar ao grande público dos principais problemas espirituais e sociais hoje do planeta terra, nossa casa comum. E outros, como o sempre atualizado Faustino Teixeira, escrevendo cada vez melhor, aprofundando o diálogo inter-religioso, descobrindo a presença de Deus em tantas tradições. O Brasil é um país ricamente variado em culturas, religiões e espiritualidades, visceralmente eclético, como flui nos encontros das diferentes crenças em cada carnaval de Campina Grande e como vimos no ato inter-religioso do Rio+20 (mesmo sem o carisma de D. Hélder e do Dalai Lama de vinte anos atrás).

Acabo de ler o último livro do teólogo leigo Vito Mancuso, que saiu em março e em três dias estava na segunda edição: Obbedienza e libertà. Critica e rinnovamento della coscienza cristiana ( Campo dei Fiori, 2012). Livro desafiante, que põe a ênfase na consciência. No começo do livro pareceria centrar-se na consciência individual e na subjetividade. Entretanto, mais adiante, sai dessa visão intra-subjetiva. Como quando, indo além de Goethe, que dizia que no princípio é a ação (logos), segue adiante: no princípio é a relação. Mounier nunca separava personalismo de comunitário. A consciência é pessoal, mas comunitária, no eu-tu de Buber. De acordo com Mancuso, há o primado da consciência sobre a obediência. Ao crente eclesiástico e dogmático ele contrapõe o crente evangélico e dialógico (é a relação que entra aí claramente). Os grandes temas da bioética hoje, da sexualidade, das exigências pastorais, etc. têm de ser vistos nessa visão dialógica. E me aventuro a colocar um questionamento para a discussão. O sacramento do matrimônio é dado pelos cônjuges. Nós pusemos em nosso convite em 1959: “Lucia e Luiz Alberto se darão o matrimônio”, o que na ocasião era uma certa novidade (objeto direto e não a preposição em). Relação de reciprocidade no amor. Mas então, o que acontece quando o amor, através do qual se realiza e mantém o casamento, fenece e morre? Não desapareceria o vínculo relacional? Segundas ou terceiras relações às vezes são melhores e a posição da Igreja oficial a esse respeito, com uma indissolubilidade formal e estática pareceria estar fora da realidade. Ou não permitindo aos recasados o acesso à Eucaristia. E o digo de uma posição pessoal fortemente monogâmica, que dobrou o meio século de amor cúmplice que tem sempre de refazer-se, mas que precisa estar aberto para entender todo tipo de outras relações, étero ou homo. É curioso constatar como, em voz baixa, bispos e sacerdotes são favoráveis a vários pontos, ao fim do celibato obrigatório, ou à ordenação de mulheres. Mas se calam numa autocensura de pobre e rasteira prudência.

Voltando a Mancuso, ele tem um capítulo esplêndido sobre o lema que Martini, seu querido mestre, escolheu ao ser nomeado de surpresa, arcebispo de Milão: Pro veritate adversa diligere, isto é, amar a contradição, o adverso, o diferente e a diferença. Por amor a uma verdade que não está feita, mas se faz. Chave para o diálogo inter-religioso. Mancuso recupera com coragem o sentido profundo de heresia, que vem do grego haíresis, escolha. E cita Peter Berger na sua idéia do imperativo herético. Não se trata de querer ser original a toda prova, nem de negar a tradição, mas estar aberto às contradições. E descobrir nas heresias – sendo mesmo um pouco herege – as verdades escondidas numa realidade contraditória. São os paradoxos que, desde minha juventude, sempre me entusiasmaram em Chesterton.  Ainda que ele chegasse a dizer que as heresias seriam verdades enlouquecidas, com o que não concordo, por ocultar um dogmatismo velado.

O livro de Mancuso é um hino à consciência (repito, para mim sendo ela relacional e não fechada na subjetividade de cada um). E ele lembra a citação deliciosa de Newman, que este Papa admira tanto que o fez beato. Dizia o grande teólogo: Se tivesse, num banquete, que levantar um brinde ao Papa (ainda que o banquete não fosse o lugar mais adequado para isso), faria o brinde ao Papa, mas antes à consciência. É a partir dessa consciência de membros do povo de Deus que devemos ser rebeldes, em nome da verdade que libera e que se constrói. Por isso, baixa uma tristeza funda vendo a Igreja institucional não levar a sério o seguimento de Jesus, que criticou duramente o poder de sacerdotes levitas apressados e burocráticos e considerou como próximo o herege samaritano.
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 * Sociólogo.

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