domingo, 19 de agosto de 2012

LITERATURA APOCALÍPTICA


O reconhecimento da existência de género “apocalíptico” - adjectivo derivado de “apocalipse”, termo grego que significa revelação - definido como “a fenre of revelatory literature with a narrative framework, in which a revelation is mediated by an other wordly being to a human recipient, disclosing a transcendent reality which is both temporal, insofar as it envisages eschatological salvation, and spacial insofar as it involves another supernatural being” (John J. Collins, “Intdroduction : the Morphology of a Genre”, Semeia, 14, 1979, p. 9) tem inicialmente a sua origem num conjunto de textos do judaísmo tardio e do cristianismo primitivo (c. 200 a. C. - 200 d. C.), textos repletos de uma complexa simbologia e que partilham elementos como o julgamento e a destruição do mundo e/ou dos pecadores (também dos opressores), a transformação cósmica, através do qual o mundo é renovado, e a ressurreição, que pode assumir forma física ou outras formas de vida para além da morte.
Entre estes textos, que incluem entre outros, o Livro II de Enoc, o Apocalipse de Abraão, o Livro II de Baruc, o Livro IV de Esdras, o Livro de Daniel e o Apocalipse de S. João, destaca-se pela influência exercida no pensamento ocidental, o Apocalipse joanino (datado dos finais do século II a. C.), o último livro do Novo Testamento, também significativamente chamado Livro da Revelação. Anunciador da destruição de Babilónia, o Apolacipse joanino, que não poderá deixar de ser relacionado com as profecias de Livro de Daniel (c. 165 a. C.), anuncia a Segunda Vinda de Cristo, que capturará e acorrentará o Dragão na grande batalha de Armagedão. Terá então início um reino messiânico (o Quinto império de Daniel), era de paz e justiça que vigorará por um período de mil anos. Com Cristo reinarão os mártires e os santos devolvidos à vida pela primeira ressurreição. Decorrido o milénio, Satanás será solto e seguidamente derrotado, sucedendo-se o Juízo Final e a segunda ressurreição e dando o mundo antigo lugar a um “novo Céu e uma nova Terra”.
É no Apocalipse que tem origem o termo milenarismo (ou quiliasmo), associado à crença numa era em que o Homem conseguirá realizar os seus desejos de felicidade sobre a Terra. Contudo, a ideia da destruição cataclísmica do universo regista antecedentes nos mitos cosmogónicos do Fim do Mundo que, misturados com elementos das religiões do próximo Oriente, seriam absorvidos e transformados pela Antiguidade Clássica.
O milenarismo apocalíptico do Livro da revelação não morreria com os tempos desde os Oráculos Sibilinos, corpo de textos proféticos que surge no século II, até aos três Estados ou Idades de Joaquim de Flora (século XII), encontrando-se especialmente associado aos finais de século. É o caso do ano 1000 da nossa era e do final do século XIX que, significativamente vê cunhada a expressão fin-de-siècle, traduzida em muita da literatura finissecular por imagens de queda que exprimem a ideia de que o mundo se encontra em ruínas e, qual Babilónia, brevemente desabará. Na literatura portuguesa da época títulos como, p. ex., Finis Patriae de Junqueiro, Fim de um Mundo de Gomes Leal ou Despedidas de António Nobre são exemplificativos da visão cósmica do Fim dos Tempos. Porém, o melhor exemplo da escatologia milenarista é a Pátria junqueiriana, obra em que o mundo a vir é identificado com a República. É conhecida a influência da Pátria na Mensagem de Fernando Pessoa e a persistência, na literatura portuguesa, do mito do Quinto império e do sebastianismo, também ele enquadrado na tradição joaquimita.
Porém, um pouco em todas as épocas a literatura ocidental regista a influência do Apocalipse joanino e do pensamento de Joaquim de Flora. P. ex., The Apocalypse in Enflish Rensaissance Rhought and Literature, conjunto de estudos reunidos por Joseph Patrides, mostra como o pensamento apocalíptico-milenarista se encontra patente em The Faerie Queene, King Lear ou Paradise Lost assim como nos romãnticos e na literatura vitoriana. Por sua vez, Marjorie Reeves estuda de que forma o pensamentojoaquimita sobrevive em Huysmans, Yeats (também mencionado por Frank Kermode no seu estudo The Sense of an Ending) e D. H. Lawrence, entre outros. Ainda no século XX o corpus da literatura apocalíptica não só não tem deixado de se alargar, combinando-se com outros géneros como, p. ex., o romance de império, a utopia , o fantástico e a ficção científica. Disso são exemplicativas obras como Heart of Darkness de Joseph Conrad, The Time Machine de H. G. Wells, Nineteen Eighty-Four de George Orwell, o que mostra como motivos, personagens e símbolos têm tomado novos significados de acordo com os modelos estéticos e os credos políticos que ditaram a produção dos textos.
Bibliografia
Bernard Brugière, “Qu’Appelle-t-on aujourd’hui littérature apocalyptique?”, in Age d’Or et apocalypse, pp. 11-128, 1986; Maria Teresa Pinto Coelho, Apocalipse e regeneração: O Ultimatum e a mitologia da Pátria na literatura finissecular, 1997; Norman Cohn, The Pursuit of the Milennium: Revolutionary Millenarians and Mystical Anarchists of the Middle Ages, 1957: John J. Collins, “Introduction: the Morphology of a Genre”, in Semeia, 14, 1979; Frank Kermode, The Sen of an Ending. Stduies in the Theory of Fiction, 1966; C. A. Patrides e Joseph Wittreich, The Apocalypse in English Renaissance Thougt and Literature: Patterns, Antecedents and Repercussions, 1984; Marjorie Reeves e Warwick Gould, Joachim of Fiore and the Myth of the Eternal Evangel in the Nineteenth Century, 1987.

Nenhum comentário:

Postar um comentário