terça-feira, 14 de agosto de 2012

Visíveis a Deus


Daniel Grubba


Gosto de andar em meio aos livros da biblioteca da faculdade em que estudo. O silêncio monástico do ambiente, a concentração dedicada dos estudantes, o cheiro dos livros, tudo agrada e satisfaz os sentidos. Foi numa dessas andanças, procurando alguns livros sobre espiritualidade, que encontrei um que chamou minha atenção. O livro versava sobre a oração dos salmos judaicos e fora escrito por um rabino polonês muito conhecido por sua fé hasídica e ativismo político.


Compartilho apenas uma frase de impacto que chamou minha atenção, por sua beleza e profundidade. Veio da pena de Abraham J. Heschel (1907-1972) no livro "Man's Quest for God: Studies in Prayer and Symbolism" a seguinte afirmação:

"Nós não podemos torná-Lo visível para nós, mas nós podemos nos tornar visíveis para Ele".

De fato, como bem disse o piedoso rabino, não há nenhum meio ao nosso dispor para que possamos tornar Deus visível para nós. Se bem que algumas pessoas infantilizadas em sua fé andam em busca de sinais de sua Presença como aqueles judeus incrédulos do deserto ou como os inimigos de Jesus que pediam pão do céu; e um pouco mais freak do que isso, alguns andam dizendo que possuem a fórmula para fazer Deus se manifestar. Pobres coitados, manipuladores da fé simples do povo. Apenas Deus, se assim desejar, pode se manifestar a nós e sinalizar historicamente sua Presença.

Contudo, o problema que enfrentei ao meditar na frase de Heschel está na continuação do pensamento, quando ele diz que "nós podemos nos tornar visíveis para Ele". A pergunta que surge naturalmente é: Como podemos nos apresentar a Deus? De acordo com o contexto da tese de Heschel no livro, nos tornamos visíveis a Deus quando oramos e invocamos seu Nome. Interessante, pois encontrei um pensamento parecido em C.S. Lewis em uma de suas correspondências com Malcom sobre oração. Em suma, ele diz que Deus nos conhece como quem conhece um objeto qualquer.

Eu

conheço esta tela, este teclado e garrafa de água a minha frente. Porém, quando oramos a Deus, deixamos de ser um objeto de seu conhecimento como as coisas e nos tornamos uma pessoa que se relaciona com Ele.

Finalizo minha reflexão afirmando que apenas podemos nos tornar visíveis a Deus por intermédio de Jesus, seu Filho amado. É apenas em Cristo que somos aceitos pelo Pai. Talvez seja aqui neste ponto que a frase de Heschel perde sua força. Como disse o teólogo protestante Karl Barth, "nós oramos pela boca de Jesus", ou seja, quando oramos, o Pai ouve como se o próprio Cristo estivesse orando. Essa é a minha esperança e é nisso que eu acredito. Meu maior temor é estar diante de Deus sem as vestes puras de Jesus, pois eu sou um trapo ambulante e seria fulminado sem a justiça que o Filho atribui graciosamente aos que invocam seu santo salvador. Vamos orar?

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Foto do post: (Será que Heschel estava ligando para Deus?)

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