sexta-feira, 5 de outubro de 2012

A Natureza da Teologia





1. Definição e objeto da Teologia


O termo Teologia é de origem grega, e etimologicamente significa: tratado, ciência de Deus. O termo começou a ser utilizado pelos cristãos a partir de Euzébio de Cesarea. A partir de então será entendido como a exposição metódica e estruturada da Revelação aceita pela Fé.

Seria compreender e penetrar nas verdades reveladas à luz da razão iluminada pela fé.

Ou melhor, poderíamos defini-la como: a ciência na qual a razão do crente, guiada pela fé teologal, se esforça em compreender melhor os mistérios revelados em si mesmos e em suas conseqüências.




1.1 O objeto da Teologia



Distinguimos:

1. Objeto material - é a realidade da que propriamente se ocupa a Teologia. O objeto é Deus e todas as realidades por Ele criadas e governadas por seu desígnio salvador. O objeto material primário ou principal é Deus e o objeto secundário são todas as coisas criadas enquanto ordenadas a Deus.

2. Objeto formal - Uno é o objeto formal "quod": que é o próprio Deus. "Deus sub ratione Deitatis" e o outro é o objeto formal "quo": luz intelectual sobre a qual o objeto é considerado. Neste caso, a razão é iluminada ou guiada pela fé.




2. Fé e Teologia



Dizemos que às verdades da Revelação podemos nos aproximar através da Fé, enquanto os conteúdos da Revelação são críveis (ut credibilia), e por meio da Teologia enquanto essas verdades reveladas são inteligíveis (ut intelligibilia), quer dizer, como suscetíveis de uma compreensão cada vez maior.

A fé é assentir a uma verdade enquanto digna de ser crida. É próprio da Teologia analisá-la. O motivo formal da fé é a autoridade de Deus que revela; a da Teologia, é a percepção pela razão da inteligibilidade do crido. A fé é sempre pressuposto absoluto da Teologia, não só porque é sua matéria-prima, dado que a Teologia se faz a partir da fé, mas porque a boa Teologia se deve fazer desde dentro da fé, e é assim algo mais que uma simples reflexão racional sobre os dados da Revelação.

Por isto afirma Santo Agostinho: "intelligere ut credas, credere ut intelligas" (entender para crer e crer para entender).

S. Anselmo de Canterbury entende a Teologia como "fides quarens intellectum"; a fé que busca entender, não por curiosidade senão por amor e veneração ao mistério. O crente não discute a fé, porém mantêm-na firme para buscar as razões pelas quais a fé assim.

Portanto a Teologia é o desenvolvimento da dimensão intelectual do ato de fé. É uma fé reflexiva, fé que pensa, compreende, pergunta e busca. Trata de elevar, dentro do possível, o credere ao nível de intelligere. O Teólogo se apóia na solidez do conhecimento de Deus pela fé, porém apoiando-se também na razão humana e suas aquisições certas. Então, com tudo isto, o teólogo tentar ordenar a interpretar os dados da crença católica de modo que se vejam seus encadeamentos tais como Deus os dispôs.




3. Teologia como ciência



Para mostrar o caráter científico de ciência, antes temos que definir o conceito de ciência.

Se entendermos por ciência somente aquela disciplina caracterizada por uma aproximação à verdade (com um método e um poder sobre o real) ligado a uma gestão cuja exatidão é dirigida e verificada por uma experimentação, certamente a Teologia não é uma ciência, posto que o científico seria somente o rigorosamente verificável.

Porém, se entendemos como ciência aquela disciplina que pode provar um objeto, um método próprio e possa desembocar em condições que se possam comunicar aos outros; nesse sentido poderíamos falar de ciência canônica, ciência bíblica e ciência teológica (em razão do rigor).

São Tomás de Aquino responde mantendo o caráter científico da Teologia baseando-se em dois argumentos:

1) Normalmente a ciência tem evidência de seus princípios, porém as ciências cujos princípios vêm de outra ciência superior que consegue demonstrar a evidência daqueles princípios. Existem ciências que se embasam em alguns princípios dados por outras ciências superiores, de modo que não partem da evidência de seus princípios, mas que partem de princípios que são evidentes em outras ciências superiores. Estas ciências chamam-se ciências subalternas.

A Teologia é uma destas ciências subalternas que se baseiam em princípios, cuja evidência não a demonstra a Teologia: são as verdades da fé. Não obstante, há uma ciência, superior a Teologia, para a qual os princípios são sim evidentes: é a ciência de Deus. Com efeito, a visão direta dos mistérios, existe em Deus e nos bem-aventurados, com os quais a fé nos põe em comunhão.

Portanto, concluímos que a Teologia é uma ciência, uma ciência subalterna da ciência de Deus.

2. Também cobra razão de ciência quando consegue construir racionalmente o revelado de tal maneira que determinadas verdades se apresentam religadas à outra como as suas raízes reais, apresentam-se religadas a uma situação de conseqüência por referência a um princípio. Quer dizer, a Teologia é uma ciência porque existem verdades - conclusões que partem racionalmente de verdades - princípios, de modo que resulte que ambas (conclusões e princípios) sejam igualmente reveladas. Quer dizer, é ciência porque se logra obter conclusões de princípios revelados de tal forma que as conclusões também se considerem reveladas.

Conseguem adquirir conclusões mais além do revelado formal por uma elaboração teológica. Se isto não fosse assim, não poderíamos sair do Kerigma, e perderíamos grande quantidade de verdades secundárias que partem de um desenvolvimento racional da Revelação e que, portanto, também são verdades. (cfr. Yves Congar, Fe y Teología)




4. Método próprio da Teologia: as Fontes Teológicas


O método que a Teologia utiliza pode-se desenvolver em três etapas: (1) expressão da doutrina da Igreja sobre uma determinada verdade de Fé, (2) demonstração ou esforço de compreensão da doutrina a partir da Sagrada Escritura e Tradição e por último (3) reflexão especulativa. Desta forma a Teologia vai desenvolvendo seu discurso científico.

Este modo de proceder permite apreciar os componentes ou fases essenciais de seu método, que busca a compreensão científica da Revelação através de dois caminhos:

(1) Fixação do conteúdo da Revelação ou mais exatamente possível: auditus fidei.

(2) compreensão e síntese desse conteúdo: Intelectus fidei. Ambos são aspectos complementares e indispensáveis da Teologia.

O primeiro momento, que é o momento positivo da Teologia, trata (entre outras coisas) do estudo das fontes da Teologia.

As fontes da Teologia são, a Sagrada Escritura, a Tradição da Igreja e o Magistério autêntico. De algum modo pode considerar-se também a História.

1. A Sagrada Escritura é a palavra de Deus, enquanto escrita por inspiração do Espírito Santo (DV 9), por isso a Escritura deve ser a alma da Teologia (DV 24). É a base das afirmações teológicas, por isso a exegese torna possível um aprofundamento e um rejuvenescimento da Teologia.

Não obstante, a Sagrada Escritura deve estar unida à Tradição para empregar o reto sentido dos textos.

2. A Tradição reflete a vida intelectual, orante e litúrgica da Igreja. É anterior à Escritura mesma e mantém com ela uma profunda relação. É a palavra de Deus não escrita, está formada por um conjunto de testemunhos às vezes eclesiais que dão razão da Fé da Igreja.

A Tradição e a Escritura estão estreitamente unidas, manam de uma mesma fonte. A Igreja não tira exclusivamente da Escritura a certeza do revelado, porque a Tradição recebe a palavra de Deus (encomendada por Cristo e pelo Espírito Santo aos apóstolos) para que eles (iluminados pelo Espírito) a conservem, exponham e difundam (DV 9).

Podemos encontrá-la nos escritos do santos padres, atas de mártires, autores místicos, ensinos das conferências episcopais, a legislação canônica, sensus fidelium, etc.

3. Magistério. Foi encomendado dele o ofício de interpretar autenticamente a palavra de Deus, oral ou escrita, e o exercer em nome de Jesus Cristo (DV 10).

Em virtude do mandato recebido de Cristo e por um dom especial do Espírito Santo (carisma da assistência), o Magistério têm a missão de conservar o depósito da Fé em toda a sua integridade. Protege o depósito da Fé dos erros e julga com autoridade as interpretações da Revelação que oferece a Teologia e ele mesmo fornece considerações é desenvolvimentos em torno da Fé.

A Teologia analisa o extenso corpo documental da doutrina emanada pelo Magistério ao longo dos séculos e escuta o Magistério vivo que se pronuncia sobre as questões do momento.

Assim, pois, a Tradição, a Sagrada Escritura, e o Magistério estão tão unidos que nenhum pode subsistir sem os outros(DV 10).

Por último, o recurso à História não é propriamente uma fonte, se é certo que pode ajudar muito enquanto que pode colaborar a entender melhor como essas verdades se interpretam e vivem dentro da Igreja com o transcurso do tempo.




5. Teologia Positiva e Teologia Especulativa



A Teologia positiva, como temos visto, é a ciência do conteúdo integral da Revelação, que intenta determinar e traçar toda a história documental do objeto crido em sua Revelação, sua transmissão e sua proposição. Deseja conhecer o corpo ou a forma externa do dado revelado, com o estilo metódico e exaustivo que é próprio das ciências positivas. O faz para chegar a uma inteligência mais aprofundada da palavra de Deus.

Trata de responder à seguinte pergunta, qual é exatamente a verdade revelada por Deus? Procura determinar e estabelecer o que Deus revelou e como o revelou; se o fez direta ou indiretamente, de modo explícito ou implícito, com expressões obscuras ou claras, etc. E porque as doutrinas reveladas não se encontram sempre com a mesma nitidez, pode ser necessário um trabalho interpretação, para o qual o Magistério representa um guia imprescindível.

É verdadeira Teologia e serve-se de métodos filosóficos e históricos (o teólogo).

Teologia especulativa: aprofunda-se nas verdades reveladas, mostra sua inteligibidade, a conexão e harmonia que reina entre elas, servindo-se da ajuda das ciências humanas.

Leva a uma compreensão mais profunda do dado revelado, porém não deve ser confundida com uma simples especulação; não é a aplicação de uma filosofia técnica à compreensão da doutrina revelada. Senão, que toda a Teologia especulativa está sob o controle e a luz do mistério da salvação. Não é uma superestrutura da Teologia positiva, um modo incorporado extrínseco ou facilmente separável, senão que o pensamento especulativo se encontra englobado na Teologia positiva. O dado de fé não é unicamente o ponto de partida; é o princípio vital que a anima ao longo de todo seu caminho de reflexão fiel.

A possibilidade da Teologia especulativa se embasa em uma epistemologia realista: a mente humana é capaz de captar como autênticas realidades a existência de mistérios revelados.

Para isto, tem grande importância o tema da analogia. A analogia entis permite-nos falar de Deus de modo que nossa linguagem tenha sentido. Podemos dizer algo de Deus ainda que não se lhe possa aplicar univocamente. A analogia fidei responde a duas realidades. (1) Faz que toda afirmação teológica concorde com a fé objetiva e possa ser entendida a partir dela (permite-nos interpretar o Antigo Testamento em relação com o Novo Testamento) e (2) nos diz as relações e conexões entre os diferentes mistérios.

Por último, a filosofia serve à Teologia de modo que o teólogo pode empregá-la segundo as exigências e natureza dos mistérios da fé. A Teologia não está ligada a nenhuma filosofia, pode usar todo o verdadeiro que se encontre em cada uma. Não obstante, nem toda filosofia é apta para expressar a Revelação divina.

- Apoiada a Teologia especulativa no que teemos dito acomete duas grandes tarefas: compreender e organizar o dado revelado.

1. Compreender o melhor possível o dado revelado. Não quer dizer que os mistérios possam ser demonstrados ou assimilados como se fossem dados totalmente evidentes. Senão que é a busca do sentido preciso que se encerra na fé e relacionar os mistérios entre si.

Quer dizer, o trabalho especulativo trata de: definir conceitos, deduzir conclusões, dar argumentos de conveniência, responder as objeções, mostrar a conexão entre os mistérios, etc.

2. Trabalho sistemático: a Teologia procura expor com rigor os preâmbulos da fé (mostrar que a fé, ainda que não seja evidente, não é absurda de modo que o homem possa aceitar). Apresentar uma síntese dos mistérios da fé (de maneira que se mostre o melhor possível a unidade e coerência da doutrina revelada). E relacionar seus dados e conclusões com o mundo da ciência e da cultura.




6. Unidade da Teologia e Pluralidade das Disciplinas Teológicas



A unidade da Teologia dentro da pluralidade de suas disciplinas garante-se pelo fato de que todas têm o mesmo objeto formal que é Deus que se revela por meio de Jesus Cristo.

A divisão das diferentes disciplinas teológicas vai aparecendo progressivamente. Podem ser divididas em três grupos:


A. Disciplinas histórico-bíblicas:

1. História - estuda a influência da Revelação no mundo depois de Cristo.

2. Ciências bíblicas - investigam a produção da Revelação divina, sua história e seu conteúdo na Sagrada Escritura. São: (a) Introdução à Sagrada Escritura, (b) Exegese do Antigo Testamento e Novo Testamento, (c) Teologia bíblica.


B. Teologia Sistemática:


1. A Teologia Dogmática - expõe sistematicamente as realidades que se nos tem manifestado na palavra de Deus. Trata das verdades fundamentais da Fé.

2. A Teologia Moral - interpreta cientificamente as normas práticas contidas na Revelação.

3. A Teologia Espiritual - estuda a vida crista como realidade dinâmica. Preocupa-se dos atos pelos quais o homem entra em relação com Deus. Também dos meios que tornam possível ou facilitam esta relação.


C. Teologia Prática:


1. Liturgia - descreve o modo em que a obra de Cristo é atualizada na Igreja.

2. Direito Canônico - expõe a ordem dada por Cristo à Igreja enquanto povo de Deus e desenvolvido por ela mesma.

3. Teologia Pastoral - explica a arte de formar os homens conforme o seu caráter de filhos de Deus e de levá-los até a última plenitude celestial.

Prévia a estes três grupos está a Teologia Fundamental (disciplina que mostra a factibilidade da Revelação, demonstrando com ela a racionalidade da Fé).

Estes três grupos acima assinalados necessitam-se uns dos outros, relacionam-se reciprocamente de modo que nenhum deles pode subsistir sem os demais.




7. Teologia e missão da Igreja: cultura e evangelização



A piedade e a formação estão muito unidas entre si e com o exercício do apostolado. "Não é ciência em absoluto, se não tem nenhum valor para a piedade (...) e carece de valor toda piedade sem a capacidade de discernimento da ciência" (São Gregório Magno).

"Piedosos, pois, como crianças: porém não ignorantes, porque cada um há de esforçar-se, na medida de suas possibilidades, no estudo sério, científico da fé; e tudo isto é a Teologia" (É Cristo que passa, nº 10).

Este estudo, aprofundamento na ciência teológica, tem também um grande valor evangelizador, como recordou no último Concílio no Decreto sobre o Ecumenismo, pois ao aprofundar no revelado se põe mais de manifesto o atrativo e o valor da verdade sobre Deus, o homem e o mundo, que somente a Igreja Católica possui completamente e sem m
escla de erro.

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