sábado, 17 de novembro de 2012

Dois ensinamentos claros do Novo Testamento


É inútil agir ingenuamente em relação à Bíblia, procurando respostas simples para questões morais e sociais complexas. Um texto composto há tanto tempo não contempla os problemas do século 21. Ainda que contenha normas com relação à lepra e aos sacrifícios, não oferece aconselhamento sobre problemas atuais como poluição do meio-ambiente, direito dos trabalhadores, uso de armas atômicas, taxa de impostos justa ou eutanásia.
Entretanto, alguns problemas morais são atemporais, e sobre alguns deles os ensinamentos do Novo Testamento são claros. Qual deveria ser nossa atitude diante da violência? Deveríamos considerar legítimos quaisquer meios para alcançar nossos fins? Um cristão poderia observar que o pacifismo é um ponto de vista consistente e estabelecido, no Novo Testamento. O Pacifismo não é apenas sugerido; a Bíblia o recomenda claramente em várias passagens. Esta é, além disso, a visão do próprio Jesus: “Mas eu te digo, não resistas ao mal. Se alguém te bater na face direita, oferece-lhe a outra” (Mat. 5:39). São Paulo acrescenta que não devemos pagar o mal com o mal, mas deixar a vingança nas mãos de Deus (Rom. 12:17-21). Estas palavras e outras semelhantes, espalhadas pelo Novo Testamento, são tão familiares que não percebemos o quanto são radicais, mas os primeiros cristãos perceberam. Durante os primeiros três séculos do movimento cristão uma grande porcentagem de seus adeptos foi pacifista. Somente após a conversão de Constantino, quando o Cristianismo se tornou a religião oficial do Império, o pacifismo cedeu lugar à ideia de Guerra Justa e ao direito de autodefesa.
Outra questão atemporal consiste em saber que atitude se deve tomar em relação ao dinheiro. Por um lado, parece errado gastar dinheiro com luxo enquanto crianças em países do terceiro mundo estão morrendo por falta de alimento e cuidados médicos básicos. Por outro, você poderia achar que não é responsável pelo bem-estar de estrangeiros em lugares distantes e, se tiver uma vida honesta e decente, não pode se sentir culpado por apreciar o dinheiro que ganhou com seu próprio trabalho. Confrontado com essas ideias plausíveis, mas incompatíveis, o que pensar?
Um crente poderia perceber, com certo grau de razoabilidade, que somente um destes procedimentos é consistente com o Novo Testamento. No Velho Testamento, a riqueza é um sinal de favorecimento divino. No Novo Testamento, todavia, a associação da riqueza com o divino é abandonada; são o pobre e o manso de espírito que estão fazendo o trabalho de Deus. Mais uma vez, a familiaridade pode ter roubado das passagens relevantes seu poder de chocar:
E, pondo-se a caminho, correu para ele um homem,
que ajoelhou-se diante dele e perguntou-lhe:
Bom Mestre, o que devo fazer para
merecer a vida eterna? E Jesus lhe disse:
Por que me chamas bom?
Ninguém é bom, senão Deus.
Tu sabes os mandamentos: Não matarás,
não cometerás adultério, não roubarás,
não levantarás falso testemunho, não defraudarás,
honrarás teu pai e tua mãe.
E ele respondeu: Mestre, tudo isto eu tenho observado
desde a infância. E Jesus, olhando para ele,
o amou e disse: falta-te uma coisa ainda;
vai, vende tudo o que tens, dá aos pobres e
terás um tesouro no céu; depois vem, e segue-me.
E assim dizendo sua face entristeceu, e ele se retirou
pesarosamente, porque era homem de grandes posses.
E Jesus, olhando ao redor, disse a seus discípulos:
Quão difícil é para aqueles que possuem riqueza
entrar no reino de Deus! (Marcos 10: 17-23)

Tendo percebido tudo isso, um crente poderia decidir se comprometer com um modo de vida que renuncia tanto à violência quanto à riqueza. Mas esses compromissos se justificariam? Mais uma vez, se a justificação está em questão, precisaríamos saber as razões por trás das imposições das escrituras. Aceitá-las “pela fé” seria algo como se aconselhar com um amigo confiável. Ainda que não se deva concluir que o conselho foi correto simplesmente porque veio de seu amigo, você poderia acreditar que ele teve boas razões para lhe dar esse conselho. Um amigo, todavia, não o deixaria na ignorância sobre suas razões. Ele lhe diria quais são, para que você pudesse julgar por si mesmo que caminho seguir.
Em qualquer medida, um cristão que aceitasse este ideal estaria seguindo os ensinamentos do Novo Testamento. Mas não teria muita companhia. Atualmente, os cristãos apoiam as guerras de seus países e, onde o dinheiro está envolvido, as ideias do Rev. Bruce Wilkinson são mais populares. O Rev. Wilkinson é o autor de um livro de devoção de 96 páginas, The Prayer of Jabez, que celebra uma obscura oração de quatro linhas esquecidas na genealogia do Crônicas I. Jabez, conta-nos a passagem, pediu a Deus para “ampliar seu território”, e Deus o atendeu. Isto é tudo o que sabemos sobre ele. Então o Rev. Wilkinson conclui: “Quando os executivos cristãos me perguntam ‘É certo pedir a Deus que amplie meus negócios?’ Minha resposta é: ‘Claro!’” Seu livro foi publicado dois anos atrás, e desde então tem vendido um milhão de cópias.

Tradução para português do Brasil de Eliana Curado, Universidade Católica de Goiás, Brasil. Professora de Filosofia Antiga, Filosofia da Arte e Lógica. Mestre em Filosofia pela Universidade Federal de Goiás.

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