quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

A história dos negros argentinos: por que eles quase “sumiram” do mapa por lá?

Assim como o Brasil, Canadá, Austrália, Estados Unidos e África do Sul, a Argentina também é considerada um país de imigrantes, que viveu seu fluxo maior a partir de 1850, até 1950. De acordo com dados históricos, o país só perde para os Estados Unidos em número de imigrantes europeus que recebera ao longo deste tempo, em sua maioria italianos e espanhóis. Cerca de 85% dos argentinos de hoje se identificam como descendentes destes imigrantes europeus que aportaram em Buenos Aires há mais de um século.

No entanto, uma situação no mínimo interessante intriga muitas pessoas: o país, que foi colônia de exploração espanhola até o final da década de 1810, tinha uma população negra de escravos bastante densa. Entretanto, atualmente, menos de 4% dos argentinos de hoje são afrodescendentes. No interior do país essa margem vai aumentando, passando para 7% e até 21%, dependendo da cidade. O que será que aconteceu a esses escravos do Prata? Há heranças africanas por lá como temos aqui?


Durante os séculos 17 e 19, o tráfico negreiro era bem ativo no Atlântico Sul. Os portos de Salvador, do Rio de Janeiro e Buenos Aires recebiam milhares de escravos anualmente para serem vendidos em mercados populares a preços altíssimos. Durante a dominação espanhola do vice-reino do Rio da Prata, os negros compunham mais da metade da mão de obra. Para o europeu, era indigno que um branco fizesse uma série de serviços braçais e domésticos.

No entanto, de um modo geral, há que fazer ressalvas. A colonização hispânica das Américas preferiu forçar o indígena ao trabalho, optando pelos negros quando (1) não havia mão de obra indígena disponível, (2) quando os índios eram considerados selvagens para a catequização ou (3) quando a mão de obra dos índios diminuía consideravelmente por causa da fome, das doenças e das péssimas condições de trabalho. Na Argentina percebemos os dois primeiros motivos, sendo que era a Inglaterra quem fornecia os cativos ao Vicerreino do Prata.

Como, então, explicar que uma população que compunha o quadro demográfico em pelo menos 50% tenha sido reduzida para 4%, em média? Há vários motivos que convergem para essa diminuição absurda, que se torna caso histórico – como o quase desaparecimento dos índios nos Estados Unidos.

Com a abolição da escravidão na Argentina, em 1853, muitos negros foram deixados à própria sorte e a pobreza ficou extrema. Assim, muitos morreram de epidemias de cólera, hepatite etc. Situação que era bastante comum por falta de políticas públicas de saúde e saneamento básico;

Durante as guerras de independência e, principalmente, durante a Guerra do Paraguai, o exército argentino recrutou forçosamente os negros forros em situação de miséria, prometendo a eles um soldo. Isso se tornou um atrativo para combater a fome, mas grande parte foi dizimada pela falta de treinamento, ao contrário dos brancos que já conviviam com a cultura militar há décadas;

O enorme fluxo migratório europeu, a partir de 1850, fez com que os recém-chegados substituíssem a mão de obra negra em fazendas e nas fábricas instaladas há pouco tempo naquela nação. Os patrões e proprietários de terras entendiam que os colonos da Europa já estavam habituados àquele sistema;

O caso de miscigenação foi muito pequena perto do que vimos no Brasil. Os administradores hispano-argentinos não eram habituados à prática sexual recorrente com as escravas.

(Abaixo, fotos de Buenos Aires na virada do século 19 para o 20 e escravos para comércio na cidade)





Somente em 2006 que o governo argentino decidiu fazer um censo-piloto sobre esta questão. Foram selecionados alguns bairros periféricos de algumas cidades importantes do país. Mais de 5% dos entrevistados sabiam que tinham antepassados africanos. Outros 20% consideravam que poderiam ter, mas não havia certeza.

No interior do país a porcentagem de negros aumenta porque, no século 19, a Argentina ainda não estava reunida em um governo único; era uma reunião de províncias cuja capital, Buenos Aires, decidia alguns assuntos. Por isso que muitos deles não foram para as guerras e sofreram as duras consequências da falta de preparo.

A influência cultural...
De acordo com alguns historiadores da cultura, o efeito mais duradouro da influência africana na Argentina tenha sido o próprio tango (na foto abaixo, o tango em 1920), que fazia parte das cerimônias escravas conhecidas como tangós. Por volta de 1880, muitos dos primeiros compositores de tangos eram mestiços, inclusive.

Assim como no português brasileiro, o espanhol falado na Argentina também está repleto de palavras de origem africana. No âmbito religioso também há alguma influência dos ritos africanos, principalmente em locais onde se batem tambores, parecidos com os centros de umbanda e candomblé no Brasil. Nos últimos anos houve um crescimento muito grande de adeptos dessas crenças (as santerías). Contudo, é um país reconhecidamente racista em diversas práticas.


No período que Buenos Aires era capital da administração espanhola na região do Prata, as autoridades qualificaram algumas “raças”. Assim, as pessoas tinham direitos e deveres diferentes perante a sociedade e a administração pública.

MULATO – nascimento de negro com branco;
TERCERÓN – nascimento entre branco com mulato;
QUARTERÓN – nascimento de branco com “tercerón”;
QUINTERÓN – nascimento de branco com “quarterón”;
ZAMBO – nascimento entre negro com índio
ZAMBRO NEGRO – nascimento entre negro com índio, cujo indivíduo tinha forte característica física africana;
SALTO ATRÁS – quando a criança mulata ou “tercerón” era mais negra que os pais.

Estas classificações eram utilizadas para estigmatizar as pessoas e impedir seu acesso social a bens comuns como educação e saúde, ou a entrada no exército (em períodos de relativa paz). Na imagem abaixo temos uma imagem de uma celebração de tangó em Buenos Aires na década de 1820, logo após a independência argentina.


A história dos negros na Argentina mostra que não somente no Brasil houve uma situação bastante cruel no reconhecimento da existência, da cidadania e da individualidade destas pessoas. Talvez o choque maior se dê no pensamento de que eles tenham sido usados como soldados de front, sem o mínimo preparo, em guerras que os governos brancos e europeizados estiveram. Para alguns historiadores argentinos, é de chocar quando imaginamos que um grupo gigantesco que um dia compôs 50% da mão de obra para o nascimento de uma nação livre tenha sido drasticamente reduzido a, talvez, 4% em 200 anos.


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