quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Considerações sobre os ciganos. Você realmente os conhece?

por orlando castor

Muito se fala sobre o misticismo dos ciganos como o poder ler o destino das pessoas através da quiromancia (leitura das linhas das mãos) e do baralho cigano. Entretanto, a história deste povo é muito maior do que podemos supor: passaram – e ainda passam – por muitos preconceitos, são apontados como os grandes culpados pela pobreza do Leste Europeu etc. O post de hoje se dedica a esclarecer algumas especificidades deste povo que, de acordo com a tradição, “está condenado a vagar pelo mundo”.

Recentemente, escrevi dois posts que falam sobre a história do tarô. Para ler o primeiro texto, clique aqui. Para conferir o segundo, aqui.


1) Ciganos são povos nômades que teriam vindo do noroeste da Índia há mais de mil anos, instalando-se por todo o continente europeu. Em alguns idiomas também são chamados de “roma”, que em seu dialeto significa “homens”;

2) O idioma cigano é o romani, que também tem origem no latim, assim como o português, espanhol, francês e italiano. Está bem próximo do idioma romeno, outro que também tem raízes latinas. Atualmente, muitos ciganos adotaram o romeno como idioma oficial em suas andanças pela Europa;

3) São subdivididos em quatro principais origens étnico-familiares: os roma (presentes nas Europas Central e do Leste, principalmente e podem ser erroneamente considerados os ciganos “verdadeiros”), os sinti (presentes na Alemanha, França, Itália e Holanda), os caló (moradores de Portugal, Espanha e todo continente americano) e os romnichal (presentes no Reino Unido, parte dos Estados Unidos e Austrália);

4) São envoltos por grande mistério porque grande parte da sua história é oral e envolta de folclores. Só a partir do século 18 que a antropologia começou a fazer um estudo minucioso de suas práticas sócio-culturais. Pela falta de estudos sérios e muito misticismo, durante séculos foram motivo de preconceito em vários cantos do planeta;


5) Os primeiros registros de ciganos na Europa ocorreram por volta do ano de 1050, no auge da Idade Média. Suas práticas não conhecidas pelos cristãos fizeram aumentar a perseguição contra eles e, junto aos judeus, foram acusados de terem espalhado a peste negra através de métodos de bruxaria;

6) Os ciganos se concentraram no Leste Europeu porque a perseguição foi menor nos principados ortodoxos. Entretanto, muitos foram feitos escravos por vários reis por serem considerados inferiores aos súditos aldeões;

7) Por não estarem presos à terra como os vassalos normais nos feudos, os ciganos conseguiram maior mobilidade dentro do território europeu e com alguma facilidade conseguiram estabelecer acampamentos. Em 1417 estavam na Alemanha, em 1422 chegaram à Itália e em 1500 já faziam parte de caravanas na Inglaterra;

8) Os primeiros ciganos chegaram às Américas depois de 1800, com as ondas de independência e fuga da Europa por conta de guerras internas. Outra grande leva aconteceu logo após o fim da Segunda Guerra Mundial;

9) Como na Idade Média somente poderia ter direito à terra quem fosse fiel e servo do senhor feudal e, obviamente, cristão, os ciganos vagavam em acampamentos. Aí está a explicação histórica para a tradição de serem lembrados por nunca terem um local fixo, o que hoje é puro folclore. Por estarem sempre vagando, na Alemanha e Holanda eram considerados vagabundos e delinqüentes (geralmente roubavam de viajantes para sobreviver);


10) Por não terem um Estado próprio, como atualmente os judeus têm Israel, os ciganos sempre foram considerados antipatrióticos e totalmente de fora de um sistema dotado de hierarquia do estado moderno. Não eram considerados cidadãos, junto ao clima de suspeitas de possível traição durante um levante, rebelião e guerra;

11) Durante a Idade Média, por serem muito pobres mendicantes, criou-se a história de que eram descendentes de Caim, portanto malditos e condenados a vagar em pobreza eterna e mortos de fome. No entanto, tudo passava de preconceitos políticos, sociais, culturais e religiosos. Mesmo estando na Europa há mais de mil ano, não são considerados europeus!

12) Para sobrevivência, quando o ato de mendicância não ajudava nas moedas suficientes para comprar um pão, passaram a cobrar por um atrativo que agitou a Europa após o século 18: adivinhações e assim ficaram conhecidos até hoje. Também por serem nômades, encontraram nos circos fonte de lucro e sobrevivência. Atualmente, os mais ricos vivem na Suécia e Inglaterra e os mais pobres nos Bálcãs;


13) Seu orgulho cultural fez com que acontecesse uma preservação incrível desde os tempos medievais. Mesmo após perseguições religiosas da Inquisição e mortandades em campos nazistas, os ciganos permaneceram com suas práticas culturais e religiosas;

14) Foram perseguidos pelo regime nazista e mais de 1 milhão de ciganos foram mortos em campos de concentração durante a Segunda Guerra. Este genocídio é conhecido como “porajmos(fotos baixo), ciganos presos no campo de concentração de Belzec), entre os judeus é “holocausto” e só começou a ser revisitado pela historiografia no final dos anos 60;




15) Em julho de 2010, o presidente francês Nicolas Sarkozy ordenou a deportação de ciganos para países do Leste Europeu, principalmente Romênia e Bulgária, o que fez desenvolver grande polêmica, recordando às deportações nazistas para o leste e incidente diplomático com os países envolvidos;

16) Ao contrário do que muitos fazem crer, os ciganos não têm uma religião própria ou um deus. O mundo de crenças deles têm a ver com seus antepassados e com as religiões locais, como por exemplo Santa Sara Kali (foto abaixo), padroeira dos ciganos – uma santa que, supostamente, foi cigana e viveu na França. A prova de que os ciganos não têm religião própria está na França, que desde 1950 existe um grande grupo de ciganos protestantes. Muito do seu misticismo tem a ver com o folclore;


17) Para quem não sabe, o Brasil é o país do Ocidente com maior população cigana, cerca de 1,2 milhão, seguido pelos Estados Unidos, Espanha, Bulgária e Romênia. Em todo o mundo a maior concentração está na Índia: mais de 2 milhões de ciganos;

18) Os grupos ciganos se fragmentaram muito ao longo dos séculos. Por isso, ciganos indianos não partilham mais da mesma cultura que aqueles que vivem na Bulgária, por exemplo. Dentro da própria Europa já há essa fragmentação: ciganos espanhóis são diferentes dos ingleses etc.

19) Os casamentos são sempre realizados entre pessoas do mesmo grupo ou subgrupo. É possível uma não-cigana casar-se com um cigano, mas é vetada a entrada de um não-cigano na comunidade através de um casamento. Trata-se de uma comunidade cujo patriarcado é muito forte até os dias de hoje;

20) Por muitos séculos, por serem nômades, os ciganos estiveram fora dos sistemas judiciários em todo o mundo e suas leis eram baseadas no que eles chamam de “kris”, com base em um direito consuetudinário, ou seja, fundamentado nas tradições. Atualmente não é bem assim em grande parte do planeta;

21) O termo “cigano” é uma corruptela errada de “egípcio”, pois acreditava-se que esse povo fosse proveniente dos egípcios antigos, mas após o século 18 descobriu-se a origem indiana. O mesmo erro encontra-se no espanhol (gitano) e no inglês (gypsy);


22) Na região dos Bálcãs, os ciganos têm uma vida difícil e, geralmente, vivem em bairros extremamente pobres e favelados. As populações de extrema direita tendem a culpá-los pelo desemprego, pelos índices de violência, pelas taxas de pobreza etc. No entanto, as dificuldades econômicas estão presentes desde que o sistema comunista ruiu no final dos anos 80 e o capitalismo aumentou a desigualdade social entre todos;

23) Há vários documentos compreendidos entre os anos 1050 e 1517 falando sobre a presença dos ciganos na Europa, com diversas características interessantes: uso de roupas coloridas, furtos de viajantes em estradas, especialistas em shows de entretenimento com música e comida farta, uso de magia para ganhar moedas ou comida, vida mendicante nas florestas, caravanas enormes e barulhentas etc.

24) A escravidão cigana na Europa só foi totalmente abolida em 1870, às vésperas do Brasil dar alforria aos seus escravos de origem africana. Na Espanha do século 16, por exemplo, foram obrigados à sedentarização, assimilação da cultura local e conversão ao cristianismo. Nos países nórdicos eram frequentemente condenados à morte;


25) A Espanha e a Inglaterra enviaram ciganos para a América para diminuir o contingente populacional na Europa durante os anos áureos do Pacto Colonial. Com o relativo sucesso desta empreitada, Portugal também aderiu à deportação para suas colônias;

26) Em 1905, a Alemanha já desenhava a deportação e execução em massa dos ciganos muitos anos antes da Primeira Guerra e de Hitler subir ao poder. Entre 1900 e 1950 era comum na Europa o sequestro de bebês ciganos para serem criados por casais não-ciganos estéreis, prática proibida somente em 1975;

27) Os ciganos foram exterminados pelo III Reich por não se enquadrarem ao projeto nazi de uma nova sociedade: não eram arianos, por não terem pátria eram considerados possíveis traidores e por serem nômades eram considerados inúteis para o esforço de um “novo mundo” de acordo com aquela lógica.


A história mostra mais uma vez que o preconceito com práticas sócio-religiosas-culturas sempre fez vítimas e sempre as fará. O povo cigano tem muito mais a contar do que o mero chavão de que são pedintes pobres que usam do misticismo para enganar as pessoas nos grandes centros urbanos do planeta. Com uma história rica e uma cultura muito vasta, passaram por situações inacreditáveis, mas permanecem como um grupo forte em todo o planeta. Por terem sido pouco estudados pela historiografia, há mais farsas do que fatos que nos contam quem não esses grupos “condenados a vagar pela Terra”.

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