quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Guilherme Tell: herói da vida real ou criado pela ficção?


A ordem era clara e humilhante. Todos os cidadãos suíços tinham de se inclinar perante o chapéu do tirano austríaco, colocado sobre um poste. Só um homem teve a coragem suficiente para se recusar: o atirador de besta Guilherme Tell. O tirano Hermann Gessler fez de Tell a vítima de um gracejo selvagem. Prometeu-lhe a liberdade se ele fosse capaz de acertar com uma flecha uma maçã colocada sobre a cabeça de seu pequeno filho, Walter. Se falhasse ou recusasse, seria executado por desobediência.


Nos arredores da aldeia de Altdorf, Tell encontrava-se perante o filho. Na besta tinha uma lança mortífera. Outra estava presa ao cinto. Disparou a flecha, e a maçã foi partida em duas. Por que motivo, perguntou Gessler, tirara ele uma segunda flecha da aljava? “Era para o teu coração, se a primeira tivesse tocado sequer um único cabelo do meu filho”, replicou Tell. Irritado, Gessler gritou para os soldados: “Levem-no para o castelo”. Tell foi manietado e lançado num barco, no qual seguiram também o ditador austríaco e alguns guardas, que foram através do Lago Uri até a fortaleza de Gessler.

No meio da travessia rebentou uma tempestade. Os guardas libertaram Tell, para que este os guiasse para terra. Porém, apenas tocou a margem, Guilherme Tell saltou do barco e o empurrou de novo para o lago. Os soldados morreram afogados, mas o tirano conseguiu nadar para a terra, enquanto o nosso herói o esperava com a segunda flecha pronta, que disparou. Finalmente a Suíça estava liberta do jugo austríaco de séculos.

A história de Guilherme Tell aparece pela primeira vez nas crônicas suíças de Aegiidius Tschudi, um escritor do século 16, cerca de duzentos anos depois da época em que Tell teria vivido essa façanha. Não existe, porém, qualquer prova contemporânea da existência dos personagens desta lenda.


Segundo parece, a crônica de Tschudi constitui a adulteração feita na Suíça de uma lenda do século 11, pois em toda Europa desta época se encontram histórias sobre arqueiros notáveis e suas façanhas pelas florestas. Vide a história de Robin Hood, que publiquei recentemente. Ainda segundo uma antiga lenda escocesa, um arqueiro chamado Gilpatrick tinha de atingir um ovo colocado na cabeça da sua filha. Numa história alemã do século 12 aparece uma personagem análoga a Tell, adversária de Haroldo Dente Azul da Dinamarca, chamada Toki, que no folclore nórdico é conhecida como Toko.

Crê-se que Tschudi se limitou a acrescentar alguns pormenores locais, convertendo Guilherme Tell no herói mais popular da história da Suíça.

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