quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

O caso da Ilha da Trindade, uma controvérsia na ufologia brasileira...


Recentemente, abordamos o caso referente ao conhecido mundialmente como “Roswell brasileiro”, a Operação Prato – post que você pode conferir clicando aqui. E hoje vamos falar sobre o caso da Ilha da Trindade, que se relaciona a uma suposta aparição de Ovni aos tripulantes do navio Almirante Saldanha, da Marinha, em janeiro de 1958. O caso acabou ganhando notoriedade por conta dos desencontros das fontes e insistência dos ufólogos de que a Marinha libere o que realmente sabe.

A Ilha da Trindade é uma possessão brasileira que, em conjunto à Ilha de Martim Vaz, está a cerca de mil quilômetros do litoral capixaba. Lá há uma base da Marinha coordenada por 32 homens, que sempre recebem pesquisadores de todo o mundo com o objetivo de estudarem biologia, meteorologia e oceanografia.



Como foi o caso...
Em 16 de janeiro de 1958, o fotógrafo Almiro Baraúna (ele morreu no ano 2000), então com 42 anos de idade, convidado pela Marinha para participar de pesquisas oceanográficas na Ilha da Trindade, teria feito, a bordo do navio-escola Almirante Saldanha, quatro fotografias de uma nave discóide sobre a ilha. O filme foi revelado ainda a bordo do navio, na enfermaria, improvisada como laboratório, mas devido ao pequeno tamanho do negativo, a suposta nave não pôde ser visualizada por nenhum dos presentes.

Dias após o desembarque no continente, Baraúna apresentou à imprensa as fotografias em positivo, ampliadas, alegando serem do tal objeto. Só duas pessoas, o capitão da Força Aérea Brasileira José Teobaldo Viegas e Amilar Vieira Filho, amigos de Baraúna, alegaram ter visto o disco, além do próprio fotógrafo.


Em 1967, Baraúna escreveu de que forma teria acontecido o avistamento. Segue abaixo o texto na íntegra:

Em 16 de janeiro de 1958, o navio-escola de guerra da marinha Almirante Saldanha estava atracado em uma enseada na Ilha Trindade, a umas 800 milhas da costa do Espírito Santo. Eram por volta das 11h, céu claro, a tripulação se preparava para retornar ao Rio de Janeiro quando de repente um grupo de pessoas na popa do navio, dentre elas o capitão-aviador aposentado da Força Aérea Brasileira José Viegas, alertou a todos. Instantaneamente, todos que estavam no convés, umas cinquenta pessoas, começaram a ver um estranho objeto prateado e com forma de pires que se moveu do mar na direção da ilha. O objeto não emitiu nenhum ruído, era luminoso e às vezes se movia rapidamente, depois devagar, para cima e suavemente para baixo e quando acelerava deixava um rastro branco fosforescente que desaparecia rapidamente. Em sua trajetória, o objeto desapareceu detrás da montanha Pico Desejado e todos esperavam que fosse aparecer do outro lado da montanha, ele reapareceu na mesma direção, parou por alguns segundos e então desapareceu novamente a uma grande velocidade pelo horizonte. Em um primeiro momento quando o objeto retornou, fui capaz de tirar seis fotos, das quais duas se perderam devido ao pandemônio no convés, e as outras quatro fotos mostram o objeto no horizonte, em uma sequência razoável, aproximando-se da ilha do lado da montanha, e finalmente desaparecendo, indo embora. Eu tirei o filme de minha câmera 20 minutos depois seguindo o pedido do comandante, que queria saber se as fotos eram de boa qualidade. Quase toda a tripulação do navio viu o filme e eram unânimes em seus reportes ao Serviço Secreto da Marinha Brasileira. Estes eram os tripulantes do navio: chefe Amilar Vieira Filho, banqueiro, mergulhador e atleta; vice-chefe capitão-aviador aposentado da Força Aérea Brasileira José Viegas; mergulhadores: Aluizio e Mauro; fotógrafo: Almiro Baraúna.
O grupo acima também era membro do grupo de caça submarina do Icaraí. Entre os cinco membros, apenas Mauro e Aluizio não viram o objeto porque estavam na cozinha do navio e quando correram para vê-lo, este já havia desaparecido. De acordo aos rumores que escutei no convés, o equipamento elétrico do navio parou durante a aparição do objeto; o que posso confirmar é que depois do navio deixar a ilha, o equipamento elétrico parou três vezes e os oficiais não tinham nenhuma firme explicação para o que estava acontecendo. Toda vez que o navio parava, as luzes esvaneciam lentamente até o ponto em que se apagavam completamente. Quando isso acontecia, os oficiais caminhavam ao convés com seus binóculos, no entanto, o céu já estava cheio de nuvens e não podiam ver nada. Preciso dizer que se o repórter do jornal ‘Correio da Manhã’ não fosse esperto o suficiente para tirar cópias das fotos oferecidas ao então presidente Juscelino Kubitschek, talvez ninguém soubesse sobre esses fatos já que a Marinha havia me ‘marcado’, perguntando quanto eu queria para não dar nenhuma publicidade às fotos. Eu gostaria de deixar claro que todos os oficiais com quem tive contato durante todo o tempo do inquérito foram muito amáveis comigo, me senti completamente confortável e não impuseram nenhuma objeção à revelação do caso. Apenas mencionaram que a natureza sensacionalista do caso poderia causar pânico na população e essa era a razão pela qual as Forças Armadas Brasileiras queriam evitar publicidade a casos dessa natureza”.

O pandemônio na mídia...
De acordo com os ufólogos, a Marinha Brasileira sempre tentou esconder o que realmente ocorreu naquela manhã na Ilha da Trindade. Segundo estes pesquisadores, a prova de que há muito mais a ser revelado é o próprio relato de Baraúna (foto abaixo), quando aponta que o governo o procurou a fim de encerrar o caso da maneira mais “pacífica” possível, inclusive com dinheiro.


Na época, especialistas disseram que o avistamento na ilha poderia ser de um simples modelo de avião teco-teco, muito popular no final dos anos 50. Entretanto, quem defende o caso da Ilha da Trindade aponta que não há explicação para uma série de fatores: (1) avião emite barulho, o que não houve na ocasião; (2) o que uma avioneta estaria fazendo circulando uma ilha deserta e sumindo no horizonte a uma velocidade incrível; (3) um avião não consegue pairar no ar como um helicóptero; (4) nenhuma aeronave conhecida pode ser capaz de influenciar sistemas elétricos e eletrônicos, como o que houve com a embarcação.

Contradições dos envolvidos e a polêmica da possível mentira...
Segundo muitos pesquisadores, tudo indica que Almiro Baraúna, Amilar Vieira Filho e José Teobaldo Viegas simularam o avistamento do disco voador, pois caíram em diversas contradições. A começar por Viegas, que disse que Baraúna se trancou no laboratório improvisado do navio para revelar o filme em companhia do comandante Carlos Bacellar. O que foi desmentido em carta pelo próprio comandante: “O capitão (da reserva) da FAB José Viegas ficou segurando uma lanterna durante a revelação do filme enquanto eu aguardava do lado de fora”.

Já Baraúna, por sua vez, não raro se confundiu, exagerou fatos ou mentiu deliberadamente. Referindo-se aos momentos que antecederam o suposto avistamento do Ovni, declarou à revista “O Cruzeiro”: “O navio estava se apresentando para levantar âncora, de volta ao Rio. Eu estava no convés observando a faina da suspensão da lancha na qual são feitos os desembarques para a ilha até a metade do caminho (o restante é feito em balsas, pois a ilha não tem ancoradouro). O mar estava agitadíssimo. O tempo estava nublado claro, sem sombras. Eu estava com a minha Rolleiflex 2,8, modelo E, num estojo de alumínio que a protegia contra a água e o salitre. Havia deixado, momentos antes, a minha Leica com teleobjetiva no meu camarote. O convés estava cheio de marinheiros e oficiais. De repente, fui chamado em altos brados pelo capitão Viegas e por Amilar Vieira, os quais apontavam determinado lugar no céu e gritavam que estavam vendo um objeto brilhante se aproximar da ilha”.

Numa entrevista concedida em 1997 para a revista “Ufo”, o ufólogo Marco Antônio Petit registrou outra versão da boca de Baraúna: “O fotógrafo não passou muito bem: chegou enjoado à embarcação e foi deitar-se ao convés. Pouco depois do meio-dia, em meio a uma gritaria, um tenente da tripulação alertou o fotógrafo para a presença de um objeto voador metálico e discoidal, que evoluía no seu rumo ao navio”. Portanto, diferentemente do que dissera antes, não só Baraúna estaria enjoado, como teria sido alertado da presença do disco por um tenente, e não por um capitão.

Há mais, porém: não há dúvida de que Baraúna exagerou o número de testemunhas da suposta aparição. Ele dizia que, no momento do surgimento do disco, o convés estava cheio de marinheiros e oficiais e que quase cem pessoas teriam confirmado num inquérito a visão do objeto. Também nisso foi desmentido: o capitão-de-fragata Paulo de Castro Moreira da Silva, que estava a bordo do Almirante Saldanha em 16 de janeiro de 1958, afirmou ao jornal “O Globo” que dos oficiais, o único a confirmar a aparição foi o tenente Homero Ribeiro, e que no total apenas “umas oito” pessoas teriam visto alguma coisa – praças, decerto marinheiros e sargentos, que provavelmente foram induzidos a achar que viram algo.

Referindo-se à revelação do filme em si, Baraúna disse: “O comandante e vários oficiais do navio mostraram interesse em ver o que havia saído nas fotos. Isso, aliado à minha própria curiosidade, fez com que eu revelasse o filme imediatamente, a bordo”.

Outra contradição: Bacellar contou em carta ao repórter João Martins que Baraúna não revelou o filme imediatamente, mas apenas uma hora depois do episódio, devido ao seu estado aparente de grande nervosismo. Para dar credibilidade à história, e vender as suas fotografias a um bom preço – como acabou conseguindo –, Baraúna disse à imprensa, reiteradas vezes, que as suas fotografias do Ovni já haviam sido autenticadas em duas análises, uma pela empresa Cruzeiro do Sul e outra pela Marinha. Baraúna foi prontamente desmentido pelo diretor-superintendente da “Cruzeiro do Sul”, Hélio Meireles, que fez questão de registrar no jornal “O Globo”: “Por favor, desminta isso pelo ‘O Globo’, pois não conheço pessoalmente o fotógrafo Almiro Baraúna nem o Serviço Aerofotogramétrico Cruzeiro do Sul fez qualquer trabalho para ele. Estamos totalmente alheios a esse assunto de disco voador”.

O fotógrafo também afirmou que a Marinha tinha calculado que o referido disco tinha 40 metros de diâmetro por oito de espessura, e que viajava a no mínimo 900km/h. Entretanto, em nenhuma parte dos documentos oficiais da Marinha Brasileira se mencionam tais dados. Posteriormente, as fotografias de Baraúna foram examinadas pela Força Aérea dos Estados Unidos, mais especificamente pelos cientistas do projeto Blue Book, e consideradas fraudes. A análise das imagens evidenciou que o objeto visualizado possuía pouco contraste e nenhuma sombra ao sol do meio-dia, e também que parecia estar invertido numa fotografia em comparação às outras.


Revelações bombásticas e conclusões possíveis...
Em 15 de agosto de 2010, o programa “Fantástico” divulgou pela primeira vez como foi montado o Ovni da Ilha de Trindade. A equipe do programa descobriu a publicitária Emília Bittencourt, uma amiga de Baraúna, que relatou o que ouviu da boca do próprio fotógrafo: “Ele pegou duas colheres de cozinha, juntou e improvisou uma nave espacial e usou de pano de fundo a geladeira da casa dele. Ele fotografou na porta da geladeira o objeto com a iluminação perfeita. Ele ria muito sobre o assunto”, contou ela.

São fatos conhecidos que tanto José Teobaldo Viegas quanto Amilar Vieira Filho eram amigos de Almiro Baraúna; que os três residiam em Niterói, e que se viam com frequência; que todos eram membros do Clube de Caça Submarina de Icaraí, fundado e presidido por Vieira Filho; e que até a entrevista de Vieira Filho para “O Globo” contou com a influência de Baraúna, que foi quem o convenceu a prestar depoimento.

As evidências sugerem que tudo não passou de uma trama orquestrada por Baraúna, com a colaboração de Viegas e Vieira Filho. Decerto, Baraúna começou a imaginar o embuste logo após embarcar no Almirante Saldanha. Fez ao todo seis fotografias de paisagens da ilha, registrando em quatro muito provavelmente gaivotas em voo solitário e/ou alguns dos balões-sonda cotidianamente soltos pela Marinha para estudos climáticos. Fato é que ninguém pôde discernir o que eram os pontos fixados na emulsão, e isso, bem como o fato do filme não ter sido confiscado nem copiado, possibilitou a fraude, nunca confessada publicamente por nenhum dos seus participantes.


O problema é que o caso da Ilha da Trindade permanece em controvérsia porque muitos ufólogos acusam a Marinha, o Exército e a imprensa de tentar diminuir o relato das possíveis testemunhas para que caíssem em descrédito perante a sociedade. Uma antiga teoria da conspiração. Para a maior parte dos especialistas de todo o mundo, o Ovni fotografado nunca existiu e as fotografias foram montagens bem elaboradas.

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