quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

O dilúvio de Noé: aconteceu ou não? Ele também estaria presente em outras culturas?

O termo “dilúvio” pode ser bem genérico: uma quantidade absurda de chuva capaz de inundar toda uma região e devastá-la totalmente. Entretanto, em sentido restrito, o termo se refere ao caso relatado na Bíblia de uma chuva imensa que teria inundado todo o globo terrestre enquanto Noé protegia todos os animais em uma imensa arca. Apesar do relato judaico, há referências de dilúvios em diversas culturas e mitologias. Porém não há evidências científicas que comprovem o caráter universal de tal acontecimento. O máximo de credibilidade que se pode atribuir a estes mitos são acontecimentos isolados que realmente aconteceram em algum momento da história de cada povo.

Um acontecimento como o dilúvio deixaria suas marcas no planeta, todavia nada, hoje, foi encontrado que comprove que tal catástrofe aconteceu. Quanto aos sedimentos e fósseis marinhos em todas as grandes montanhas do mundo, são sedimentos de superfícies marinhas ou terrestres que foram deslocadas pelo choque das placas tectônicas.

Antropólogos dizem que há mais de cem mil narrativas de dilúvios em povos e culturas diferentes do mundo e todas elas, coincidentemente ou não, são no início destas civilizações. O tal dilúvio também é descrito em fontes americanas, asiáticas, sumérias, assírias, armênias, egípcias e persas, entre outras, de forma basicamente semelhante ao episódio bíblico, porém em algumas civilizações se relata sobre inundações em vez de chuvas torrenciais: uma divindade decide limpar a Terra de uma humanidade corrupta, ou imperfeita, e escolhe um homem bom aos seus olhos para construir uma arca para abrigar sua criação enquanto durasse a inundação.


O dilúvio judaico-cristão...
Na Bíblia, no livro do “Gênesis”, é mostrado o arrependimento de Javé em ter criado o homem, devido à maldade que este espalhara na Terra. Neste arrependimento, decide fazer um enorme dilúvio, fazendo desaparecer tudo que havia sido criado até então. Porém, decide poupar Noé, por este ter agido bem, e lhe recomenda fazer uma arca de madeira, e abrigar, junto com sua família, um casal de cada espécie existente. Entretanto, arqueólogos não encontraram nenhuma evidência significante que comprove a existência do dilúvio. Desde os tempos mais antigos, aventureiros têm se dedicado a encontrar a referida arca. Atualmente, alguns ramos da teologia católica veem o dilúvio como uma maneira criacionista de explicar a formação do mundo. Outros pesquisadores tentam a todo custo comprovar a realidade de toda esta inundação. (Recentemente, escrevi um post sobre o livro de um destes pesquisadores: “A Bíblia tinha razão”. Para ler, clique aqui!). Em geral, historiadores e teólogos apontam que o dilúvio de Noé tem fundamentos em outra mitologia, a suméria, que realmente tem semelhanças impressionantes.

O dilúvio sumério...
O mito sumério do dilúvio conta os feitos do rei da cidade de Uruk, Gilgamesh, que parte em uma jornada de aventuras em busca da imortalidade, nesta busca encontra as duas únicas pessoas imortais: Utanapistim e sua esposa, estes contam a ele como conquistaram tal sorte, esta é a história do dilúvio. O casal recebeu o dom da imortalidade ao sobreviver ao dilúvio que consumiu a raça humana. Na tradição suméria, o homem foi dizimado por incomodar aos deuses. Segundo este mito, o deus Ea, por meio de um sonho, apareceu a Utanapistim e lhe revelou as pretensões dos deuses de exterminar os humanos através de um dilúvio. Ea pede a Utanapistim que renuncie aos bens materiais e conserve o coração puro. Utanapistim, então, reúne sua família e constrói a embarcação que lhe foi ordenada por Ea, estes ficam por sete dias debaixo do dilúvio que consome com os humanos. Nesta história, Utnapistim também coloca casais de animais na tal embarcação e, por fim, solta um corvo para ver se encontrava terra seca. As semelhanças com a história de Noé são surpreendentes.


O dilúvio hindu...
Na mitologia do hinduísmo, o dilúvio acontece quando o deus Matsya se transforma em uma pequena carpa e aparece para um rei bondoso, avisando a ele que o dilúvio estava próximo e que iria devastar toda a humanidade que não fosse bondosa como este monarca. Assim, Matsya ajudou este rei idoso a construir um barco enorme que abrigava toda a sua família, algumas sementes e animais. Depois de algumas semanas navegando a esmo pelo planeta, o rei encontrou terra firme, o Himalaia, e lá iniciou uma nova era do povo hindu.

O dilúvio grego...
A mitologia grega relata a história de um grande dilúvio produzido por Poseidon, que por ordem de Zeus havia decidido pôr fim à existência humana, uma vez que estes haviam aceitado o fogo roubado por Prometeu. Deucalião e sua esposa Pirra foram os únicos sobreviventes. Prometeu disse a seu filho Deucalião que construísse uma arca e nela introduzisse um casal de cada animal. Após algumas semanas, eles aportaram em um rochedo onde construíram um oráculo em agradecimento a tudo que passaram e sobreviveram.

Dilúvio maia...
A mitologia do povo maia relata a existência de um dilúvio enviado pelo deus Huracán. Os deuses, após terminarem a criação do mundo, decidiram criar seres capazes de lhes exaltar e servir. São criados então os primeiros seres humanos, moldados em barro. Porém, esses seres de barro não eram resistentes ao clima e à chuva e logo se desfizeram em lama. Então, os deuses criaram o segundo tipo de seres humanos, a partir de madeira. Essa segunda humanidade, ao contrário da primeira, prosperou e rapidamente se multiplicou em muitos povos e cidades. Mas esses seres feitos de madeira não agradaram aos deuses. Eles eram secos, não temiam aos deuses e não tinham sangue. Se tornaram arrogantes e não praticavam sacrifícios aos seus criadores. Então, os deuses decidem exterminar essa segunda humanidade através de um dilúvio. Ao contrário da maioria dos outros relatos conhecidos sobre dilúvios, nenhum indivíduo foi poupado.

Outros dilúvios...
Ao longo das décadas, antropólogos têm se interessado no levantamento de mitologias dos povos através da oralidade. Relatos diversos de dilúvios foram encontrados, ainda, entre tribos africanas, povoados ameríndios e núcleos incas nos Andes.


A hipótese histórica e o que a ciência entende...
A consistência de tais histórias de dilúvios em culturas totalmente diferentes e ao redor de todo o planeta fez com que muitos pesquisadores, ao longo das décadas, procurassem vestígios que comprovassem a existência de todo este aguaceiro planetário. Alguns geólogos acreditam que tenham sido casos locais de chuvas muito fortes e/ou tsunamis que entraram para os anais mitológicos. De acordo com a antropologia, muitos mitos têm um fundo de verdade.

Em 1998, os geólogos da Universidade de Columbia William Ryan e Walter Pittman elaboraram a teoria de que o dilúvio que nos referimos, na verdade, seria um mito derivado de uma fantástica catástrofe natural, ocorrida por volta do ano 5600 a.C., nas margens do atual Mar Negro. Segundo as proposições dos dois pesquisadores, o evento regional teria provocado a migração de diversos grupos sobreviventes – o que explicaria o caráter dito universal (que se encontra em várias culturas) do famoso dilúvio.

Atualmente é sabido que durante algum tempo o Mar Negro esteve fechado ao Mediterrâneo e que há várias vilas submersas. Assim, quando irrompeu o Estreito de Bósforo (onde hoje está a cidade turca de Istambul), toda a água invadiu o espaço enchendo o local.


Para os geólogos, o evento foi provocado pelo degelo ocorrido ao final da última glaciação. Em suas pesquisas, analisaram as formações geológicas e imagens submarinas, concluindo que uma grande quantidade de água marinha rompeu o atual estreito de Bósforo, com a elevação paulatina e excessiva do Mar Egeu e dali para o Mar de Mármara, ocasionando a abrupta inundação do Mar Negro.

Há ainda a hipótese de que uma grande inundação tenha ocorrido na Mesopotâmia, causada pelos rios Tigre e Eufrates, por uma elevação anormal do nível da água, causando devastação por toda a região em algum momento. Essa alternativa, no entanto, não transmite corretamente a vívida descrição de caos que os relatos parecem mostrar, pela escala monumental que a lenda assume.

No geral, é a maior concordância da ciência: o grande dilúvio foi um relato mítico de uma catástrofe mundial causada pela força destrutiva da natureza, muito provavelmente no Mar Negro ou até mesmo no Mar Mediterrâneo, quando o Estreito de Gibraltar poderia ter se rompido. O caso específico do Mar Negro traz tantas provas interessantes que vale a pena um post no futuro. Até lá!

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