quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Papisa Joana: será que a Igreja teve uma mulher como um líder máximo?!


Desde sempre há uma história envolta em mito e cultura anticlerical: a Papisa Joana, que teria sido a única mulher a liderar o catolicismo por três anos. Essa lenda começou na Europa durante o final da Idade Média e se perpetua até hoje. Livros foram lançados, documentários abordam o tema e há uma certeza: de que ainda não há consenso algum acerca deste complexo tema.


Como surgiram a lenda e algumas versões...
A história da papisa pode ter aparecido pela primeira vez em alguns documentos do ano 1100. Outro cronista, desta vez do século 13, data o papado de Joana de até três séculos e meio antes, depois da morte do Papa Leão IV, coincidindo com uma época de crise e confusão na diocese de Roma. Joana ocupou o cargo durante três anos, entre o Papa Leão IV e o Papa Bento III (anos de 850 e 858).

A história possui várias versões. Segundo alguns relatos, Joana teria sido uma jovem oriental, nascida com o possível nome de Giliberta, talvez vinda de Constantinopla, que se fez passar por homem para escapar à proibição de estudar, imposta às mulheres na época. Extremamente culta, possuía formação em filosofia e teologia. Ao chegar a Roma, apresentou-se como monge e surpreendeu os doutores da Igreja com sua sabedoria. A mesma lenda conta que Joana se tornou amante de um oficial da Guarda Suíça e ficou grávida.

Outra versão, atribuída a Martinho de Opava, afirma que Joana teria nascido na cidade de Mainz, na Alemanha, filha de um casal inglês. Na idade adulta, conheceu um monge por quem se apaixonou. Foram ambos para a Grécia, onde passaram três anos, após o que se mudaram para Roma. Para evitar o escândalo que a relação poderia causar, Joana decidiu vestir roupas masculinas, passando assim por monge, com o nome de Johannes Angelicus, e teria então ingressado no mosteiro de São Martinho. Conseguiu ser nomeada cardeal, ficando conhecida como João, o Inglês. Segundo as fontes, João, em virtude de sua notável inteligência, foi eleito Papa por unanimidade após a morte de Leão IV, ocorrida em 17 de julho de 855.


Apesar de ter sido fácil ocultar sua gravidez, devido às vestes folgadas dos papas, acabou por ser acometida pelas dores do parto em meio a uma procissão numa rua estreita, entre o Coliseu de Roma e a Igreja de São Clemente, e deu à luz perante a multidão. As versões divergem também sobre este ponto, mas todas coincidem em que a multidão reagiu com indignação, por considerar que o trono de São Pedro havia sido profanado. João/Joana teria sido amarrada num cavalo e apedrejada até a morte. Noutro relato, Joana teria morrido devido a complicações no parto, enquanto os cardeais se ajoelhavam clamando: “Milagre!”.

A história foi publicada pela primeira vez no século 13 pelo escritor Esteban de Borbón e espalhada pelos séculos, porém sem provas. O teólogo David Blondel e o filósofo alemão Wilhelm Leibnitz, além dos enciclopedistas franceses, rotularam a história como falsa. Em 1886, voltou a ser difundida pelo escritor grego Emmanuel Royidios no romance “A Papisa Joana”.


Investigação mais profunda...
A história do possível papado de Joana rendeu um cisma na historiografia religiosa; alguns pesquisadores a aceitam justamente pela época corresponder a uma confusão dentro do catolicismo. Outros contestam alegando ser invenção. Quem defende a teoria conspiratória aponta que a maior prova é o exame aplicado até 1800 aos papas eleitos, que deveriam postar-se nus diante de um pequeno colegiado para, então, provar a sua masculinidade.

Alguns céticos afirmam que o mito pode ter surgido em Constantinopla, devido ao ódio da Igreja Ortodoxa contra a Igreja Católica. O objetivo seria desmoralizar a igreja rival. Outra vertente é de que este papa seria, na verdade, um eunuco que, por ser castrado, não foi eleito. Outra hipótese é que, no século 13, o papado tinha um grande número de inimigos, especialmente entre a Ordem dos Franciscanos ou a dos Dominicanos, descontentes com as diversas restrições a que eram submetidas. Para se vingar, teriam espalhado verbalmente a história da papisa.

Outro fato interessante é que a história da Papisa Joana nasce no período anterior ao Cisma do Oriente, quando as igrejas cristãs rompem e ganha força e popularidade logo após 1520, época que Lutero rompe com o catolicismo e inicia o movimento de Reforma Protestante. Ou seja, os historiadores dizem que os fatos comprovam que Joana poderia ser um embuste para desmoralizar a Igreja em duas épocas em que a informação demorava meses, ou anos, para circular dentro da Europa.


Já quem defende a história envolvendo Papisa Joana aponta que o acervo histórico do Vaticano permanece fechado à pesquisa e que a Igreja é, e continua sendo, muito misógina; portanto, é natural a negação do papado de uma mulher. Um dos sinais mais interessantes da existência de Joana é um decreto publicado pela corte de Roma, proibindo que se colocasse Joana no catálogo dos papas.

Genebrardo, arcebispo de Aix, afirma que, durante perto de dois séculos, a Santa Sé foi ocupada por papas de um desregramento tão espantoso que eram dignos de serem chamados apostáticos e não apostólicos, e acrescenta que as mulheres governavam a Itália.Assim, alguns historiadores explicam que, muito provavelmente, a Papisa Joana não tenha existido, mas Joana sim. Com tanto desregramento papal e escândalos em Roma, era natural que os clérigos tivessem amantes e famílias. Portanto, Joana poderia ter sido uma amante mandona de algum papa.

A lenda da Papisa Joana foi imortalizada no jogo de tarô através da carta “A papisa”, que representa sabedoria, conhecimento, intuição, sexto sentido e descoberta de grandes mistérios. Recentemente, escrevi um post sobre a cultura do tarô, que originalmente não tem nada de adivinhação. Para saber, clique aqui e aqui!


No geral, podemos afirmar que não há fundamento histórico algum para comprovar a existência da Papisa Joana, mesmo com os adeptos da teoria da conspiração dizendo que a Igreja, com todo o seu poder, tenta acobertar os fatos. Ou seja, tudo indica que essa seja uma tremenda farsa para desmoralizar a instituição em períodos conturbados da política através de exemplos bastante reais: o excesso de sexualidade entre os clérigos.

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