sábado, 20 de abril de 2013

Conversando com Deus



Senhor: apesar da minha fé, tenho algumas dúvidas e gostaria de revelá-las.
Claro…
Em primeiro lugar, sei que a história refere um sem número de religiões (e deuses e demônios): judaísmo, budismo, umbanda, cristianismo, hinduísmo, islamismo, xintoísmo, só para citar algumas das mais conhecidas. E se pensarmos nas religiões extintas (e deuses e demônios mortos), a relação não teria fim; por isso, tenho por vezes a impressão de que as religiões e os deuses, à semelhança das línguas, variam no tempo e no espaço. Então me pergunto: por que esta religião que adotei e não outra; por que este Deus e não outro (s)? Onde fica o cemitério (e berçário) dos deuses?
Eu poderia responder a isso de muitas formas, mas vou fazê-lo assim, simplificando um pouco: todas as religiões (e deuses) citadas são apenas nomes para designar uma mesma experiência, a experiência com Deus. Deus é uno e múltiplo. Não surpreende assim tantos nomes; ao fim, tudo é uma só e mesma coisa. Não importa, portanto, o nome do Deus (Odin, Thor, Ala, Jeová, Jesus, Zeus, Isis, Amon-Ra ou Huitzilopochtli) ao qual tu associas a tua crença, porque todos os deuses têm, em princípio, o mesmo valor e legitimidade. O contrário seria apenas intolerância, ignorância e eventualmente fanatismo.
Então, Senhor, o pecado capital residiria na falta de religião, na falta de um Deus, isto é, no ser ateu, no ser agnóstico.
Eu não disse isso; és tu que o dizes. Aliás, foi sempre assim: são os homens que dizem o que os deuses (supostamente) dizem. Eu afirmaria que, em verdade, uma crença (ou sua falta) por si só não torna alguém nem melhor nem pior. Não preciso, para prová-lo, citar os dissimulados, os mesquinhos e toda sorte de criminosos com ou sem religião.
Senhor: ocorre-me, por vezes, que, mesmo quando pensamos na mesma religião (v.g., o cristianismo), não estamos, a rigor, pensando nas mesmas coisas; sim, porque há tantas religiões, denominações e doutrinas tão díspares, que há pouca coisa realmente em comum entre elas. Enfim, parece que cada padre, cada pastor, cada apóstolo e cada crente, a pretexto de falar de Deus e da Bíblia, está em verdade a falar de suas próprias experiências.
Talvez tenhas razão e talvez isso explique a existência de tantas religiões, de tantas denominações, de tantas divergências. De todo modo, a diversidade em princípio afirma a vida e não o contrário.
Devo confessar ainda, Senhor, que sou um tanto cético; agora mesmo eu me pergunto se essa nossa conversa não é uma ilusão, isto é, um diálogo com um personagem (Deus) imaginário, logo, um monólogo, de sorte que, a rigor, eu estaria a falar comigo mesmo.
Bem, tenho que só tu podes responder a isso. De todo modo, foi dito que o reino de Deus está dentro de nós (Lucas: 17:21).
E já que estou em Vossa Presença, às vezes me questiono, apesar da minha fé, se Deus não seria uma invenção humana.
Sim e não. De fato, os homens inventam seus deuses à sua imagem e semelhança e conforme as suas necessidades e os seus interesses. Mas a recíproca é também verdadeira: Deus (s) criou o homem. É que o homem e Deus são uma só e mesma coisa. De sorte que os homens, a pretexto de falar de Deus (ou do demônio), estão em verdade a falar de si mesmos, atribuindo-lhe as suas próprias qualidades, virtudes etc. – reais ou imaginárias; por isso é que seus deuses são inevitavelmente antropomórficos, com sentimentos e emoções próprias dos homens. Assim, homens medíocres e intolerantes inventam deuses também medíocres e intolerantes; homens grandes, deuses grandes; homens mesquinhos e preconceituosos, deuses mesquinhos e preconceituosos. E a cada experiência religiosa um novo Deus se reinventa. Porque Deus é o homem e o homem é Deus.

Nenhum comentário:

Postar um comentário