Senhor: apesar da minha fé, tenho
algumas dúvidas e gostaria de revelá-las.
Claro…
Em
primeiro lugar, sei que a história refere um sem número de religiões (e deuses
e demônios): judaísmo, budismo, umbanda, cristianismo, hinduísmo, islamismo,
xintoísmo, só para citar algumas das mais conhecidas. E se pensarmos nas
religiões extintas (e deuses e demônios mortos), a relação não teria fim; por
isso, tenho por vezes a impressão de que as religiões e os deuses, à semelhança
das línguas, variam no tempo e no espaço. Então me pergunto: por que esta
religião que adotei e não outra; por que este Deus e não outro (s)? Onde fica o
cemitério (e berçário) dos deuses?
Eu
poderia responder a isso de muitas formas, mas vou fazê-lo assim, simplificando
um pouco: todas as religiões (e deuses) citadas são apenas nomes para designar
uma mesma experiência, a experiência com Deus. Deus é uno e múltiplo. Não
surpreende assim tantos nomes; ao fim, tudo é uma só e mesma coisa. Não
importa, portanto, o nome do Deus (Odin, Thor, Ala, Jeová, Jesus, Zeus, Isis,
Amon-Ra ou Huitzilopochtli) ao qual tu associas a tua crença, porque todos os
deuses têm, em princípio, o mesmo valor e legitimidade. O contrário seria
apenas intolerância, ignorância e eventualmente fanatismo.
Então,
Senhor, o pecado capital residiria na falta de religião, na falta de um Deus,
isto é, no ser ateu, no ser agnóstico.
Eu não
disse isso; és tu que o dizes. Aliás, foi sempre assim: são os homens que dizem
o que os deuses (supostamente) dizem. Eu afirmaria que, em verdade, uma crença
(ou sua falta) por si só não torna alguém nem melhor nem pior. Não preciso,
para prová-lo, citar os dissimulados, os mesquinhos e toda sorte de criminosos
com ou sem religião.
Senhor:
ocorre-me, por vezes, que, mesmo quando pensamos na mesma religião (v.g., o
cristianismo), não estamos, a rigor, pensando nas mesmas coisas; sim, porque há
tantas religiões, denominações e doutrinas tão díspares, que há pouca coisa
realmente em comum entre elas. Enfim, parece que cada padre, cada pastor, cada
apóstolo e cada crente, a pretexto de falar de Deus e da Bíblia, está em
verdade a falar de suas próprias experiências.
Talvez
tenhas razão e talvez isso explique a existência de tantas religiões, de tantas
denominações, de tantas divergências. De todo modo, a diversidade em princípio
afirma a vida e não o contrário.
Devo
confessar ainda, Senhor, que sou um tanto cético; agora mesmo eu me pergunto se
essa nossa conversa não é uma ilusão, isto é, um diálogo com um personagem
(Deus) imaginário, logo, um monólogo, de sorte que, a rigor, eu estaria a falar
comigo mesmo.
Bem,
tenho que só tu podes responder a isso. De todo modo, foi dito que o reino de
Deus está dentro de nós (Lucas: 17:21).
E já que
estou em Vossa Presença, às vezes me questiono, apesar da minha fé, se Deus não
seria uma invenção humana.
Sim e
não. De fato, os homens inventam seus deuses à sua imagem e semelhança e
conforme as suas necessidades e os seus interesses. Mas a recíproca é também
verdadeira: Deus (s) criou o homem. É que o homem e Deus são uma só e mesma
coisa. De sorte que os homens, a pretexto de falar de Deus (ou do demônio),
estão em verdade a falar de si mesmos, atribuindo-lhe as suas próprias qualidades,
virtudes etc. – reais ou imaginárias; por isso é que seus deuses são
inevitavelmente antropomórficos, com sentimentos e emoções próprias dos homens.
Assim, homens medíocres e intolerantes inventam deuses também medíocres e
intolerantes; homens grandes, deuses grandes; homens mesquinhos e
preconceituosos, deuses mesquinhos e preconceituosos. E a cada experiência
religiosa um novo Deus se reinventa. Porque Deus é o homem e o homem é Deus.

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