quinta-feira, 16 de maio de 2013

O mundo dos espíritos e as práticas mortuárias dos Índios Norte Americanos


Autora: Grace Keyes - Tradução: Eva Paulino Bueno

Desde os tempos mais antigos, os Índios Norte Americanos [1] tinham algumas similaridades muito significativas. Entre estas, destaca-se a profunda conexão espiritual com o mundo natural. Entre as tribos e nações nativas americanas há uma forte tradição animísitica que aceita a existência de um mundo dos espíritos e a interconexão entre os humanos e este mundo dos espíritos. Na realidade, tal característica pode ser encontrada na maioria das populações indígenas de todo o hemisfério. A crença em espíritos é geralmente refletida em muitos aspectos da vida índia, incluindo os costumes mortuários.

Deve-ser notar que os processos históricos e políticos de aculturação e assimilação têm tido um tremendo impacto nos índios Nativos Americanos nos Estados Unidos. Embora alguns elementos do passado persistem, as práticas mortuárias têm sido consideravelmente alteradas, e continuam a mudar, como resultado destes processos aculturativos. Este trabalho focaliza algumas práticas mortuárias tradicionais que ilustram como as crenças animistas dos americanos nativos afetaram tais costumes. No mundo espiritual da maioria dos índios Nativos Americanos, os seres humanos possuem um ou mais espíritos ou almas que deixam o corpo quando a pessoa morre. [2]

No passado, era crença comum que a alma da pessoa morta viajava ao longo da Via Láctea até chegar ao mundo do além. Para ajudar a alma nesta jornada era comum, portanto, incluir várias coisas ao enterrar o corpo. Estas coisas eram geralmente as que o morto possuía e que ele poderia necessitar na vida do além. Por exemplo, entre os índios Lakota da região dos Plains (uma região de planície no centro dos Estados Unidos), o equipamento de caça seria enterrado com um homem, e as coisas necessárias para a costura seriam enterradas com a mulher. Algumas tribos, tais como os Lakota e os Blackfoot, também sacrificavam o cavalo favorito da pessoa morta. [3]

Às vezes vários ou muitos cavalos seriam mortos se a pessoa falecida fosse importante ou possuísse muitos cavalos. Diz-se que um chefe Blackfoot possuía mais de 4.000 cavalos, e quando ele morreu uns duzentos cavalos foram sacrificados. Entretanto, se o morto vinha de uma família pobre e não podia sacrificar um cavalo, somente a crina ou o rabo seriam enterrados com o falecido. Entre alguns grupos tribais a alma da pessoa não seria liberada para a viagem antes que se fizesse uma festa na comunidade. A "festa de dez dias" dos Mohawks da região nordeste era um rito funerário como este. Nesta festa, discursos e condolências eram feitos e então as posses do morto eram distribuídas entre os convidados. Era durante esta festa que a alma do falecido seria liberada para começar sua jornada ao longo da Via Láctea, até chegar ao outro mundo. Os Teton Lakota tinham um costume semelhante, mas era mais pronunciado quando o morto era uma criança. Neste caso, a alma da criança era conservada por um ano em um "pacote do espírito" especial, que tinha uma mecha do cabelo da criança. Durante o ano a família faria preparações para a festa, acumulando grandes quantidades de comida, tecidos, cavalos e outras coisas. No final deste "ritual para a conservação do espírito", os pais davam uma festa e distribuíam todos os bens acumulados. De fato, tudo, incluindo o "tipi" — a tenda que era a casa da família — eram distribuídos, e a única coisa que ficava com a família era o pacote do espírito, que era aberto, e liberava a alma da criança. A comunidade então doava bens suficientes para a família da criança morta poder recomeçar a vida de novo.

Os espíritos dos mortos eram algumas vezes temidos, e precauções tinha que ser tomada quando uma pessoa morria. A maneira da morte era um fator que fazia algumas almas mais perigosas que outras. Por exemplo, os Choctaw do sudoeste acreditavam que a alma de uma pessoa morta na guerra, ou por bruxaria, ou por homicídio não começaria sua viagem ao além antes que a sua morte fosse vingada. Eles também acreditavam que mencionar o nome do morto era potencialmente perigoso, e por isso existiam regras que proibiam os vivos de usar os nomes dos mortos por um certo período de tempo. Os Navajo [4] do Sudoeste acreditavam que a alma de alguém morto por raio era tão perigosa que eles nem sequer faziam nenhum ritual funerário. Em tais casos, a pessoa e o hooghan [5] eram simplesmente queimados e abandonados. Os índios Shoshon também temiam os espíritos ou fantasmas daqueles que por qualquer motivo permaneciam na terra. Sonhar com as pessoas mortas também era considerado de mau agouro. O imenso medo dos mortos é provavelmente melhor ilustrado com os costumes funerários dos Navajo. Os Navajo acreditavam que os mortos eram entidades potencialmente perigosas, e portanto eles tomavam cuidados muito especiais nos seus rituais.

Tradicionalmente, o enterro de um ente querido era mais uma pequena cerimônia particular, ao invés de uma cerimônia pública. Apenas alguns poucos indivíduos tomavam parte na preparação do corpo e do enterro. Poucas pessoas queriam se expor aos perigos que os espíritos dos mortos representavam. Quando uma pessoa morria, a família do morto contratava quatro especialistas (lamentadores) para prepararem o corpo para o enterro. Estes lamentadores contratados lavavam o corpo e o vestiam em roupas finas, mas tinham o cuidado de colocar os mocassins da pessoa morta nos pés errados, ou seja, o pé direito no esquerdo, e o esquerdo no direito. Isto assegurava que o morto teria dificuldade de caminhar de volta para sua aldeia. Além disso, o corpo algumas vezes era carregado através de um buraco especial feito no hooghan de maneira a não contaminar a entrada normal usada pelos vivos.

Os que participavam do féretro permaneciam calados enquanto carregavam o corpo para o lugar do enterro, que podia ser em um lugar isolado, ou numa boca de caverna que poderia ser selada. Assim como os membros de muitas outras culturas nativas americanas, os Navajo colocavam alguns objetos com o morto, e, como os Lakota, eles algumas vezes também sacrificavam o cavalo favorito do falecido. As ações tomadas depois que o corpo era enterrado também refletiam o medo que os Navajo tinham dos espíritos dos mortos. Uma vez que o corpo era enterrado, os objetos funerários eram quebrados ou estragados. Depois do enterro os participantes voltavam à aldeia por um caminho diferente, e ao invés de caminhar eles iam saltando e pulando, para se assegurar que o espírito do morto não os seguiria.

Os participantes então se purificavam com fumaça e ficavam dentro de suas casas por um período de luto de quatro dias. [6] A aculturação tem certamente afetado muitas destas práticas mortuárias até mesmo entre os índios que permaneceram nas reservas. [7] Hoje não é incomum ver práticas mais semelhantes àquelas praticadas pela sociedade americana em geral do que às tradicionais. Apesar disso, muito da espiritualidade e do animismo do passado permanece, e a interconexão entre o mundo dos espíritos e o mundo dos vivos está claramente refletida em algumas destas práticas funerárias. Se os espíritos dos mortos são ainda temidos ou não, obviamente não se questiona que os Nativos Americanos retiveram seu profundo respeito por seus ancestrais. Nada mostra este respeito mais claramente que a luta dos índios para recuperar os ossos e outros restos funerários que foram encontrados em vários cemitérios indígenas e removidos para estudos científicos. De acordo com uma longa tradição espiritual, os Nativos Americanos desejam que os restos mortais de seus ancestrais sejam propriamente enterrados. [8]

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[1] Nos Estados Unidos, os descendentes das populações indígenas são chamados índios Americanos ou Nativos Americanos. Eu uso ambos termos nesta discussão, mas faço notar aqui que o termo preferido atualmente é Nativo Americano.

[2] Os costumes descritos neste trabalho podem ser encontrados em Native Nations, de Nancy Bonvillain (Prentice-Hall, 2001), que traz uma história antropológica das nações nativas. Esta referência dá uma história cultural geral dos Americanos nativos da América do Norte. Outra fonte para o mesmo assunto é o livro de Alice Kehoe, North American Indians (Prentice-Hall, 1992). Estes dois livros cobrem várias nações da América do Norte por região cultural.

[3] O cavalo foi introduzido aos índios Americanos nos anos de 1600, e eles rapidamente se tornaram cavaleiros exímios, especialmente os índios da região dos Plains. O cavalo se tornou uma fonte de riqueza e prestígio entre alguns grupos.

[4] O nome próprio dos Navajo é Diné, mas o termo Navajo é mais usado. Os estudiosos notaram que o termo Navajo originalmente veio do espanhol para indicar "os Apaches de Nabaju," que por sua vez derivavam da palavra que os índios Tewa chamavam os Diné.

[5] Termo Diné para a casa Navajo tradicional, geralmente construída de terra e madeira.

[6] Um bom texto sobre o luto, os costumes funerários, e outros assuntos contemporâneo entre os Navajo pode ser encontrado em Navajo Lifeways (University of Oklahoma Press, 2001), de M.T. Schwarz.

[7] Os índios das reservas atualmente tendem a ser mais conservadores e tradicionais que os seus compatriotas urbanos. Entre as várias reservas nos Estados Unidos, a da nação Navajo é a maior, compreendendo aproximadamente 17 milhões de acres.

[8] O Ato para a Proteção e Repatriação dos Túmulos Nativos Americanos foi assinado em 1990, dando aos Nativos Americanos o direito de reclamar os restos funerários.

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