segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Não estamos (muito) sós no Universo






Fora de brincadeira: o mais novo trabalho do americano Geoff Marcy e seus colegas é a coisa mais importante — ainda que não seja a mais robusta — já produzida sobre planetas fora do Sistema Solar desde que o primeiro desses mundos foi descoberto ao redor de uma estrela similar ao Sol, em 1995. Graças aos dados do defunto satélite Kepler, pela primeira vez temos uma estimativa concreta de quão frequentes são planetas com condições potencialmente similares às da Terra no Universo.
E a resposta, em duas palavras, é: muito frequentes. A nova estimativa (com todas as incógnitas que ela ainda apresenta) sugere que 22% das estrelas similares ao Sol têm mundos do porte da Terra (uma a duas vezes seu diâmetro) em uma região potencialmente habitável do sistema planetário, em que água pode ser conservada em estado líquido.

Ainda que não atenda àquelas expectativas mais otimistas, feitas antes que os primeiros planetas fora do Sistema Solar começassem a ser descobertos, estamos falando de pencas de mundos potencialmente vivos. Antes se acreditava que praticamente todas as estrelas tinham planetas, e os sistemas planetários se organizavam basicamente da mesma forma que o nosso.
A primeira parte se confirmou. De fato, parece que praticamente todas as estrelas — seguramente todas as mais longevas, como o Sol ou suas irmãs menores, as anãs vermelhas — têm planetas. Já a arquitetura dos sistemas se mostrou ser bem mais variada do que antes se imaginava.
De toda forma, 22% é um bocado. Uma em cada cinco estrelas do tipo solar (incluindo aí as da categoria G, como o Sol, e as da categoria K, ligeiramente menores, como Alfa Centauri B) têm ao menos um planeta rochoso num lugar em que a vida potencialmente seria viável.
A forma que os astrônomos encontraram para expressar essa descoberta é assinalar que, a julgar por essa estatística, o planeta habitável mais próximo deve estar a meros 12 anos-luz de distância, orbitando uma estrela que deve ser visível a olho nu no céu noturno! Podemos estar olhando para uma Terra alienígena ao passearmos nosso olhar pelo firmamento, sem sequer nos darmos conta disso!
Para mim, isso é confirmação experimental suficiente de que a Terra não é tão especial assim na ordem das coisas, e muitos outros planetas parecidos estão lá fora esperando para ser descobertos pelos astrônomos. (Aliás, num anúncio paralelo, a equipe do satélite Kepler revelou ontem ter encontrado 10 novos candidatos a planeta do porte da Terra na zona habitável de suas estrelas!)
É uma velha desconfiança, que vem desde o século 16, com o filósofo italiano Giordano Bruno, mas que nunca esteve tão próxima de ser confirmada.
Apesar do entusiasmo, contudo, precisamos compreender o que realmente significa o achado.
PITADAS DE SAL
Nem todo planeta na zona habitável será de fato habitável. Aliás, a julgar pela definição usada pelos cientistas, Vênus e Marte seriam tão habitáveis quanto a Terra. Sabemos, contudo, que eles são tudo menos isso.
Por quê? A razão é simples. Habitabilidade (ou seja, presença de água líquida estável na superfície) não depende apenas do nível de radiação estelar que chega ao planeta, mas também das condições daquele planeta em particular.
Talvez se Marte estivesse no lugar de Vênus — menor, portanto, menos capaz de reter uma atmosfera densa capaz de gerar efeito estufa agressivo –, ele fosse bem mais aprazível. E o mesmo se pode dizer do inverso. Se Vênus estivesse no lugar de Marte no Sistema Solar, é bem possível que fosse tão agradável quanto a Terra.
A composição exata e a posição dos planetas nos sistemas é largamente aleatória, de forma que nem todos esses supostos planetas — um em cada cinco estrelas — terão a combinação exigida para se tornarem Terras tão gentis quanto a nossa. Usando só o nosso Sistema Solar como base, podemos pensar que, a cada três planetas, um é de fato habitável. E estatística baseada em três exemplos está longe de ser robusta. É possível que o nível de raridade seja bem maior: 1 em 10, ou 1 em 100. Não sabemos.
E eis que, depois disso, vem uma segunda dúvida: uma vez que o planeta é de fato habitável, ele está fadado a se tornar habitado, ou seja, desenvolver vida?
Como ninguém sabe exatamente o que é preciso para a vida surgir, essa é uma pergunta sem resposta no momento. Por um lado, sabemos que a química que gera a vida é altamente complexa e difícil de se produzir sozinha. Por outro lado, sabemos pelo registro fóssil que a vida surgiu na Terra assim que as condições favoráveis se fixaram no planeta. O surgimento da vida pode ser extremamente improvável ou quase uma certeza inevitável, e não há quem tenha essa resposta no momento. (Desconfie de alguém que diz saber.)
Resumo da ópera: se a principal condição para a vida é ter um planeta como a Terra numa região específica do sistema planetário, o Universo deve estar pululando com ETs. O problema é que não sabemos se essa premissa é verdadeira.
E aí reside a grande aventura da ciência nos próximos anos: ao confirmarmos finalmente que planetas como a Terra, em órbita e porte, são bem comuns, poderemos passar a sondar remotamente a atmosfera desses mundos em busca de sinais de vida. Dificilmente essa dúvida cruel sobre o nível de raridade das formas biológicas no Universo persistirá por mais duas décadas. O primeiro — e crucial — passo para matar a charada ancestral foi dado agora. Os próximos serão ainda mais arrepiantes.



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