sábado, 14 de dezembro de 2013

A covardia do homem contra o homem de todos os tempos exposta no Evangelho.



"Os que detinham Jesus zombavam dele, davam-lhe pancadas e, vedando-lhe os olhos, diziam: Profetiza-nos quem é que te bateu? Em muitas outras coisas diziam contra ele, blasfemando." (Evangelho de Lucas, capítulo 22, versículos de 63 a 65; versão e tradução ARA)

Como temos visto nesses estudos sequenciais sobre o 3º Evangelho, Jesus havia sido preso pelos guardas do sumo sacerdote (Lc 22:47-53) e estava aguardando o seu julgamento pelo Sinédrio assim que amanhecesse (22:66-71). O Salvador ainda não fora castigado com a dura pena de açoites, mas uns serviçais começaram a humilhá-lo covardemente sem qualquer razão para tanta violência. O verso 64 nos dá a entender que eles estivessem até se divertindo com aquela zombaria.

No momento de sua prisão, o Mestre disse aos que vieram buscá-lo que, diariamente, encontrava-se com eles no Templo, mas ninguém lhe pusera as mãos (v. 53). E isto se explica pelo fato das autoridades religiosas terem temido pela reação do povo (19:47-48). Tanto é que precisaram do auxílio de um traidor para que aquele ato ilegal de restrição da liberdade ocorresse "sem tumulto" (20:6).

Entretanto, quero focar desta vez na conduta dos que trabalhavam para o sistema político-religioso que os oprimia. Homens do povo iguais a nós que eram semelhantemente explorados pelos seus respectivos patrões e mal pagos para defenderem os interesses da elite local dos saduceus, a qual, como expus do artigo "Deus não é Deus de mortos", compunha-se por homens riquíssimos de Israel ainda que subservientes a Roma.

Logo nos primeiros capítulos do Evangelho, João Batista havia orientado os soldados que não maltratassem a ninguém e nem dessem denúncia falsa, mas se contentassem com o salário que eles recebiam (3:14). Ou seja, seria compreensível que, por uma razão de necessidade e de sustento pessoal/familiar, alguém precisasse continuar empregado como guarda do Império Romano ou do Templo. Porém, eles não deveriam se exceder no exercício daquelas funções.

Ora, não foi o que aconteceu quando Jesus esteve nas mãos daqueles "policiais" mesmo ele tendo se entregado sem resistência alguma e chegando a curar um deles cuja orelha fora cortada pela espada de seu discípulo (22:50-51). Ou seja, não existiam motivos para maltratarem um homem que só fazia o bem, mas podemos tentar explicar esse comportamento agressivo e covarde. Algo que depois se repetiu no interrogatório de Herodes (23:11) e na cruz (23:36-37).

Chama-me a atenção o gosto pela crueldade por quem é de alguma maneira esbofeteado por seus superiores hierárquicos. Por causa da perda de consciência de si próprio, o indivíduo violentado tende a reagir descontando em quem se encontra vulnerável em suas mãos. Quer seja num prisioneiro algemado, em sua esposa, no próprio filho e até num animal de estimação indefeso. Trata-se de uma solução errada encontrada pelo sujeito frustrado afim de descarregar a sua revolta incontida de uma maneira substitutiva.

Percebo que o nosso Brasil viveu e ainda vive muito disso em sua trajetória histórica. Na época do regime militar, quem garante não terem muitos torturadores espancado pessoas afim de também extravasarem a maldade que os mesmos recebiam de seus chefes? Estariam eles apenas cumprindo ordens? E o que dizermos hoje acerca das cenas de violência policial frequentemente exibidas nos telejornais do país? Aliás, se agora a TV mostra algo assim nas periferias das cidades, devemos lembrar que, até uns tempos atrás, o abuso cometido por PMs em determinadas comunidades carentes contra o trabalhador era um acontecimento quase sempre abafado pelo sistema em que não havia ainda essa facilidade de divulgação proporcionada agora pela internet, sendo certo que essa realidade injusta ainda se manteve por vários anos mesmo depois de promulgada a nossa Constituição de 1988...

Se lembrarmos de Jesus, saberemos que o nosso Senhor também foi vítima dessa repugnante violência policial quase sempre dirigida contra o pobre. Neste século XXI, graças ao desenvolvimento dos direitos humanos e da democracia, a nossa sociedade está paulatinamente virando uma página de horror da história brasileira que já dura mais de 500 anos e matou incontáveis Amarildos. Creio, porém, não bastarem apenas leis para eliminarmos por completo as raízes de tal comportamento doentio e criminoso. Não somente as unidades policiais devem ser humanizadas (apoio plenamente o fim da militarização do policiamento ostensivo), como precisamos nos auto-compreender afim de lidarmos melhor com o instinto agressivo aprendendo sobre como procederemos nas difíceis horas quando aflora o sentimento de querer descontar no outro as frustrações pessoais.

Conforme bem sabemos, Jesus perdoou expressamente os que lhe maltratavam (23:34), sobre o que ainda pretendo escrever na sequência. O Mestre compreendia suficientemente que os seus torturadores não sabiam o que faziam e daí eu diria que o caminho para nos conscientizarmos se passa pela auto-avaliação das condutas que exteriorizamos, assim como pelo entendimento das emoções não manifestadas. Enfim, eis aí a antiga tarefa até hoje não realizada pelo homem sobre tentar conhecer melhor a ele mesmo como já diziam os sábios gregos da época de Platão anteriores a Jesus.


OBS: A ilustração acima trata-se de uma obra anônima do século XVII que mostra a zombaria feita com Jesus na casa do sumo sacerdote. O quadro encontra-se atualmente no Museu do Louvre, em Paris, França. Extraí a imagem do acervo virtual da Wikipédia conforme consta em http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:17th-century_unknown_painters_-_Mocking_of_Christ_-_WGA23963.jpg

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