Por Joseph Campbell
A extensão da
divergência entre as mitologias e em consequência as psicologias - do
Oriente e do Ocidente no decorrer do período entre o nascimento da
civilização no Oriente Próximo e a época atual de redescoberta mútua,
fica evidente nas respectivas versões opostas da mesma imagem mitológica
do primeiro ser, que originalmente era um, mas se tornou dois.
"No
princípio", afirma um exemplo indiano de c.700 a.e.c., preservado no
Brhadaranyaka Upanisad, este universo não era nada senão o Si-Próprio na
forma de um homem. Ele olhou em volta e viu que não havia nada além de
si mesmo, de maneira que seu primeiro grito foi: "Sou Eu!", e daí surgiu
o conceito "eu". (E é por isso que, até hoje, quando interpelados
respondemos antes "sou eu!", e só depois damos o nome pelo qual
atendemos.)
Então, ele teve
medo. (É por isso que qualquer pessoa sozinha tem medo.) Mas
considerou: "Como não há ninguém aqui além de mim mesmo, o que há para
temer?" Em conseqüência disso o medo desapareceu. (Pois o que deveria
ser temido? É apenas a outro que o medo se refere.)
Entretanto, ele
carecia de prazer (por isso, carecemos de prazer quando sozinhos) e
desejou outro. Ele era exatamente tão grande quanto um homem e uma
mulher abraçados. Esse Si-Próprio dividiu-se então em duas partes, e com
isso passou a haver um senhor e uma senhora. (Por isso, esse corpo, em
si mesmo, como declara o sábio Yajnavalkya, é como a metade de uma
ervilha. E é por isso, além do mais, que esse espaço é preenchido por
uma mulher.)
O macho abraçou
a fêmea e desse abraço surgiu a raça humana. Ela, entretanto, refletiu:
"Como ele pode unir-se a mim, que sou produto dele próprio? Bem, então
vou esconder-me!" Ela tornou-se uma vaca, ele um touro e uniu-se a ela, e
dessa união surgiu o gado. Ela tornou-se uma égua, ele um garanhão, ela
uma jumenta, ele um jumento e uniram-se, e disso surgiram os animais de
casco. Ela tornou-se uma cabra, ele um bode; ela uma ovelha, ele um
carneiro e uniram-se, e surgiram as cabras e as ovelhas. Dessa maneira
ele criou todos os pares de criaturas, até as formigas. E então
percebeu: "Na verdade, sou a criação; pois tudo isso brotou de mim". Daí
surgiu o conceito "Criação" (em sânscrito, sistih, "fruto do manar").
Todo aquele que entender isso torna-se, verdadeiramente, ele próprio um criador nessa criação.
O mais
conhecido exemplo ocidental dessa imagem do primeiro ser, dividido em
dois, que parece ser dois mas é de fato um, está no Livro do Gênese,
segundo capítulo, orientado porém em outra direção. Pois o casal é
dividido ali por um ser superior que, como nos contam, fez com que o
homem caísse em profundo sono e, enquanto ele dormia tirou uma de suas
costelas. Na versão indiana é o próprio deus que se divide e se torna
não apenas homem, mas toda a criação; de maneira que tudo é uma
manifestação daquela única substância divina onipresente: não há outro.
Na bíblia, entretanto, Deus e homem, desde o início, são distintos. De
fato, o homem é feito à imagem de Deus e o sopro de Deus foi insuflado
em suas narinas; mas seu ser, seu Si-Próprio, não é o de Deus, nem
tampouco é uno com o universo. A criação do mundo, dos animais e de Adão
(que então se tornou Adão e Eva), foi realizada não dentro da esfera da
divindade, mas fora dela. Há, conseqüentemente, uma separação
intrínseca e não apenas formal. E o propósito do Conhecimento não pode
ser contemplar Deus aqui e agora em todas as coisas; pois Deus não está
nas coisas. Deus é transcendente. Apenas os mortos vêem Deus. O
propósito do conhecimento tem que ser, antes, conhecer a relação de Deus
com sua criação, ou, mais especificamente, com o homem, e através de
tal conhecimento, pela graça de Deus, religar a própria vontade de cada
um com a do Criador.
Além do mais,
de acordo com a visão bíblica desse mito, foi apenas após a criação que o
homem caiu, enquanto no exemplo indiano a própria criação foi uma queda
- a fragmentação de um deus. E o deus não é condenado. Antes, sua
criação, "seu manar" (sistih), é descrito como um ato de voluntária e
dinâmica vontade-de-ser-mais, que antecedeu a criação e tem, portanto,
um significado metafísico e simbólico, nem literal nem histórico. A
queda de Adão e Eva foi um evento dentro da já criada estrutura de
espaço e tempo, um acidente que não deveria ter ocorrido. Por outro
lado, o mito do Si-Próprio na forma de um homem que olhou em volta e não
viu nada além de si mesmo, disse "Eu", sentiu medo e então desejou ser
dois, fala de um fator não casual mas intrínseco na multiplicação do
ser, cuja correção ou anulação não aperfeiçoaria, mas dissolveria a
criação. O ponto de vista indiano é metafísico, poético; o bíblico,
ético e histórico.
A queda e
expulsão de Adão do Paraíso não foi, portanto, em nenhum sentido uma
divisão metafísica da própria substância divina, mas um evento apenas na
história, ou pré-história, do homem. E esse evento no mundo criado
aparece ao longo da bíblia no registro dos sucessos e fracassos do homem
na tentativa de religar-se a Deus - sucessos e fracassos, mais uma vez,
concebidos historicamente. Pois, como veremos a seguir, o próprio Deus,
em certo momento no curso do tempo, por na própria vontade, moveu-se em
direção ao homem, instituindo uma nova lei na forma de um pacto com um
certo povo, que se tornou, com isso, uma raça sacerdotal, única no
mundo. A reconciliação de Deus com o homem, de cuja criação ele se havia
arrependido (Gênese 6:6), deveria ser alcançada apenas pela virtude
dessa comunidade particular - em seu devido tempo: pois em seu tempo
deveria ocorrer a instauração do reino do Senhor Deus na terra, quando
as monarquias politeístas se desagregariam e Israel seria salvo, quando
os homens "lançariam seus ídolos de prata e seus ídolos de ouro, que
fizeram para adorar, às toupeiras e aos morcegos".
Sede subjugados, vós povos, e ficai desalentados;
dai ouvidos, todos vós países distantes;
escarnecei e ficai desalentados;
escarnecei e ficai desalentados.
Aconselhai-vos, mas isso não vos levará a nada:
dizei uma palavra, mas ela não se sustentará,
porque Deus está conosco.
Na visão
indiana, pelo contrário, o que é divino aqui é divino lá também;
tampouco se terá que esperar - ou mesmo desejar - pelo "dia do Senhor".
Pois o que se perdeu e, em cada um, o Si-Próprio (ātman), aqui e agora, e
tem apenas que ser procurado. Ou, como eles dizem: "Apenas quando os
homens enrolarem o espaço como um pedaço de couro, haverá um fim para o
sofrimento e além disso haverá o conhecimento de Deus".
No mundo
dominado pela bíblia surge a questão a respeito da comunidade
"escolhida", pois é bem sabido que três manifestaram pretensões: a
judaica, a cristã e a muçulmana, cada uma alegando autoridade advinda de
uma revelação particular. Deus, embora concebido como fora do âmbito da
história e não sendo ele próprio sua substância (transcendente: não
imanente), supostamente engajou-se de modo milagroso na empresa de
restaurar o homem caído, através de uma aliança, sacramento ou livro
revelado, a fim de propiciar uma experiência comunal geral de realização
ainda por vir. O mundo é corrupto e o homem um pecador; o indivíduo,
entretanto, através da união com Deus no destino da única comunidade
legitimada, participa da glória vindoura do reino da justiça, quando "a
glória do Senhor será revelada e toda a carne junta a verá".
Na experiência e
visão da Índia, por outro lado, embora o mistério e ascendência
sagrados tenham sido entendidos como, de fato, transcendentes ("outro
que não o conhecido; mais do que isso: acima do desconhecido"), eles
são também, ao mesmo tempo, imanentes ("como uma navalha em seu estojo,
como o fogo no pavio"). Não é que o divino esteja em todas as partes: é
que o divino é tudo. De maneira que não se precisa de nenhuma
referencia externa, revelação, sacramento ou comunidade autorizada para
se retornar a ele. Tem-se apenas que mudar a orientação psicológica e
reconhecer (re-conhecer) o que está dentro. Sem esse reconhecimento,
somos afastados de nossa própria realidade por uma miopia cerebral que
em sânscrito é chamada māyā, "ilusão" (da raiz verbal mā, "medir,
marcar, formar, construir", denotando, em primeiro lugar, o poder de um
deus ou demônio de produzir efeitos ilusórios, de mudar de forma e de
aparecer sob máscaras enganadoras; em segundo lugar, "mágica", a
produção de ilusões e, na guerra, "camuflagem, táticas enganadoras", e
finalmente, no discurso filosófico, a ilusão sobreposta à realidade por
causa da ignorância). No lugar da expulsão bíblica de um paraíso
geográfico e concebido historicamente, onde Deus andava no frescor do
dia, temos na Índia, portanto, já por volta de 700 a.e.c. (cerca de
trezentos anos antes da compilação do Pentateuco), uma interpretação
psicológica do grande tema.
Nas duas
tradições, o mito do andrógino primevo é aplicado à mesma função:
evidenciar a distância do homem, em sua vida secular normal, dos divinos
Alfa e Ômega. Mas os argumentos diferem radicalmente e, por isso,
sustentam duas civilizações radicalmente diferentes. Pois, se o homem
foi afastado do divino por um evento histórico, será um evento histórico
que o levará de volta, enquanto, se foi impedido por algum tipo de
desvio psicológico, a psicologia será seu veículo de retorno. Portanto,
na Índia o foco último de preocupação não é a comunidade mas a ioga.
Texto extraído do site: http://www.templodeapolo.net

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