terça-feira, 22 de abril de 2014

sociedade epicuréia


"Ponto de encontro entre a literatura e a vida,
onde os jovens procuravam dar realidade às imaginações românticas"



Esta frase do crítico literário Antonio Cândido publicada no jornal Estado de São Paulo de 25 de Janeiro de 1954, resume num ponto de vista, o que foi a Sociedade Epicuréia. Porém, para que compreendamos com maior discernimento, devemos antes de tudo, conhecer Epícuro e o Epicurismo.
Epícuro (341–270 a.C.) foi um filósofo grego partidário de Demócrito. O essencial de sua obra reside no conceito de gozar os bens materiais e espirituais do mundo com ponderação e medida; de forma que a excelência desses bens seja percebida naquilo que há de melhor em sua natureza. Mas a doutrina de Epícuro foi desvirtuada por seus opositores, principalmente religiosos, que lutavam contra todas as formas de materialismo. Então o Epicurismo (Epicuréia, no feminino) tornou-se sinônimo de busca exclusivamente material; de volúpia e prazeres terrenos. Esta conotação foi usada para designar a Sociedade Epicuréia.


A Sociedade

Nosso cenário é a capital paulista em meados do século XIX. A Faculdade de Direito, instalada no antigo Convento de São Francisco, abrigava jovens vindos de diversas partes do Brasil. De acordo com o historiador Richard Morse: "os estudantes introduziram novas modas no vestuário. As caçadas, a natação, o flerte, as bebidas, as orgias e o hábito de se reunirem para discussão e divertimento levaram a vida para as ruas, ao ar livre, criaram a necessidade de tavernas e livrarias, e inauguraram o sentimento de comunidade".
Acomodados em pequenos quartos das repúblicas, os estudantes viam-se distantes do olhar recriminador da família. Aliada a liberdade, a atmosfera austera e sombria de uma São Paulo com no máximo 15 mil habitantes, fornecia elementos suficientes para o cultivo e propagação da imaginação. Neste caso, manifestada na literatura, e talvez, na vida real.
Um grupo criado em 1845, composto por boêmios universitários liderados pelos seus fundadores Aureliano Lessa, Bernardo Guimarães e Álvares de Azevedo, se intitulava "Sociedade Epicuréia". De acordo com as lendas, este grupo escandalizava as tradicionais famílias paulistanas ao promover orgias nas necrópoles da cidade. Dizia-se que haviam embriagado uma meretriz e a levaram secretamente para um cemitério. Numa cerimônia macabra, onde vinho e tabaco eram componentes essenciais, consagraram a prostituta como "Rainha dos Mortos", envoltos na fria neblina da madrugada paulistana.
O conto Noite na Taverna de Álvares de Azevedo, evoca um ambiente semelhante ao que poderia conter nestas cerimônias. Os relatos dos personagens Solfieri e Gennaro, por exemplo, poderiam ter sido inspirados em situações vivenciadas pelo autor e transcritas como simples contos.
Segundo o contemporâneo de Álvares de Azevedo, o escritor José de Alencar, "Todo estudante de alguma imaginação queria ser um Byron, e tinha por destino inexorável copiar ou traduzir o bardo inglês". Assim, os jovens e ávidos devoradores de Lord Byron, denominavam-se como personagens de suas obras. Estes pseudônimos eram usados apenas em suas reuniões. De certa forma, este recurso atribuía um aspecto alegórico e misterioso a Sociedade Epicuréia.
Outros boatos também contribuíram para que fosse criado um caráter profano ao redor da Sociedade Epicuréia e seus membros. Porém, os fatos combinam-se com os mitos e a veracidade das informações fica comprometida ao analisarmos alguns fatores.
É notório que Álvares de Azevedo possuía uma saúde frágil e uma personalidade introspectiva manifestada em seus versos. Além disso, o estudioso e dedicado jovem, teve uma importante parcela de sua obra construída durante o período que cursou a Faculdade de Direito. Portanto, é espantoso crer que o poeta promoveria e participaria de orgias como as que compõem a reputação da Sociedade Epicuréia, e esmaecem no véu dos tempos.
Mas deixemos as lendas. O fato significativo a ser destacado, é que a Sociedade Epicuréia é considerada por alguns, um grupo ou um período, onde se consolidou uma intensa e virtuosa produção literária estudantil. Até hoje, não houve um fenômeno de grandiosidade seme-lhante; e provavelmente não haverá. Isto porque a capacidade daqueles jovens poetas é incontes-tável, e o romantismo que circundava a outonal São Paulo daqueles tempos, jamais voltará a cena.

Por Spectrum

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