quarta-feira, 16 de julho de 2014

Metaceticismo




A palavra ceticismo se origina do grego sképtomai, que significa “olhar à distância”, “examinar”, “observar”. Como o termo tradicionalmente dava nome a uma corrente filosófica originada na Grécia Antiga, ele também denomina a doutrina onde se assume não ser possível obter nenhuma certeza absoluta a respeito da verdade, o que implica numa condição permanente de questionamento. Em sua vertente científica, o ceticismo se preocuparia em verificar a validade de idéias através de seu confronto com as evidências empíricas.1
É muito comum, contudo, observar críticos se desviarem da objetividade de testar a consistência de hipóteses ou a validade de fatos, e passarem à negação sistemática. Em clara contradição com a própria doutrina que defendem, por exemplo, alguns negam absolutamente a existência de certos fenômenos. O ceticismo, adequadamente, se refere à dúvida no lugar negação, ao descrédito no lugar da crença. Críticos que assumem uma posição fervorosamente negativa no lugar de uma posição agnóstica ou neutra, na verdade não são “céticos”, mas “pseudo-céticos”.2
Não é preciso muita observação para concluir que aqueles que se orgulham do seu próprio ceticismo costumam ser pseudo-céticos. Os céticos legítimos, agnósticos, geralmente não excercem o ceticismos por amor, mas por necessidade, uma vez ele é um filtro eficiente contra equívocos. Esses céticos verdadeiros tendem a guardar seu apreço para o conhecimento, sentem prazer na pesquisa e deleite diante de novas descobertas.
Consideramos como metaceticismo a atitude de ser cético quanto às abordagens pseudo-céticas. Marcello Truzzi, sociólogo da Eastern Michigan University, identificou condutas típicas adotadas pelos pseudo-céticos:3
1) A tendência de negar, ao invés de duvidar.
2) Utilização de padrões de rigor acima do razoável na avaliação do objeto de sua crítica.
3) A realização de julgamentos sem uma investigação completa e conclusiva.
4) Tendência ao descrédito, ao invés da investigação.
5) Uso do ridículo ou de ataques pessoais.
6) A apresentação de evidências insuficientes.
7) A tentativa de desqualificar proponentes de novas idéias taxando-os pejorativamente de ‘pseudo-cientistas’, ‘promotores’ ou ‘praticantes de ciência patológica’.
8) Partir do pressuposto de que suas críticas não tem o ônus da prova, e que suas argumentações não precisam estar suportadas por evidências.
9) A apresentação de contra-provas não fundamentadas ou baseadas apenas em plausibilidade, ao invés de se basearem em evidências empíricas.
10) A sugestão de que evidências inconvincentes são suficientes para se assumir que uma teoria é falsa.
11) A tendência de desqualificar ‘toda e qualquer’ evidência.
Uma observação isenta permite constatar como, ao contrário do que faz com outros equívocos advindos do excesso de indugência – como abordagens esotéricas -, o Conhecimento Estabelecido é tolerante com as falhas pseudo-céticas, apesar delas serem igualmente nocivas. Nesse caso, a paciência substitui o ostracismo e o escárnio dá lugar à advertência acolhedora.
Não é difícil identificar o motivo desse tratamento desigual para faltas igualmente graves. Enquanto posições em favor de anomalias são uma ameaça ao paradigma, o pseudo-ceticismo é um servo obtuso, porém dócil, obediente e, portanto, tolerado – uma versão genérica do idiota útil, para fazer uma analogia com o termo forjado por Vladimir Lenin para se referenciar aos estusiástas estrangeiros do regime soviético, que o veneravam cegamente mesmo sem compreende-lo em profundidade.4 Nessa seção, reunimos artigos dedicados à metodologia, filosofia da ciência e resenhas, com o objetivo de demonstrar a canhestrice desse posicionamento deformado.
Vejamos uma situação que ilustra o prejuízo que ele impõe.
Robert Charroux, em seu livro História Desconhecida dos Homens, dedica um pequeno trecho da obra a “estradas amaldiçoadas”.5 Em seu estilo peculiar, detalhado mas superficial, ele aponta alguns trechos na Europa que se destacam pelo número de acidentes sem motivo aparente. O quilômetro 88,4 da Estrada Nacional 5, entre Pont-sur-Yonne e Paris, na França; o marco 23,9 da estrada entre Bremen e Bremerhafen, na Alemanha; e o leito largo e retilíneo da Estrada Nacional 7, entre Briare e Montargis, na França. Todos atribuídos como “amaldiçoados”. Para o quilômetro 88,4 a sina viria de uma praga rogada por ciganos contra os moradores do Castelo de Lourmarin. Um homem que ria da maldição, chamado Albert Camus, teria sido sua décima terceira vítima.
Quanto ao trecho da Estrada Nacional 7, onde as vítimas, sem qualquer razão aparente, saem de uma estrada larga, plana e reta e se chocam contra árvores nos arredores, sacrificando em especial pessoas da família Michelin, médicos do Hospital Saint-Anne de Paris e da Academia de Medicina encontraram uma explicação verossímil. Segundo eles, todo indivíduo predisposto à epilepsia que recebe nos olhos dez feixes de luz por segundo entra em crise. Quando o Sol se põe atrás da fileira de árvores da Estrada Nacional 7, um automobilista a cento e vinte quilômetros por hora receberia exatamente essa cadência de luz.
Sejam ou não reais, o conjunto desses acontecimentos é ilustrativo. Não se sabe o que acontece no quilômetro 88,4 ou no marco 23,9; mas a “maldição” da Estrada Nacional 7 era verdadeira – e descobriu-se de onde ela vinha. Ignorar fatos insólitos nos desprotege contra eles. Descartá-los a priori nos condena à ignorância sobre a realidade dos acontecimentos. Melhor pesquisá-los.
Também procure em nosso site, com a etiqueta Avanços, o registro de momentos em que o conhecimento estabelecido passa a aceitar ideias ou ações que antes ridicularizava com veemência. Questões que o paradigma, para desconsolo dos pseudo-céticos, admite oficialmente estar acima da sua capacidade de explicação, constam com a etiqueta Desafios. Novos achados que surpreenderam o conhecimento estabelecido constam com a etiqueta Descoberta.
Críticas, acréscimos ou sugestões, comente ou Entre em Contato.
1. Ceticismo. Wikipédia. Acesso em 10 de fevereiro de 2011. []
2. Ver: Marcello Truzzi, Sobre Pseudo-Ceticismo. []
3. Ceticismo. Wikipédia, Acesso em 24/07/2010. []
4. Idiota útil. Wikipédia. Acesso em 18 de janeiro de 2011. Em espanhol. []
5. Robert Charroux. História Desconhecida dos Homens. São Paulo: Difel, 1976. pp. 27-9. []

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