quarta-feira, 16 de julho de 2014

Quais são os critérios para alguém ser filósofo?



O filósofo tem que contribuir com a comunidade acadêmica, [1] e existem periódicos filosóficos como em ciência para o mesmo submeter-se seus trabalhos, existem áreas específicas dentro do campo filosófico, isto é, a filosofia de um modo geral não consiste em uma única área específica, existem trabalhos voltados principalmente à filosofia analítica (caracterizada pela ênfase na clareza e argumento, muitas vezes feito através da moderna lógica formal e da análise de linguagem), filosofia experimental (que se preocupa com a busca e análise de dados, igual à ciência moderna), a filosofia da ciência (que é o campo que estuda os fundamentos, pressupostos e implicações filosóficas das ciências naturais e sociais), filosofia da pseudociência (que é a observância analítica e epistemológica das “filosofias” por detrás), e até mesmo filosofia da religião (que é o exame filosófico dos temas centrais e conceitos envolvidos nas tradições religiosas). Existem também outras áreas da filosofia que não são de “jurisdição” da ciência como ética e política, mas não vou entrar em detalhes, o ponto aqui é outro…
Quando um filósofo submete um paper (seu trabalho) num periódico, ele não é aceito de primeira, ou seja, o mesmo é submetido à crítica, como no caso das publicações submetidas em periódicos científicos, isto é, o trabalho passa por um processo de revisão por pares (peer-review).
A revisão por pares é a avaliação do trabalho por uma ou mais pessoas de competência semelhante aos produtores do trabalho (peers). Constitui uma forma de auto-regulação por membros qualificados de uma profissão dentro do campo relevante. Os métodos de revisão por pares são empregados para manter os padrões de qualidade, melhorar o desempenho e fornecer credibilidade. Na avaliação por pares em academia, tal processo é muitas vezes usado para determinar a adequação de um trabalho acadêmico para publicação.
Um filósofo também busca compreender e responder questões e problemas fundamentais da natureza que são comumente ignoradas por cientistas, às vezes, porque tal problema é considerado irrelevante para a estruturação de uma hipótese ou teoria científica, ou às vezes, porque tais pensadores não perceberam tal problema na época.
Se você for uma daquelas pessoas que pensam que todos os problemas básicos da ciência já foram resolvidos, é ai que você se engana, a ciência está longe de estar completa em seu nível mais “básico”, e na maioria das vezes, são destes problemas fundamentais em que os filósofos se ocupam, por exemplo, em ciência, um dos problemas fundamentais que ainda não foram resolvidos, e que se tornou um objeto de estudo filosófico, é o famoso problema dos três corpos, que envolve uma série de problemas com as leis de Kepler e as leis de Newton.
Quando se fala em contribuições significativas dos filósofos do século XX, é impossível não citar Karl Popper. Popper foi um filósofo da ciência popularmente conhecido pela sua Teoria da Demarcação, [2] sua teoria consiste em estabelecer critérios que separem a ciência da não-ciência, a fim de criar metas mais rígidas para que tais áreas não se misturem com a ciência. (A fim de evitar eventuais problemas, Popper tentou adequar a sua Teoria ao mesmo objetivo da científica, isto é, se for possível melhorá-la, que melhorem).
Outro filósofo importante, mas atual, é o argentino Mario Bunge, que é físico e filósofo da ciência. Bunge ganhou destaque por contribuir com o campo da ciência (naturais e sociais) e da filosofia com os seus critérios, análise e críticas aos pensadores que são respeitados injustamente no meio acadêmico, tal como Paul Feyerabend e Thomas Kuhn, e ele também é crítico dos acadêmicos Pós-Modernos. Bunge trabalha também com metafísica, ontologia, e epistemologia, e é um dos principais filósofos da física em atividade. O mesmo também é adepto da demarcação entre filosofia e pseudofilosofia. (Se você tiver interesse em ler os artigos do Bunge, clique aqui).

Perguntas:
[1] – “Douglas, concordo com o texto em maior parte, exceto o início que diz que ‘filósofo tem que contribuir com a comunidade acadêmica’. Isso não seria uma espécie de elitização da filosofia? Qualquer um pode filosofar sob a sombra de uma árvore, olhando para o céu e se questionando…”.
Existe uma grande diferença entre filosofar e fazer filosofia. Filosofar é o ato de pensar por si só, de questionar algo ou alguma coisa, em suma, é um exercício de reflexão.
Um cientista filosofa, um pedreiro filosofa, mas somente um filósofo constrói conhecimento e colabora com o campo do campo do conhecimento, ou seja, o cientista faz ciência, assim como o filósofo faz filosofia, e para filosofar não precisa ser necessariamente um filósofo, mas todo filósofo deve saber filosofar.
Ignorar tais regras (demarcatórias) em filosofia é a mesma coisa que credenciar o trabalho (os livros que escreveu) do Olavo e chamá-lo de filósofo, mesmo que ele nunca tenha dado qualquer contribuição para o campo do conhecimento, e nem sequer tenha terminado a 4ª série. O Olavo (pseudofilósofo) é o que os americanos chamam de “crank“.

Notas:
[2] – Os critérios de demarcação variam de acordo com o que os filósofos propõem, por exemplo, Popper foi o proponente da falseabilidade (uma teoria não é científica quando é infalseável), Bunge segue uma versão atualizada do verificacionismo (porém, diferentemente de Popper, ele utiliza o critério de “cientificidade”, descrito no dicionário dele e a questão da compatibilidade das teorias com o grosso do conhecimento científico), Lakatos dividiu o conhecimento científico em “núcleo duro” e “cinturão protetor”, numa tentativa de refutar o critério popperiano através dos “programas”. Lakatos se parece um pouco com o Thomas Kuhn, que através do historicismo, não estabelecia um critério de demarcação entre ciência e pseudociência.

Nenhum comentário:

Postar um comentário