segunda-feira, 8 de setembro de 2014

A Nova Espiritualidade (*)

A NOVA ESPIRITUALIDADE (*)

O que foi é o que há de ser; e o que se fez, isso se tornará a fazer; nada há, pois, novo debaixo do sol. Há alguma coisa de que se possa dizer: Vê, isto é novo? Não! Já foi nos séculos que foram antes de nós. (Eclesiastes 1:9-10)
O sábio Salomão descreve de forma realista a mesmice da vida e a raridade das coisas novas. Fruto da sua própria constatação de observador e conhecedor dos tempos e épocas. Em suma, muito do que surge sob a capa de novo nada mais é que uma re-edição maquiada de algo que já aconteceu no passado. É o caso também na área de religião.
Estamos assistindo hoje ao ressurgimento gigantesco de uma religião antagônica ao Cristianismo, que nada mais é que a espiritualidade do antigo paganismo. O paganismo pode ser entendido, do ponto de vista religioso, como a religião por excelência do antigo Império Romano. Muito mais que uma religião, porém, englobava uma cosmovisão, uma maneira de ver e entender a realidade, influenciada por vertentes da filosofia grega, pelas antigas religiões de mistério, a religião oficial grega, baseada nos deuses de Homero, e a própria religião romana do culto ao Imperador.
Historicamente, o paganismo como religião teve seu declínio com o advento e crescimento assombroso do Cristianismo a partir do século I, e posteriormente, séculos depois, com o domínio do racionalismo e a conseqüente secularização do estado. Curiosamente, em paralelo com esta secularização, ressurge nos dias de hoje das cinzas o velho paganismo, travestido de nova espiritualidade, crescendo e se alastrando em todos os círculos da sociedade ocidental moderna, inclusive na academia.
Esta nova edição da antiga espiritualidade pagã está presente na mídia, em todo lugar, e certamente atinge também a universidade através das idéias, dos professores, dos alunos. Por isto, como Universidade confessional, é preciso notar que existe uma diferença fundamental entre a espiritualidade pagã e o Cristianismo. Esta diferença reside na questão das distinções. Em resumo, a essência filosófica da espiritualidade pagã pode ser resumida na palavra monismo – teoria filosófica que a realidade consiste em um único elemento, que universo é uno e harmônico, e que todas as coisas são formas de uma única substância. Em outras palavras, a realidade deve ser vista como um todo uniforme, sem distinções de seres e de existências. Em contraste, o Cristianismo entende que existem distinções fundamentais na base da nossa existência e da realidade como um todo. Os cinco pontos abaixo ilustram esta diferença.
Deus e o Mundo
A nova espiritualidade, seguindo a antiga visão pagã, considera que Deus e o mundo são um. A melhor figura para ilustrar esta visão é a de um círculo, aliás o símbolo preferido da nova espiritualidade. Deus e o mundo estão dentro do mesmo círculo, têm níveis de existência iguais e um é a extensão do outro. Do ponto de vista da espiritualidade pagã, isto significa que tudo está unido em uma única realidade divina. O mundo criou-se a si próprio pela evolução. Possui uma força interior própria que o sustém e mantém sempre no processo de evolução. Não precisa de um Criador distinto. Temos um exemplo desta visão no filme Star Wars, quando Obi Wan Kenobi, o mestre Jedi, explica a Luke Skywalker o que é a força, usando a linguagem monista do antigo paganismo: “A força é um campo de energia criado por todas as coisas vivas: ela nos cerca, nos penetra; ela mantém a galáxia coesa... é todo-poderosa e controla todas as coisas”. Um outro exemplo do impacto da nova espiritualidade é o surgimento da ecologia radical, que se tornou uma religião para seus adeptos, divinizando, a seu modo, a terra e seus eco-sistemas.
O Cristianismo, em contraste, declara que Deus e o mundo são distintos. Estariam em círculos diferentes. Deus existe eternamente por Si só. Ele criou o mundo, não como uma extensão de Si mesmo, mas com existência à parte. Embora Deus esteja presente (imanência) ele é totalmente outro (transcendência). Assim, o Cristianismo reafirma a distinção que a nova espiritualidade procura negar.
Deus e a Humanidade
Para a espiritualidade pagã, a humanidade é uma com Deus. Este segundo princípio decorre naturalmente do primeiro. Se o todo é um e um é o todo, então a humanidade é uma parte de Deus, uma expressão da unidade divina. O homem, ou a totalidade das pessoas, é Deus. Não precisamos reverenciar algo além de nós mesmos. Não existe um Deus pessoal que se comunica através de verdade objetiva. Assim sendo, para a nova espiritualidade o ser humano é essencialmente bom, por ser um com Deus. E sendo deuses, não estamos debaixo de regras ou autoridade e podemos criar as nossas próprias leis, estabelecer nossos próprios valores. Podemos ainda também decidir nossa própria verdade e construir nossa própria versão da realidade. Neste ambiente, cada ego é uma fonte de verdade e, portanto, deve ser tolerado.
Para o Cristianismo, porém, só existe um Deus – e não somos Ele! O homem, embora tendo a imagem e semelhança de Deus, foi criado por Ele, não como uma extensão de Si próprio, mas como uma criatura com existência distinta e separada. A relação entre Deus e o homem, entre o Criador e a Criatura, é a de subordinação, o que implica respeito, obediência e adoração. Quem estabelece a verdade e as regras é o Criador e não a criatura. Na visão cristã, a distinção entre Deus e o homem é ainda acentuada pelo fato de que Deus, além de ter existência separada e distinta, é santo, puro e verdadeiro. O homem, em contraste, se encontra num estado de queda, desvio e abandono de Deus. Ele não é intrinsecamente bom, mas inclinado a todo mal.
As Religiões
A espiritualidade pagã considera que todas as religiões são, na verdade, uma só. Se toda a humanidade é na verdade uma só, então só existe uma religião, ao final. A espiritualidade pagã convida todas as religiões a entrarem no círculo e se tornarem uma. A unidade mística está no coração do paganismo. Todas as religiões compartilham da experiência mística. Os membros de todas as religiões ao redor do mundo chegarão à mesmaunio mystica com Deus, pela qual se tornam divinos. Deste ponto de vista, todas as religiões são as fatias de uma pizza, que se encontram no centro. Assim, a nova espiritualidade rejeita a distinção doutrinária que existe entre as grandes religiões do mundo e convoca todas à união mediante uma experiência mística com o Todo.
Já para o Cristianismo, deve ser feita uma distinção entre as duas únicas religiões que, na verdade, existem: aquela que oferece união com Deus mediante os esforços pessoais do indivíduo e aquela em que esta união é oferecida com base nos méritos de Outro. Na primeira, o homem sai no encalço de Deus; na segunda, Deus vem no encalço do homem. Numa, a salvação é pelas obras; noutra, pela graça somente. A primeira se manifesta sob a forma de muitas religiões diferentes, que, todavia, concordam nisto: o homem alcança a bem-aventurança com base em seus méritos. A segunda se manifesta somente no Cristianismo histórico, segundo o qual Jesus Cristo surge como o único e suficiente Salvador da condição humana.
O problema do Homem
Para a nova espiritualidade, só há um problema: as separações. À semelhança do antigo gnosticismo, a ressurgente espiritualidade pagã acredita que o nosso problema real é a falta de conhecimento de nós mesmos como parte da divindade e da existência. Conseqüentemente, temo-nos esquecido da nossa verdadeira natureza, acalmado a nós mesmos numa amnésia metafísica ou sono espiritual, pelas ilusões do mundo físico externo e palpável. Temos de rejeitar as distinções e separações. Só assim o mundo poderá se conscientizar da unidade mística de todas as coisas. Em linhas gerais, a espiritualidade pagã deseja abolir as várias separações, que considera a causa única dos problemas do homem, entre elas:
a. Deus/mundo
b. Deus/homem
c. Cristo/Diabo
d. Humanos/Animais
e. Certo/Errado
f. Bom/Mau
g. Homem/Mulher
Para o Cristianismo, o problema não são as separações acima, mas a Separação. Existe uma única separação que é a causa de todos os males, problemas, dores, angústias da humanidade, que é a separação moral e espiritual entre o homem e Deus. Esta separação é obviamente negada pelos adeptos da nova espiritualidade, que colocam o homem e Deus dentro do mesmo círculo. Para o Cristianismo, porém, esta separação é causada pela nossa inclinação ao mal, ao egoísmo, à crueldade, em contraste com a natureza de Deus, que é perfeito, justo, verdadeiro e coerente. Como resultado, separado do Criador, o homem existe às cegas, solitário, cheio de incertezas, angústias, culpa e apreensões, tendo como referencial a si próprio ou a natureza.
A Solução
A espiritualidade pagã, travestida de nova espiritualidade, prega que a solução está dentro de cada um de nós. Ela diz que o círculo se completa quando entramos dentro de nós mesmos. Nosso eu precisa assentar-se no centro das coisas. Isto se faz pela eliminação das distinções e dos controles racionais. A espiritualidade desejada não está na idéia, mas na experiência. Os hippies descobriram que as drogas ajudam nesta viagem de auto-descoberta. Muitas pessoas usam meditação para descobrir a conexão entre elas e o todo.
O Cristianismo, contrariamente, afirma que a solução está fora de nós. O homem é incapaz de achar em si mesmo os referenciais e as respostas que busca, pois está num estado de queda e separação de Deus. Por sua vez, Deus revelou-se em Cristo Jesus e propõe reconciliação com sua Criatura caída mediante o perdão gratuito dos seus pecados. A solução, portanto, é extra nos e não intra nos, como deseja o monismo pagão.
Conclusão
A comparação acima mostra a diferença radical entre a nova espiritualidade e o Cristianismo. Os cinco pontos abordados representam as questões fundamentais que as religiões discutem.
Lembremos que o Mackenzie, como Universidade confessional, não confessa uma religiosidade vaga, geral, como a nova espiritualidade. Confessa, sim, o Cristianismo. Lembremos ainda que, à diferença da nova espiritualidade, o Cristianismo nos dá as bases necessárias para a investigação e a pesquisa: racionalidade, distinções e uma visão objetiva de um mundo que existe além de nós, do qual não somos meras extensões.
Augustus Nicodemus Lopes
(*) Esta homilia foi inspirada na obra de Peter Jones sobre a ressurgência do paganismo antigo, publicada em português como A Ameaça Pagã, pela Casa Editora Presbite

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