segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Música quântica?
 Osvaldo Pessoa Jr.



O que seria uma música quântica?
Antes de explorarmos esta questão, vale relembrar que o termo “quântico”, hoje em dia, adquiriu um novo significado. Ele não designa apenas a física que descreve átomos, radiação e estrutura moleculares. Com a difusão do movimento cultural conhecido como “misticismo quântico”, ou “espiritualidade quântica”, que já exploramos em vários textos (veja aqui) , o termo passou a designar qualquer atitude mais mística, em que a espiritualidade individual é vista como se integrando de maneira holista (sem separações) com a espiritualidade mais global. Isso tem levado à valorização de técnicas de autoajuda baseadas no pensamento positivo, o que pode ser chamado de “idealismo”, pois a mente teria o poder de influenciar diretamente a realidade. Nesse novo sentido, “quântico” pode ser definido como um “misticismo holista idealista”.

Assim, se buscarmos na internet a expressão “som quântico”, encontraremos por exemplo o site do Pillai Center para a ciência da mente, que ensina que haveria frequências de sons quânticos, como o “Ah” e o “Ara Kara”, que “movem as energias criativas que se encontram no centro sexual para o centro localizado entre os olhos, a área da glândula pineal”, ou que “resgatam sons primordiais no Universo para criação e manifestação”. Na verdade, tal concepção mística não tem nada a ver com a física quântica, mas se entendermos “quântico” como sinônimo de misticismo holista idealista, então fica clara qual é a concepção do Dr. Pillai.

O termo “quântico” foi adotado pelas correntes místicas para atribuir a essas concepções filosóficas uma pretensa fundamentação científica. Sabemos que essa fundamentação é controvertida, e rejeitada pela maioria dos cientistas, que trabalham na ciência ortodoxa. É importante os espiritualistas quânticos reconhecerem que a questão é controvertida.

Cada um de nós é livre para desenvolver sua visão de mundo, mas quando chega o momento de decidir se vale à pena pagar uns R$32 para adquirir um CD com sons quânticos, sinto-me no dever de esclarecer que os possíveis benefícios dessa técnica meditativa não têm nada a ver com a física quântica. Mas se entendermos “quântico” como “misticismo holista idealista”, então chamar o som “Ah” de quântico deixa de ser um abuso de linguagem.

Deixando de lado, então, o misticismo quântico, vamos tentar imaginar o que poderia ser uma música quântica, que de alguma forma incorporasse aspectos do mundo dos átomos.

Em 1997, Gilberto Gil lançava seu CD “Quanta”, e a letra da canção de mesmo nome mencionava o quantum da física como um “Fragmento infinitésimo, quase que apenas mental”. O grande físico brasileiro Cesar Lattes, da Unicamp, comentou no encarte do CD: “O ‘infinitésimo’ é uma ficção matemática. Quantum é o mínimo de ação (energia x tempo). O Quantum de ação é mais real do que a maioria das grandezas físicas: seu valor não depende do movimento em relação ao observador.”

Em 2003, o músico Jaz Coleman, com a ajuda de seu irmão físico Piers Coleman, compôs a peça “Music of the Quantum”, sem letra, que procurava exprimir musicalmente uma metáfora da dualidade onda-partícula, com um violino representando o som contínuo de uma onda, e um acordeão sendo dedilhado como se o som fossem partículas. A peça também buscava representar a emergência de novas propriedades em sistemas coletivos, ou seja, a passagem de um comportamento simples para um complexo (como o que ocorre com elétrons que se tornam supercondutores):

http://www.emergentuniverse.org/#/music
Seria este um exemplo de música intrinsecamente quântica?

A música é transmitida por ondas sonoras. Por outro lado, a física quântica estabeleceu que toda matéria tem um aspecto de onda. Temos aí uma primeira analogia entre os dois campos.

Mas a teoria quântica afirma mais: na detecção de um objeto microscópico, ocorre transferência de uma quantidade discreta de energia, o quantum. Será que quando escutamos música nós a escutamos em unidades discretas? A sensação do som se baseia no movimento de minúsculos cabelinhos no ouvido interno, e este sinal é finalmente convertido em impulsos eletroquímicos no nervo coclear. Esses impulsos eletroquímicos são *discretizados (mas não na escala quântica), mas nós não percebemos essa discretização, de forma que a percepção que temos do som é basicamente contínua.

Isso sugere uma maneira de simular um som quântico: fazer com que o som seja escutado como notas discretas e bem definidas. Por exemplo, ao se tocar um acorde em um violão, as notas não seriam escutadas em conjunto, mas a cada momento uma única nota soaria. Isso talvez pareça com o som de um xilofone tocado rapidamente, mas sem que duas batidas soem simultaneamente.

Há na música moderna europeia (1949-55) o estilo do pontualismo, em que os tons são tocados um a um, em sucessão, sem a formação de estruturas de muitos tons. O pioneiro neste estilo foi Olivier Messiaen, cujo “Modo de valores e de intensidades” pode ser apreciado em:

http://www.youtube.com/watch?v=ME5laJctGCo
Na pintura, o análogo desse estilo “quantizado” de fazer arte seria o pontilhismo, exemplificado neste detalhe da obra “Parada de circo” (1889) de Georges Seurat (imagem ao lado)
Se a música quântica for apenas uma forma de pontualismo musical, então ela não parece ser muito excitante. Dois aspectos de sistemas quânticos poderiam ser incorporados para se tentar construir um estilo de música mais original: (a) a existência de observáveis incompatíveis, como posição e momento linear, ou frequência e tempo; (b) a existência de sistemas emaranhados, estabelecendo correlações especiais entre pares de notas. Mas não imagino como isso poderia criar um pontualismo mais interessante.
Sendo assim, só me resta atribuir um prêmio simbólico à peça que mais se aproxima do ideal de uma música quântica, dentre as que pude pesquisar na web. E o prêmio vai para... “A música quântica do hidrogênio”, uma criação do Akasha Project, composto pelo artista sonoro alemão Barnim Schultze, auxiliado por Hans Cousto, que se baseou no espectro de frequências do átomo de hidrogênio (que vimos no texto 61) para gerar notas musicais tocadas individualmente, sobre o fundo de uma “descrição acústica holista”.

Um vídeo dessa peça com belas imagens do artista Vigor Calma encontra-se em:

http://www.youtube.com/watch?v=iiCuzP9flzg
* Discretização é tornar discreto, ou seja, fazer algo contínuo aparecer em unidades discretas, indivisíveis, como os quanta, ou como os números digitais (0 e 1).

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