sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Reencarnação e ressurreição















Em comparação a um conceito como o "Mundo Vindouro", reencarnação não é, tecnicamente falando, uma verdadeira escatologia. A reencarnação é meramente um veículo para se atingir um fim escatológico. É a reentrada da alma num corpo inteiramente novo no mundo atual. A ressurreição, em contraste, é a reunificação da alma com o corpo anterior (recém reconstituído) no Mundo Vindouro, um mundo que a história ainda não testemunhou.

A ressurreição é assim um conceito puramente escatológico. Seu objetivo é recompensar o corpo com a eternidade e a alma com perfeição mais elevada. O propósito da reencarnação geralmente é duplo: compensar uma falha na existência prévia ou criar um estado de perfeição pessoal novo, mais elevado, ainda não atingido. Assim, a ressurreição é um tempo de recompensa; a reencarnação um tempo de reparar. A ressurreição é um tempo de colher; a reencarnação um tempo de semear.

O fato de que a reencarnação seja parte da tradição judaica é surpresa para muita gente. Apesar disso, é mencionada em numerosos locais em todos os textos clássicos do misticismo judaico, começando com a preeminente obra da Cabalá, o Zohar.

Se alguém é mal sucedido no seu propósito neste mundo, o Eterno, Bendito seja, o desenraiza e planta mais e mais vezes. (Zohar I 186b)

Todas as almas estão sujeitas à reencarnação, e as pessoas não conhecem os caminhos do Eterno, Bendito seja! Eles não sabem que são trazidos perante o Tribunal, antes de entrar neste mundo e depois de tê-lo deixado; são ignorantes das muitas reencarnações e obras secretas que têm de passar, e do número de almas nuas, e quantos espíritos nus vagam no outro mundo, incapazes de entrar no véu do Palácio do Rei. Os homens não sabem como as almas se revolvem como uma pedra atirada de um estilingue. Mas está aproximando-se a época a em que estes mistérios serão revelados. (Zohar II 99b)

O Zohar e a literatura paralela estão repletos de referências à reencarnação, tocando em questões como: qual corpo ressuscitará e o que acontece com aqueles corpos que não atingem a perfeição definitiva; quantas chances uma alma recebe de atingir a perfeição por meio da reencarnação; se um marido e mulher podem reencarnar juntos; se a demora no sepultamento pode afetar a reencarnação; e se uma alma pode reencarnar em um animal.

A reencarnação é mencionada pelos comentaristas bíblicos clássicos, incluindo o Ramban (Nachmânides), Menachem Recanti e Rabeinu Bachya. Entre os diversos volumes de Rabi Yitschac Luria, conhecido como o "Ari", dos quais a maioria nos chega através da pena de seu principal discípulo, Rabi Chayim Vital, são profundos discernimentos relacionados à reencarnação. De fato, seu Shaar HaGilgulim, "Os Portões da Reencarnação", é um livro dedicado exclusivamente ao tema, incluindo detalhes a respeito das raízes da alma de muitas personalidades bíblicas e em quem eles reencarnaram, desde os tempos da Bíblia até o Ari.

Os ensinamentos do Ari e os sistemas de ver o mundo espalharam-se como fogo após sua morte, em todo o mundo judaico na Europa e no Oriente Médio. Se a reencarnação tinha sido geralmente aceita pelo povo judeu e pela Inteligentsia anteriormente, tornou-se parte do tecido do idioma e estudos judaicos depois do Ari, fazendo parte do pensamento e dos escritos de grandes eruditos e líderes, desde os comentaristas clássicos sobre o Talmud (por exemplo, o Maharsha, Rabi Moshe Eidels), até o fundador do Movimento Chassídico, o Báal Shem Tov.




A ressurreição é um tempo de recompensa;
a reencarnação um tempo de reparar. A ressurreição é um tempo de colher; a reencarnação um tempo de semear.


Muitos ficam igualmente surpresos ao descobrir que a reencarnação era uma crença aceita por numerosos das mentes notáveis nas quais se baseia a civilização Ocidental. Embora o Judaísmo, obviamente, não concorde necessariamente com todas suas idéias e filosofias, mesmo assim Platão, por exemplo, (em Meno, Fedo, Timeus, Fedro e a República), partilha a crença na doutrina da reencarnação. Ele parece ter sido influenciado pelas primeiras mentes clássicas gregas, como Pitágoras e Empédocles. No século Dezoito, na Era do Iluminismo e Racionalismo, pensadores como Voltaire ("Afinal, não é mais surpreendente nascer duas vezes que nascer uma vez") e Benjamim Franklyn expressaram uma afinidade pela noção da reencarnação. No século Dezenove, Schopenhauer escreveu (Parerga e Paralipomena), "Se um asiático me pedisse uma definição de Europa, eu seria forçado a responder-lhe: É aquela parte do mundo que é assombrada pela incrível ilusão de que o presente nascimento da pessoa é sua primeira entrada na vida…" Dostoievski (em Os Irmãos Karamazov) refere-se à idéia, ao passo que Tolstoi parece ter sido categórico em afirmar que tinha vivido antes. Thoreau, Emerson, Walt Whitman, Mark Twain e muitos outros reconheceram e/ou partilharam alguma forma de crença na reencarnação. Deve-se registrar, no entanto, que algumas clássicas autoridades da Torá, mais especificamente, a autoridade do Século Dez, Saadia Gaon, negaram a reencarnação como dogma judaico. Emunot V'Deyot 6:3.

O Talmud relata que o sábio do segundo século, Rabi Shimon bar Yochai e seu filho Elazar se refugiaram numa caverna para escapar à perseguição romana. Durante os treze anos que se seguiram, eles estudaram noite e dia, sem distração. Segundo a tradição cabalista (Ticunei Zohar 1a) foi durante estes treze anos que ele e seu filho primeiro compuseram os principais ensinamentos do Zohar. Oculto por muitos séculos, o Zohar foi publicado e disseminado por Rabi Moshe de Leon, no Século Treze.

Embora o Zohar seja geralmente considerado uma obra de um único volume, compreendendo o Zohar, Tikunei Zohar e Zohar Chadash, na verdade é uma compilação de diversos pequenos tratados ou sub-seções. Segue abaixo apenas alguns deles.

O Zohar (I 131a): "Rabi Yossi respondeu: 'Aqueles corpos que não são merecedores e não atingiram seu propósito, serão considerados como não tendo sido… ‘ Rabi Yitschac [discordou e] disse: ‘Para estes corpos o Eterno providenciará outros espíritos, e se forem considerados merecedores, eles obterão uma morada no mundo; caso contrário, eles serão cinzas sob os pés dos justos.’ Cf Zohar II 105b.

O Zohar III 216a; Ticunei Zohar 6 (22b), 32 (76b) sugerem três ou quatro chances. Ticunei Zohar 69 (103a) sugere que mesmo que seja feito um pequeno progresso a cada vez, a alma recebe mil oportunidades de reencarnação para atingir sua plenitude. Zohar III 216a sugere que uma pessoa essencialmente justa que passa pela provação de perambular de cidade em cidade, de casa em casa – até para tentar vender pela insistência (Zohar Chadash Ticunim 107a) – é como se ele passasse por muitas reencarnações.

Depois que a alma deixou o corpo e o corpo permanece sem vida, é proibido deixá-lo insepulto (Moed Katon, 28a; Baba Kama, 82b). Pois um corpo morto que é deixado insepulto por 24 horas causa uma fraqueza nos membros do Chariot e impede que o desígnio de D’us seja cumprido; pois talvez D’us tenha decretado que ele deveria passar pela reencarnação imediatamente, no dia em que morreu, o que seria melhor para ele, mas como o corpo não foi enterrado, a alma não pode ir até a presença do Eterno, nem ser transferida para outro corpo. Pois uma alma não pode entrar num segundo corpo até que o primeiro seja sepultado…" Zohar III 88b.

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