quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Espiritualidade


Espiritualidade? O Que é isto?



A busca da espiritualidade deve nos ajudar a ser cada vez
 mais livres da matéria e senhores do nossos instintos.
Uma das palavras mais usadas nestes últimos 
tempos é espiritualidade, porque nos faz muita falta para o
 equilíbrio de nossa vida. Dizem os psicólogos que quando 
se fala muito de uma coisa é porque não a possuímos e 
portanto somos carentes do que falamos. Não sei se esta teoria
 está certa, não é minha especialidade. O que posso dizer é 
que a espiritualidade não é uma teoria que preenche o coração
 de ninguém. Para que a espiritualidade se torne algo de pessoal
 e de amado deve sair do papel e do campo das idéias e se fazer 
vida. Somente quem vive olhando para o alto, não se
 deixando escravizar pelas coisas da terra pode lentamente 
tornar-se uma pessoa espiritual. Devemos evitar o espiritualismo 
que nos impede de compreender que a ação é o caminho
 certo de toda forma de espiritualidade.
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Se um dia você tiver a oportunidade de visitar uma
 livraria do aeroporto ou rodoviária ou qualquer outra livraria 
você fica espantado em ver tantos livros que são denominados
 de espiritualidade, mas que na verdade não passam de
 pequenas e às vezes insignificantes orientações emocionais 
e psicológicas que não atingem o verdadeiro sentido da vida.
 No respeito para todos estes autores que fazem um bem imenso 
aos que lêem, discordo de tudo isto porque me parece que não
 pode existir uma autêntica espiritualidade sem uma 
referência explícita a determinados valores fundamentais 
como a defesa da vida, da paz, dos direitos humanos.
A busca da espiritualidade não pode prejudicar a ninguém, mas 
deve nos ajudar a ser cada vez mais livres da matéria e senhores 
do nossos instintos. Verdadeira espiritualidade é fruto de uma
 luta corajosa, forte, onde ficamos feridos, arranhados e
 sangrando mas não desistimos da luta. Um dos textos que mais 
me ajudam como aprender a verdadeira e autêntica espiritualidade
 é a carta de São Paulo aos gálatas. Ele nos recorda a beleza da 
nossa vocação, deste caminho espiritual que devemos percorrer
 e que devemos sempre ter presente na vida. ‘fostes chamados
 para a liberdade”. Somente quem busca a autêntica liberdade
 se aventura no caminho espiritual.
A liberdade não é como normalmente se entende dentro da
 linguagem das pessoas no dia a dia. Livre é quem faz o que 
quer e como bem entende. Há muitos autores que dizem:
 “tenho o direito de ser feliz e de buscar a minha felicidade 
e realização, portanto até que não encontre vou buscando,
 não importa se isto me faz romper os laços da família, do amor, 
dos compromissos do matrimônio ou do relacionamento familiar, 
o que vale é a minha felicidade.” Na verdade nunca seremos 
felizes se nos deixarmos dominar pelo egoísmo que está em
 nós. A liberdade é um sonho duro a ser conquistado e 
que vai exigindo muito de nós. Esta liberdade nos leva à
 verdadeira espiritualidade do amor. Mais reflito sobre o 
amor e menos sei, e no entanto me parece que com os anos 
que vão chegando o compreendo mais. Mesmo quem sabe 
porque a memória dos fracassos me faz ver em outra perspectiva
 o mesmo amor que devo conquistar.
Perceber a necessidade do amor para viver uma dimensão
 de vida que não pode ser “espiritualização” de nada, mas sim 
somente espiritualidade autêntica e vital. Será o mesmo Paulo 
que vai apresentando uma lista interminável de frutos da carne. 
São 15 nomeados e outros que ele não nomeia. E todos são
 causas de perturbações que nos afastam do valor fundamental 
da vida. Há quem acha que viver a feitiçaria ou espiritualismo 
é espiritualidade, ou quem vive até rancores e domínio dos 
outros… Pensa que para dominar os demais se necessite 
de uma forte espiritualidade. Não há dúvida que são visões
 distorcidas da verdadeira e autêntica espiritualidade. Não 
podemos confundir a espiritualidade no sentido católico do 
termo, esta não pode ter outro alicerce a não ser Cristo Jesus.
Existem várias espiritualidades: budista, muçulmana,

 hinduista, judaica… são janelas pelas quais as pessoas vêem 
a vida. Mas nós queremos ver a vida pela janela do evangelho
 e do coração de Deus, por isso o único alicerce de 
toda a espiritualidade é a palavra de Deus que nos alimenta 
em cada momento.
Paulo diz que os que vivem os frutos da carne não podem
 entrar no reino de Deus. Não é necessário termos todos os
 frutos da carne, é suficiente ter um que nos domine, para não
 termos acesso à mesma vivência do reino. Um fruto influencia 
toda a nossa vida e nos escraviza. Os frutos do Espírito, que 
são o sinal do autocontrole e do senhorio de nós mesmos, 
nos fazem entrar na verdadeira liberdade. Quais são estes
 frutos do Espírito?
Os frutos do espírito são: caridade, alegria, paz, 

longanimidade, afabilidade, bondade, fidelidade, 
mansidão, continência. Contra estes não há Lei.(Gl 5, 22-23)
Aqueles que vivem estes frutos do espírito não tem mais lei
 porque são orientados pelo amor e quem ama sabe que
 jamais poderá fazer o mal nem a si mesmo e nem aos outros.
 São João da Cruz, na sua visão de liberdade e de plenitude da 
vida, ensina que quem chega no cimo do monte encontra somente
 a honra e a glória de Deus, e que para o justo não há lei…O justo 
tem uma única lei que o orienta, o amor. Este não lhe permite 
mais ser escravo de nada e de ninguém.
O caminho da verdadeira espiritualidade é um processo de
 libertação interior onde tudo está debaixo do poder 
da nossa liberdade e que nada mais poderá nos impedir de
 sermos livres no nosso agir. Na espiritualidade então 
percebemos que é necessário superar as ideologias mágicas
 que não realizam nada em nós. Por exemplo, a espiritualidade
 dos perfumes, das cores, do incenso queimado ou das novenas 
feitas somente pelo intuito de receber a graça e nada mais. 
São espiritualidades vazias e sem fundamento. É preciso 
que o Espírito encontre em nós uma resposta e se faça carne. 
Deus nos dá um espaço de tempo para viver a nossa 
espiritualidade e somente neste espaço de vida que somos 
chamados a realizar o seu projeto de amor. Não há
 nada de reencarnação e de caminhos de volta para nos
 purificar e chegar assim “à iluminação”. É aqui e agora que a nossa
 vida deve se realizar. Não há outras vidas e nem outra
 existência a não ser a vida eterna que se conquista no dia a dia duro e difícil do nosso carregar a cruz, e na luta sem trégua contra o mal que está dentro e fora de nós.
Mas afinal o que é espiritualidade? É um estilo de vida pautado pelo evangelho que visa a imitar a pessoa de Jesus. Seremos espirituais quando pudermos dizer com sinceridade com Paulo apóstolo: “não sou mais eu que vivo mas é Cristo que vive em mim.”
Frei Patrício Sciadini, ocd.

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