sábado, 11 de abril de 2015

Bom seria viver entre os animais.


Foto de: Kevin Richardson nada com uma leoa: cumplicidade

Enéas Martim Canhadas

Queria encontrar um amigo que fosse igualzinho a um cão. Não na aparência, mas de coração, isto é, por dentro. Sempre bem disposto, sem nunca ter preguiça de levantar-se para vir me cumprimentar. Mesmo quando não estivesse bem com um mal estar qualquer, mesmo que o calor do meio dia estivesse a estourar os seus miolos. Quando convidado para dar uma volta junto comigo, estaria pronto e saltitante, como quando saímos a caminhar pela primeira vez. Se lhe confiasse um segredo, seria meu cúmplice para sempre. Se me zangasse com ele, apenas baixaria a cabeça, pondo o rabo entre as pernas ou mostrar-se-ia humilde de verdade, indo recolher-se a um canto, esperando que a minha raiva se aquietasse. Se em seguida, insinuasse brincar com ele e dar-lhe atenção, pularia no meu peito e abanando o rabo ou vibrando de alegria sincera, me diria que fui e serei sempre perdoado.

Gostaria que o meu vizinho fosse como a tartaruga que, sem emitir sons, na sua calma infinita vai levando a vida. Se, por acaso ou infelicidade, piso em seu casco, ela agüenta firme, e faz de conta que foi sem querer. Nunca teve uma atitude agressiva nem de precipitação. Na maior calma, inofensiva e tranqüila, pode passar todos os dias em frente a minha casa, sem implicar comigo, sem me fazer perguntas que eu não gosto de responder, nem naquela hora e nem em qualquer outra hora das nossas vidas de vizinhos e, muito menos seria capaz de intrometer-se na minha vida, me dizendo o que devo fazer.

Vivo a procura de um empregado que seja tão obsessivo como a formiga. Além de trabalhar incansavelmente, meticulosamente, cuidadosa e respeitosamente, consegue fazer muito mais do que seu tamanho e sua aparente força podem prometer. Cumprimenta todos os colegas, não esquece as suas tarefas e as faz com o mesmo esmero todos os dias. Brincar em serviço, nem pensar! É capaz de trabalhar todos os dias, como se fosse sempre um dia inteiramente útil. Além de tudo, possuir também uma das suas maiores virtudes, a organização!

Seria o mais feliz dos homens se a minha esposa fosse como a leoa. Além de cuidar da nossa casa, amamentar os filhos e ensinar-lhes desde os bons modos, educa-os em todos os aspectos não esquecendo nenhum detalhe do seu desenvolvimento. Logo logo, na adolescência dos nossos filhos, daria as lições certas e oportunas de como trabalhar para ajudar os pais. Que bom seria! Mas o melhor desta expectativa, ainda estaria por vir, quando depois de um belo sono de descanso embaixo da sombra de uma árvore frondosa, acordando faminto, ela surgisse trazendo para mim o mais farto dos almoços. Depois disso tudo, só mesmo, me fazendo carinhos e cofiando a minha cabeleira.

Fico pensando e desejando que o meu chefe fosse como o touro, apesar dos seus grandes e poderosos chifres, raramente faz uso deles, preferindo ruminar longamente os problemas para depois emitir o seu mugido longo e apaziguador. Previsível e paciente, ele seria inspirador de calma e do dever, sempre feito dentro dos conformes previamente estabelecidos. Forte para agüentar as pressões, de modo que, os seus subordinados, nunca sejam duramente castigados, além de manter um olhar complacente que parece compreender muito mais do que está enxergando.

Mas pondo-me a meditar, quando coloco o miolo de pão sobre o muro para que os pássaros venham logo buscar o seu bocado, descubro que existem também os pardais. A quem os compararei. Tudo é obra divina, mas vou deixar para lá qualquer comparação porque não convém a esta crônica. Mas existem certas pessoas que parecem existir em todos os cantos do mundo, sempre vestidas do mesmo jeito, emitindo sons e fazendo algazarras parecidas, fazendo as coisas semelhantes e causando problemas semelhantes também.

Nervosa e agitadamente bicam aqui e ali, palpitam e ousam a invadir nossa intimidade tanto moral quando física e, embora possam prestar algum serviço à comunidade, têm uma vida muito curta para serem necessários e muito longa para que não desse tempo de que desejássemos que desaparecessem!

E, pensando bem, gostaria que meus inimigos fossem como as borboletas, pois que desfilando o seu orgulho logo que saem da fase lagarta, rapidamente se vão para ali, adiante e acolá, vivendo no máximo, por um dia ou pouco mais.

Bem, como ser humano, talvez tivesse para cada animal um destino comparativo, e sem dúvidas teria nos bichos muito mais qualidades e aplicações para que a nossa vida humana fosse harmoniosa e pudesse acontecer em paz.

Mas, de repente, caio na realidade novamente e me vejo cercado dos seres humanos e como eles são. O que posso fazer é pedir a Deus para que tudo que pensei a respeito dos animais, não chegue aos ouvidos dos homens, porque senão é possível que eles virem bichos e eu tenha que fugir rápido como um coelho, e tenha que entrar no buraco mais próximo para, muito provavelmente, dar de cara com outro bicho!

MORAL DA HISTÓRIA: Compreender a criação de Deus que, “olhando para todas as coisas que fizera , viu que era muito bom e assim houve tarde e manhã ao fim do sexto dia.”

Gênesis, capítulo 1, vers. 31

04/12/2003

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