quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Luz e trevas no caminho da igualdade racial

Luz e trevas no caminho da igualdade racial



A história tem sido escrita com fios de luz e sombras, através de avanços e retrocessos. Crises e vitórias têm marcado seguidamente o tortuoso caminho e com a questão do reconhecimento da igualdade racial não tem sido diferente. O Brasil, país com a maior população afro-descendente vivendo fora do continente africano, ainda experimenta os horrores da discriminação racial, apesar de recentes avanços, em especial no campo da legislação.
Dentre os avanços mais destacados pode-se ressaltar a aprovação da lei 10.639/2003 que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, incluindo a obrigatoriedade do estudo da história e cultura afro-brasileira nos currículos escolares; a lei 12.288/2010 que aprovou o Estatuto da Igualdade Racial, a Lei 12.711/2012 que garante a reserva de até 50% das vagas disponíveis nas universidades e institutos federais para alunos egressos de escola pública, com população grandemente formada por afro-descendentes e indígenas, são alguns exemplos marcantes de avanços históricos. Outros importantes passos estão por vir, tal como a Lei que garantirá cotas no Serviço Público Federal, com o concomitante incentivo para que o Setor Privado emule tal decisão, numa mostra dos intrincados caminhos a serem percorridos e das destrezas e habilidades a serem desenvolvidas para se superar os males do racismo.
Hoje, quando celebramos o dia da Consciência Negra, talvez a clássica analogia da caverna escrita por Platão nos tempos idos, nos ajude a colocar em perspectiva o longo e tortuoso caminho já trilhado e o por vir no avanço da questão racial.
Houve, assim, um tempo em que tudo era escuridão. Não havia consciência e, portanto, não era de se preocupar com quaisquer disparidades raciais. A idéia de que existiam povos inferiores e que alguns nasciam para serem escravos era algo corrente e visto com naturalidade. À medida, entretanto, que as primeiras frestas de luz passaram a iluminar a realidade, emergiram os primeiros incômodos e questionamentos. No início, apenas alguns se deram conta da desordem. A maioria, entretanto, acostumada à divisão da sociedade em castas, em classes e com base na origem ou cor da pele, continuava a achar tudo muito natural. O pó dos preconceitos acumulados sobre os papeis a serem desempenhados por cada um em mundo estranhamente desordenado encobria a consciência coletiva. Somente à medida que mais e mais luz foi ocupando o espaço e literalmente expulsando a escuridão é que o incomodo coletivo de uma desordem acumulada ao longo dos séculos e gerações, caracterizados pelo pensamento e ideologia da superioridade de uma classe, de uma raça, de nacionalidade ou de crença – foi gradualmente se desintegrando. Os primeiros albores matinais de um novo tempo já rompe com grande parte da bruma ainda pairando no ar, mas dissipando-se por sua própria inconsistência frente aos novos padrões de uma era de direitos e de igualdade.
Bahá’u’lláh, o Manifestante da era da maturidade da humanidade, certa vez comparou a pessoa de cor negra à pupila preta do olho circundada pelo branco. “Nessa pupila preta”, disse, “se vê o reflexo daquilo que está à sua frente e, através dela, a luz do espírito se irradia”. Afirmou que “todas as raças tem uma contribuição especial e única a fazer na construção de uma nova ordem mundial, na qual todos têm seu próprio papel a desempenhar e a dádiva de suas próprias qualidades e talentos a contribuir para o todo”. É possível que uma das muitas contribuições especiais dos negros à Nova Ordem seja esta sua capacidade de perceber aguçadamente a realidade, justamente onde outros têm maior dificuldade de percepção.  A pupila negra do olho é a fonte de luz e é aquela que revela o mundo contingente.
O longo e continuado sofrimento – seja o dos porões dos navios negreiros, das senzalas e das noites de açoites sem fim, das marcas de ferro em brasa, do calor das labaredas e borbotões dos engenhos de cana de açúcar, dos pelourinhos ou dos atuais quilombos urbanos – tal qual o fogo que prova o ouro, talvez tenha feito desenvolver essa qualidade e capacidade especial de poder ver e perceber a realidade de modo transparente e cristalino; possivelmente preparando essa população para a aplicação de justiça num mundo tão carente dessa virtude essencial. Não é de se estranhar, pois, ver alguns breves clarões dessa qualidade e contribuição especial nas recentes decisões da justiça brasileira, no longo processo de se purgar a sociedade de males por longo tempo incrustados nas paredes da história. Assegurar que um maior número de negros tenha acesso à educação e ao ensino superior, seguramente abrirá espaços para se galgar novos patamares na aplicação e disseminação da justiça social.
O mundo continua a ser governado pela força e as consequências desastrosas disso estão visíveis em toda parte e patente na opressão experimentada por grandes segmentos da raça humana e nas disparidades sociais vigentes. Mudanças nas leis e nos pensamentos estão ocorrendo, embora lentamente. Celebrar Zumbi dos Palmares é também recordar uma constelação de outros importantes nomes que labutaram e deram suas vidas na batalha contra a discriminação e a favor da igualdade e unidade racial. Os passos dados no passado, sobre cujas pegadas agora caminhamos, apontam uma clara direção em relação ao futuro: o da unidade e  igualdade racial!  O dia da Consciência Negra, longe de ser apenas uma celebração das vastas contribuições de nossa herança africana ou recordatório das dificuldades passadas, é, sobretudo, momento de afirmação do ideal da plena igualdade, num mundo onde todas as raças venham a se associar proporcionando uma combinação de harmonia e beleza de cor ao grande jardim humano.
O racismo é um dos males sociais mais funestos e dos mais persistentes e continua fazendo suas vítimas – sejam de brancos, negros ou índios. De um lado, segue-se impedindo aqueles de pele mais escura de manifestar plenamente suas capacidades e potencial; enquanto, de outro lado, impede a inteira comunidade de se beneficiar das múltiplas contribuições e das potencialidades ilimitadas de suas próprias vítimas.
Os Drs. May Khadem Czerniejewski e Richard Czerniejewski, oftalmologistas, ao comentar a analogia feita por Bahá’u’lláh, indicaram que a pupila do olho é um portal que admite e regula o fluxo de luz para a retina. Sem esta passagem, nenhuma imagem é percebida. Junto à retina, nossa consciência está intimamente em contacto com realidade física, uma vez que as células do cérebro em sí mesmas “fluem até a retina” para receber informação através da iluminação modulada pela pupila.
A pupila tem a dupla função de reunir e modular a luz. Luz, que é a reunião todas as cores e é composta por todas as cores, ilumina a realidade física, mas ao mesmo tempo sua intensidade pode destruir as delicadas estruturas do olho. Quando os níveis de iluminação são elevados, ela se contrai para proteger a retina de uma exposição intensa e quase sempre danosa. Considerando que a visão é descrita como nossa habilidade sensorial mais preciosa, podemos dizer que a pupila ajuda a proteger esta preciosa dádiva. De outro lado, quando existe muito pouca iluminação, a pupila admite mais luz através de sua própria dilatação, permitindo desta forma a visão mesmo em lugares muito escuros.
A aparência preta da pupila é, pois, enganadora. A pupila aparenta-se preta somente até o interior do olho ser iluminado; ela então se torna radiante, cheia com um calor, um brilho laranja-avermelhado. Com este reflexo desde o interior do olho, a pupila se torna, ela mesma, a fonte de iluminação.
A capacidade de contribuição para a justiça, para o avanço social, para uma maior compreensão da realidade depende da permanente inclusão do negro, do índio e de outras etnias no círculo de unidade, não se deixando ninguém por fora, como no círculo dos excluídos. Qualquer exclusão com base no racismo constitui-se num sério impedimento à paz social, não podendo ser tolerada sob pretexto algum.
As trevas da ignorância humana precisam ser dissipadas. As pedras e armadilhas do caminho precisam ser removidas. O passado já foi escrito. O futuro está sendo escrito agora por aquilo que fazemos ou deixamos de fazer. O racismo é retrocesso e representa uma anomalia e a desintegração social.  A unidade da diversidade humana e a inclusão de todas as raças num mesmo círculo de cooperação e camaradagem, em reconciliação e apreço mútuo precisam ser agora alcançadas, aproveitando-se mutuamente das contribuições únicas que cada povo tem a fazer à construção de uma nova Ordem mundial, a uma humanidade que luta para adentrar à sua longamente esperada etapa de maturidade coletiva, na qual  – tal como proclamado por Bahá’u’lláh, todos os povos sejam visto como membros de uma família global e a terra como uma pátria comum.
Gabriel Marques
Publicitário, escritor, membro da ALARA – Afro Latin American Research Association, membro da ANAI – Associação Nacional de Apoio ao Índio e Comunidade Bahá’í do Brasil.

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