terça-feira, 6 de junho de 2017

Os Tempos são Chegados





Autor: Allan Kardec. Revista Espírita, outubro de 1866

A Humanidade realizou, até este dia. 
incontestáveis progressos; os homens, 
por sua inteligência, chegaram a 
resultados que jamais tinham atingido 
com relação às ciências, às artes e ao 
bem-estar material; resta-lhes, ainda, 
um imenso progresso a realizar: é o de 
fazer reinar entre eles a caridade, a 
fraternidade e a solidariedade, para 
assegurar o seu bem-estar moral. Não o 
podiam nem com suas crenças, nem com 
suas instituições antiquadas, restos 
de uma outra época, boas em uma certa 
época, suficientes para um estado 
transitório, mas que, tendo dado o que 
elas comportam, seriam um atraso hoje. 
Tal uma criança é estimulada por 
móveis, impotentes quando vem a idade 
madura. Não é mais somente o 
desenvolvimento da inteligência que é 
necessário aos homens, é a elevação do 
sentimento, e para isto é preciso 
destruir tudo o que poderia 
superexcitar neles o egoísmo e o 
orgulho. 
Tal é o período onde vão entrar 
doravante, e que marcará as fases 
principais da Humanidade. Esta fase 
que se elabora neste momento, é o 
complemento necessário do estado 
precedente, como a idade viril é o 
complemento da juventude; ela podia, 
pois, ser prevista e predita 
antecipadamente, e é por isto que se 
diz que os tempos marcados por Deus 
são chegados. 
Neste tempo, não se trata de uma 
mudança parcial, de uma renovação 
limitada a uma região, a um povo, a 
uma raça; é um movimento universal que 
se opera no sentido do progresso 
moral. Uma nova ordem de coisas tende 
a se estabelecer, e os homens que lhe 
são os mais opostos nela trabalham com 
o seu desconhecimento; a geração 
futura, desembaraçada das escórias do 
velho mundo e formada de elementos 
mais depurados, achar-se-á animada de 
idéias e de sentimentos diferentes da 
geração presente que se vai a passos 
de gigante. O velho mundo estará 
morto, e viverá na história, como hoje 
os tempos da Idade Média, com seus 
costumes bárbaros e suas crenças 
supersticiosas. 
De resto, cada um sabe que a ordem das 
coisas atuais deixa a desejar; depois 
de ver, de alguma sorte, esgotar o 
bem-estar material, que é o produto da 
inteligência, chega-se a compreender 
que o complemento desse bem-estar não 
pode estar senão no desenvolvimento 
moral. Quanto mais se avança, mais se 
sente o que falta, sem, no entanto, 
poder ainda defini-lo claramente: é o 
efeito do trabalho intimo que se opera 
para a regeneração; têm-se desejos, 
aspirações que são como o 
pressentimento de um estado melhor. 
Mas uma mudança tão radical, quanto a 
que se elabora, não pode se realizar 
sem comoção; a luta inevitável entre 
as idéias, e quem diz luta, diz 
alternativa de sucesso e de revés; no 
entanto, como as idéias novas são as 
do progresso, e que o progresso está 
nas leis da Natureza, elas não podem 
deixar de se impor sobre as idéias 
retrógradas. Forçosamente, desse 
conflito, surgirão as perturbações 
temporárias, até que o terreno seja 
desobstruído dos obstáculos que se 
opõem ao estabelecimento de um novo 
edifício social. Da luta das idéias é 
que surgirão os graves acontecimentos 
anunciados, e não cataclismos, ou 
catástrofes puramente materiais. Os 
cataclismos gerais eram a conseqüência 
do estado de formação da Terra; hoje, 
não são mais as entranhas do globo que 
se agitam, são as da Humanidade. 
A Humanidade é um ser coletivo em que 
se operam as mesmas revoluções morais 
que em cada ser individual, com esta 
diferença de que umas se cumprem de 
ano em ano, e as outras de século em 
século. Que sejam acompanhadas, em 
suas evoluções através do tempo, e 
ver-se-á a vida das diversas raças 
marcadas por períodos que dão a cada 
época uma fisionomia particular. 
Ao lado dos movimentos parciais, há um 
movimento geral que dá o impulso à 
Humanidade inteira; mas o progresso de 
cada parte do conjunto é relativo ao 
seu grau de adiantamento. Tal será uma 
família composta de vários filhos dos 
quais o mais jovem está no berço e o 
primogênito com a idade de dez anos, 
por exemplo. Em dez anos, o 
primogênito terá vinte anos e será um 
homem; o mais jovem terá dez anos e, 
embora mais avançado, será ainda uma 
criança; mas, a seu turno, tornar-se-á 
um homem. Assim é com as diferentes 
frações da Humanidade; os mais 
atrasados avançam, mas não saberão, de 
um pulo, alcançar o nível dos mais 
avançados. 
A Humanidade, tornada adulta, tem 
novas necessidades, aspirações mais 
largas, mais elevadas; compreende o 
vazio das idéias das quais foi 
embalada, a insuficiência de suas 
instituições para a sua felicidade; 
ela não encontra mais, no estado das 
coisas, as satisfações legitimas para 
as quais se sente chamada; por isso 
ela sacode coeiros, e se lança 
impelida por uma força irresistível, 
para as margens desconhecidas, para 
descoberta de novos horizontes menos 
limitados. E é no momento em que ela 
se encontra muito pobremente em sua 
esfera material, onde a vida 
intelectual transborda, onde o 
sentimento da espiritualidade 
desabrocha, quantos homens, pretensos 
filósofos, esperam encher o vazio por 
doutrinas do niilismo e do 
materialismo! Estranha aberração! 
Esses mesmos homens que pretendem 
impeli-la para a frente, se esforçam 
por circunscrevê-la no circulo 
estreito da matéria; de onde ela 
aspira sair; e lhe fecham o aspecto da 
vida infinita, e lhe dizem, em lhe 
mostrando o túmulo: Nec plus ultra! 

A fraternidade deve ser a pedra 
angular da nova ordem social; mas não 
há fraternidade real, sólida e efetiva 
se não estiver apoiada sobre uma base 
inabalável; essa base é a fé; não a fé 
de tais ou tais dogmas particulares 
que mudam com o tempo e os povos e se 
lançam pedras, porque, anatematizando-
se, entretêm o antagonismo; mas a fé 
nos princípios fundamentais que todo o 
mundo pode aceitar Deus, a a/ma, o 
futuro, O PROGRESSO INDIVIDUAL, 
INDEFINIDO, A PERPETUIDADE DAS 
RELAÇÕES ENTRE OS SERES. Quando todos 
os homens estiverem convencidos de que 
Deus é o mesmo para todos, que esse 
Deus, soberanamente justo e bom, nada 
pode querer de injusto, que o mal vem 
dos homens e não dele, se olharão como 
filhos de um mesmo pai e se estenderão 
a mão. É esta fé que o Espiritismo dá, 
e que será doravante o pivô sobre o 
qual se moverá o gênero humano, 
quaisquer que sejam suas maneiras de 
adorá-lo e suas crenças particulares, 
que o Espiritismo respeita, mas da 
qual não tem que se ocupar. Só dessa 
fé pode sair o verdadeiro progresso 
moral, porque só ela dá uma sanção 
lógica aos direitos legítimos e aos 
deveres; sem ela, o direito é aquele 
que dá a força; o dever, um código 
humano imposto pelo constrangimento. 
Sem ela, o que é o homem? um pouco de 
matéria que se desfaz, um ser efêmero 
que não faz senso passar; o próprio 
gênio o uma centelha que brilha um 
instante para se apagar para sempre; 
certamente, não há ali de que se 
isentar muito aos seus próprios olhos. 
Com um tal pensamento, onde estão 
realmente os direitos e os deveres? 
qual é o objetivo do progresso? 
Sozinha, esta fé faz sentir ao homem 
sua dignidade pela perpetuidade e o 
progresso do seu ser. Não num futuro 
mesquinho e circunscrito à 
personalidade, mas grandioso e 
esplêndido; seu pensamento se eleva 
acima da Terra; sente-se crescer 
pensando que tem seu papel no Universo 
e que esse Universo é seu domínio que 
poderá um dia percorrer, e que a morte 
dele não fará uma nulidade, ou um ser 
inútil a si mesmo e aos outros. 
O progresso intelectual realizado até 
este dia. nas mas vastas proporções, é 
um grande passo, e marca a primeira 
fase da Humanidade, mas sozinho é 
impotente para regenerá-la; enquanto o 
homem for dominado pelo orgulho e pelo 
egoísmo, utilizará sua inteligência e 
seus conhecimentos em proveito de suas 
paixões e de seus interesses pessoais; 
é por isso que os aplica ao 
aperfeiçoamento dos meios de 
prejudicar aos outros e de se 
entredestruirem. Só o progresso moral 
pode assegurar a felicidade dos homens 
sobre a Terra, colocando um freio às 
más paixões; só ele pode fazer reinar 
entre eles a concórdia, a paz, a 
fraternidade. Será ele que abaixará as 
barreiras dos povos, que fará tombar 
os preconceitos de casta, e calar os 
antagonismos de seitas, ensinando aos 
homens a se olharem como irmãos, 
chamados para se entre ajudarem e não 
viverem às expensas uns dos outros. 
Será ainda o progresso moral, 
secundado aqui pelo progresso da 
inteligência, que confundirá os homens 
numa mesma crença, estabelecida sobre 
as verdades eternas, não sujeitas à 
discussão e, por isto mesmo, aceitas 
por todos. A unidade de crença será o 
laço mais poderoso, o mais sólido 
fundamento da fraternidade universal, 
quebrado em todos os tempos pelos 
antagonismos religiosos que dividem os 
povos e as famílias, que fazem ver no 
próximo inimigos que é preciso fugir, 
combater, exterminar, em lugar de 
irmãos que é preciso amar. 
Um sinal não menos característico do 
período em que entramos, é a reação 
evidente que se opera no sentido das 
idéias espiritualistas, uma repulsa 
instintiva se manifesta contra as 
idéias materialistas, cujos 
representantes se tornam menos 
numerosos ou menos absolutos. O 
espirito de incredulidade que tinha se 
apoderado das massas, ignorantes ou 
esclarecidas, e lhe tinha feito 
rejeitar, com a forma, o próprio fundo 
de toda crença, parece Ter tido um 
sono ao sair do qual experimenta a 
necessidade de respirar um ar mais 
vivificante. Involuntariamente, onde o 
vazio se fez, procura-se alguma coisa, 
um ponto de apoio, uma esperança. 
Neste grande movimento regenerador, o 
Espiritismo tem um papel considerável, 
não o Espiritismo ridículo inventado 
por uma critica zombeteira, mas o 
Espiritismo filosófico, tal como o 
compreende quem se dá ao trabalho de 
procurar a amêndoa sob a casca.
Já dissemos em outro lugar: "Quanto 
mais uma idéia é grande, mais encontra 
ela adversários, e pode se medir sua 
importância pela violência dos ataques 
dos quais é objeto." 
O número dos retardatários é ainda 
grande, sem dúvida, mas o que podem 
contra a onda que cresce, senão nela 
lançar algumas pedras? Esta onda é a 
regeneração que se ergue, ao passo que 
eles desaparecem com a geração que se 
vai cada dia a grandes passos. Até lá 
defenderão o terreno palmo a palmo; 
há, pois, uma luta inevitável, mas uma 
luta desigual, porque é a do passado 
decrépito que cai em farrapos, contra 
o futuro juvenil; da estagnação contra 
o progresso; da criatura contra a 
vontade de Deus, porque os tempos 
marcados para ele estão chegados.

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