Dia desses fui convidado a participar de um debate
filosófico,, cujo tema fora: “religare e diferenças”. Foi uma
experiência inesquecível por vários aspectos ainda mais que a temática era
sugestiva especificamente em minha área do conhecimento.
A certa altura da minha fala um dos presentes (a
platéia constituída de professores, mestres, doutores e acadêmicos de
filosofia) Um desses discorda de um dos apontamentos apresentados por mim.
A existência do politeísmo. Para isso, usa a
argumentação sobre o hinduísmo e sua cosmogonia incerida no panteão de
deuses advindas apenas de um Braham.
Eu apenas olhei e refleti..por um momento acreditei
em suas palavras, haja vista a retórica utilizada e a capacidade de
convencimento daquele filósofo.
Eu? Eu fui pesquisar…para poder reafirmar aquilo
que eu tinha certeza. Deixei de lado o Hinduísmo que já escrevi por aqui. Mas
fui buscar respostas em duas outras religiões que passo a escrever sobre. A
primeira é o Xintoísmo. A segunda será a religião Helênica..tão conhecida dos
filósofos.
Vamos lá:
TERMINOLOGIA
No princípio, esta religião étnica não tinha nome,
mas quando se introduziu o budismo no Japão durante o século VI, um dos nomes
que este recebeu foi Butsudo, que significa “o caminho do Buda”. Assim, a fim
de diferenciar do budismo, a religião nativa passou a ser chamada xinto,
palavra de origem chinesa, que combina dois caracteres chineses (kanji): “shin”
(神?),
significando deuses ou espíritos (quando lido sozinho é pronunciado “kami”) e
“tō” (道?),
que significa caminho filosófico. Assim, xinto significa “o caminho dos
deuses”. O nome chinês foi escolhido porque na época apenas o chinês era
escrito no Japão, já que não haviam desenvolvido ainda a escrita japonesa.
O Xintoísmo é a religião tradicional do Japão, a única
religião que pode ser considerada genuínamente japonesa, estreitamente ligada à
cultura e modo de vida japonês. Shintou (神道)
em japonês significa “via dos deuses”, o primeiro
kanji é shin (神), o mesmo kanji
para kami (que significa “deus”). O segundo kanji é tô (道),
que significa caminho. O Xintoísmo constitui um conjunto de crenças e práticas
religiosas de tipo animista devido a ausência de elementos como códigos de leis
explícitas, filosofia textualmente definida, profetas ou um livro sagrado mais
elaborado. Entretanto a imensa influencia xintoista no comportamento e no modo
de vida dos japoneses, perceptível não só em seus diversos rituais, mas em
todos os aspectos da sociedade e da vida, bem como sua ampla abrangência em seu
país de origem, garante a esta concepção místico-filosófica o estatuto de uma
das grandes religiões do mundo. Diferente do Budismo, que têm origem indiana e
influência chinesa, o Xintoísmo é dominante apenas em seu país de origem,
embora sua prática não implique no abandono ou repúdio a outras formas de
crença. Não se trata de uma concepção exclusivista, convivendo pacificamente e
até complementarmente com outras práticas religiosas.
O estudo do Xintoísmo é vital para o entendimento
da cultura japonesa, sua visão de mundo determina boa parte do comportamento
nipônico, como sua capacidade de adaptação e absorção de novas idéias ao mesmo
tempo em que preserva as antigas, sua boa recepção a novas culturas e idéias,
seu comportamento que valoriza a ética e a saúde e seu sentimento de
nacionalismo.
O termo japonês Kami (deus) significa “algo
elevado”, “divino”, “superior” “absoluto”. Não existe tradução precisa mas o
termo é atribuído aos espíritos sagrados, deuses e divindades em geral. Como
ocorre muitas vezes com traduções, muito do significado original do termo pode
se perder, e talvez o melhor a ser feito, no caso do conceito de kami, é não
traduzi-lo, e sim entender que tipo de seres espirituais são englobados no
conceito de kami.
Pesonagens humanos que realizem grandes feitos,
heróis, e o próprio imperador, descendente direto de AMATERASU, recebem
veneração comparável a dos kami. No caso dos hérois o feito pode ser de
qualquer ordem, militar, social ou artístico, podendo esta celebridade receber
santuários. Mas lembremos que isso não significava torna-lo equivalente a um
Kami original-absoluto (deus), pois não se perde a noção do limite que o separa
de um ser humano. Apesar disso na verdade o que se admira não é o personagem
humano em si, mas sim a sua parte divina que o permitiu realizar o que quer que
tenha feito.
O Xinto não se propagou de forma significativa para
fora do território japonês, porque é uma religião nacionalista por excelência.
No entanto, influenciou fortemente praticamente todas as religiões que já
chegaram ao Japão, inclusive algumas que se popularizaram depois em outros
países, como por exemplo, a Igreja Messiânica, o Budismo Terra Pura e o
movimento Seicho-No-Ie.
HISTÓRIA
De origens imemoriais, o Xintoísmo passou por
diversas fases evolutivas em sua história, desde as origens até à atualidade.
As origens mais antigas do xintoísmo são
desconhecidas, mas acredita-se que começou a se formar provavelmente no período
Jomon.
O Budismo foi introduzido no século VI e trouxe
graves consequências para o Xintoísmo. Vindo da Coreia, apresentado ao
imperador, o Budismo, apesar de algumas resistências iniciais, acabou por
triunfar, tendo servido para a consolidação do poder imperial, com o apoio dos
governantes locais.
Apesar disto, a tendência geral, e mais conforme à
mentalidade do Oriente, foi a de fundir as duas religiões, mas sob a égide do
Budismo.
Durante longos séculos, o Budismo impôs a sua
influência, sobrepondo-se à religião tradicional, que porém não desapareceu.
Face ao domínio duma religião estrangeira desde
logo vários pensadores e sacerdotes procuraram manter a dignidade e o papel
desempenhado pela religião tradicional. Na Idade Média, vários destes
pensadores fizeram uma união entre os dois tipos de divindades, mas em sentido
contrário ao já referido: os budas eram na verdade kami encarnados, que assim
deixavam o seu estado original para descerem à terra.
Nos sécs. XVI-XVII, viveu-se um momento de
renascimento da cultura japonesa, com o consequente afastamento de influências
estrangeiras. Apesar de o Budismo não perder substancialmente o seu terreno,
ficou agora relegado para segundo plano, a favor de uma tendência nacionalista
que se afirmava, e que atingiria o seu ponto culminante no período seguinte.
No âmbito da ideologia profundamente nacionalista
da era Meiji, a escolha duma religião oficial recaiu naturalmente sobre o
Xintoísmo, já antes aclamado como a religião verdadeiramente original do povo
japonês, considerado pelo regime como superior a todos os outros.
Criou-se então o chamado Xintoísmo de Estado, uma
espécie de sacralização do Estado, ou melhor, laicização do Xintoísmo. De
facto, o Xintoísmo foi despido do seu carácter religioso para se tornar um dever
cívico de reverência ao Estado e ao imperador.
O Xintoísmo de Estado permaneceu em vigor durante
algumas décadas. Como expressão do nacionalismo japonês, exacerbou-se
particularmente por ocasião da 2ª Guerra Mundial. Com a derrota do Japão,
precipitou-se o seu processo de queda. Em 1946, foi proclamada a nova
Constituição, pela qual o imperador foi destituído de todas as prerrogativas
divinas e de todo o poder político, tornando-se apenas símbolo da unidade
nacional.
VARIEDADE XINTOISTA
Reconhecem-se várias expressões do xintoísmo, que
são o resultado da evolução histórica da religião, lugar da sua manifestação e
prática religiosa dos adeptos.
Xintoísmo dos santuários: é o conjunto de crenças
que se exprimem através das festas e das venerações nos santuários.
Praticamente todos os santuários pertencem à Associação dos Santuários (Jinja
honchó), fundada em Tóquio no ano de 1946.
Xintoísmo doméstico: exprime-se nos lares
japoneses. Nas casas xintoístas existe em geral um pequeno altar consagrado aos
deuses, o kamidana. Em cima deste altar encontra-se muitas vezes um amuleto
oriundo do santuário local, do Grande Santuário de Ise e em alguns casos.
Nestes altares colocam-se oferendas (saquê, arroz, sal) e recitam-se orações.
Xintoísmo imperial: é o resultado do
desenvolvimento na casa imperial da prática dos ritos e cerimónias do
xintoísmo.
Xintoísmo popular: caracteriza-se pela ausência de
uma sistematização doutrinária e de uma organização. É o tipo de xintoísmo
praticado essencialmente pelo indivíduo.
Xintoísmo das seitas: é composto essencialmente
pelas treze seitas reconhecidas pelo Estado dos Meiji entre 1876 e 1908. Estas
seitas possuem em geral um fundador (homem ou mulher). Até ao fim da Segunda
Guerra Mundial, os grupos xintoístas que não pertenciam a uma das treze seitas
não eram reconhecidos pelo Estado, o que gerou a integração de muitos desses
grupos numa das seitas existentes. Depois da guerra, e tendo sido declarada a
liberdade religiosa, alguns grupos estabeleceram-se como organizações
independentes.
ESCRITURAS SAGRADAS
O xintoísmo não possui um livro sagrado, como a
Bíblia ou o Alcorão. Há no entanto um conjunto de textos sobre os ensinamentos
da religião que recebem o nome de Shinten, “escrituras sagradas”, mas não são
considerados textos revelados ou de carácter sobrenatural.
Kojiki (“Anais das coisas antigas”): datado de 712,
é o texto sagrado mais antigo, sendo composto por três volumes.
Nihonshoki (“Crônicas do Japão”): foi redigido em
720 em chinês em 30 volumes. Também conhecido como Nihongi.
Kogo-shui: compilação das tradições do clã dos
Imbe, uma família que junto com a família dos Nakatomi era responsável pelos
ritos. A sua redacção foi concluída em 807.
Estes livros apresentam as narrativas míticas da
tradição xintoísta. Os mitos descritos referem-se a um caos primordial em que
os elementos se mesclam em massa amorfa e indistinta, “como num ovo”. Os deuses
surgiram desse caos.
CRENÇAS DO XINTOÍSMO
A – KAMI
O xintoísmo baseia-se no culto aos kami (神).
Esta palavra é frequentemente traduzida por “deus” ou “divindade”, o que não
traduz completamente o conceito, dado que os kami pode ser também forças vitais
ou espíritos da natureza. Ao contrário dos deuses das outras religiões, os kami
não são onipotentes ou oniscientes, possuindo poderes limitados. Nem todos kami
são bons. Alguns kami são locais ou conhecidos como espíritos de um local em
particular ou a lugares (montanhas, ervas, árvores, vales, rios, mares,
encruzilhadas. Outros representam elementos ou processos da natureza, como por
exemplo, Amaterasu, a deusa do Sol, Tsukiyomi, deusa da lua, Susanoo, deus da
tempestade.
Existem kami ligados a fenómenos meteorológicos
(chuva, vento (Fujin), trovão…), e kamis associados à vida humana (vestuário,
transportes, ofícios, etc.). Incluem-se ainda no conceito de kami os espíritos
de homens notáveis, como de certos guerreiros. Os espíritos dos antepassados
também são considerados deuses tutelares da família ou do país, motivo pelo
qual os ritos fúnebres possuem grande relevo.
Os textos xintoístas referem-se a “oitocentas
miríades” de kami (yaoyorozu no kami); este número não deve ser interpretado
literalmente, pretendendo-se apenas transmitir a noção de que existem inúmeros
kami. Os kami não são perceptíveis pelo ser humano.
Podem ser divididos em dois tipos: os que habitam
no céu (amatsukami) e os que habitam na terra (kunitsukami). Os primeiros
trazem à terra influências positivas, enquanto que os segundos mantêm-na como
ela.
O kami mais eminente é a deusa-sol Amaterasu
O-mikami, antepassada da família real japonesa. O seu santuário principal é o
Grande Santuário de Ise.
B – O HOMEM
Descendentes dos deuses, os humanos são pela visão
xintoísta, seres a princípio puros e bons tal como seus ancestrais. Não existe
como no Cristianismo, o Pecado Original, que impregna todo o ser humano desde
que nasce tendo que ser purificado pelo batismo da igreja. Ou a decadência de
um estado superior, como foram as idades de Ouro, Prata, Bronze até chegar a
idade do Ferro, como há na mitologia grega, seu correlativo Hindu e seus
equivalentes Gnósticos, ou o estigma de um sofredor por natureza, como no caso
do Budismo.
Para o Xintoísmo, o homem tem uma natureza
essencialmente espiritual. O ser humano é considerado filho dos Kami. De facto,
as relações entre homens e divindades são sempre descritas em termos de
antepassados, filhos, netos, descendentes. O homem é da mesma natureza dos
Kami, a quem deve a sua vida e a sua felicidade.
A vida neste mundo é considerada como algo desejado
pelos seres divinos, pelo que o homem tem o dever de viver plenamente.
Contrariamente à percepção negativa do Budismo sobre a existência (ver
Samsara), para o Xintoísmo o tempo presente tem grande importância, está no
centro do universo, e o homem deve reconhecer-lhe essa importância, dando valor
à existência individual. Embora se admita a existência dum além, este não é
visto como algo de valor superior a este mundo, mas apenas como uma realização
mais perfeita desta vida terrena. Daí que a escatologia xintoísta seja
extremamente vaga: estamos diante duma religião deste mundo, que se centra no
homem vivente pleno e concreto inserido nesta vida que procura realizá-la ao
máximo já aqui.
Sendo da mesma natureza e origem dos Kami, o homem
é naturalmente bom e perfeito. Está completamente ausente no Xintoísmo qualquer
ideia de pecado original, que seria um obstáculo ao carácter sagrado do homem e
à sua filiação divina. O homem não é um ser voltado ao mal. Simplesmente, por
influência de espíritos malignos, a sua vida neste mundo não é plenamente
realizada. Sucumbe muitas vezes a tentações, cometendo crimes e acções erradas
e dando origem a impurezas. Tem, contudo, a possibilidade de triunfar pelas
suas próprias forças, pois dos Kami recebeu naturalmente tendências e
faculdades para realizar plenamente o bem. Mas, mesmo quando faz o contrário, é
fácil regressar à pureza original.
Vemos que o Xintoísmo, no que diz respeito ao
homem, é profundamente optimista e valorizador da existência humana e mundana.
Quando o kami IZANAGI se banhou em um rio para se
limpar das impurezas das trevas, deu origem ao mito da purificação. Segundo o
Xintô, tudo na natureza é influenciado pela pureza e a impureza, principalmente
o ser humano. Este deve então buscar a constante purificação com o objetivo da
elevação espiritual, única maneria de se tornar merecedor da ajuda dos deuses.
Muitas atitudes da vida mundana mesmo as
necessárias, implicam em impurezas, principalmente as associadas com o sangue.
Matar animais ou outros seres humanos torna a pessoa impura, necessitando de um
ritual de purificação. Até mesmo o parto e a mestruação feminina são períodos
de impureza que faz necessária a prática constante da purificação.
Segundo o Xintô, todo o valor decorre da pureza, o
ser humano só encontrará a verdadeira iluminação em seu estado puro. A vida na
impureza conduz a desgraça e ao sofrimento, gera marcas que atraem espíritos
malignos e desperta o repúdio e a ira dos deuses.
Quando um ser humano pratica o mal, ele está sobre
influência do Yomi, a essência negativa do universo, através de suas entidades
malignas e energias impuras. A ele resta então praticar a purificação e o
reencamihamento a luz.
Para o Xintô, todo o pecado não passa de um sujeira
temporária acumulada posteriormente, entretanto os que se entregam a maldade,
cultivando-a e abnegando-se da purificação, invariavelmente serão punidos pelos
Kamis.
Aquele que insiste na maldade acabará tendo por
resultado o destino do mundo subterrâneo, os infernos, e talvez a incorporação
ao Yomi (demonio).
Existem básicamente 3 tipos de impurezas,
“pecados”, que podem envolver o ser humano.
Os WAZANAI são as desgraças,
os infortúnios que se abatem sem culpa do indivíduo, mas os quais também
precisam ser lavados.
Os KEGARI são as manchas em
geral do dia a dia, a manipulação de cadáveres inclusive de animais, a sujeira
pelo sangue, condutas levianas ou imprudentes.
Os TSUMI são os “pecados”
propriamente ditos, as maldades cometidas deliberadamente.
Dessa forma há os três principais ritos de
purificação:
O HARAI promove a
purificação do “pecados”, TSUMI. O rito do HARAI se baseia na punição de
SUSANOWO, com o qual guarda semelhanças como a oferta de oferendas.
O MISOGI faz a limpeza das
impurezas obtidas não intencionalmente, manchas, os KEGARI. Também usado para
purificar o ser humano das desgraças das quais ele pode ser vítima, WAZANAI,
sendo esse ritual baseado no mito do banho de rio de IZANAGI.
O IMI é basicamente a
abstinência de certas atitudes impuras, alimentos, bebidas, ou atividades que
resultem em impurezas pelo menos por algum tempo. De caráter poder-se-ia dizer
mais preventivo, é aplicado principalmente ao KEGARI.
COSMOLOGIA e COSMOGONIA
Em relação à estrutura do mundo, existem duas
concepções diferentes, que se cruzam e se tomam muitas vezes em paralelo, sem
se contradizerem, pois representam duas perspectivas diferentes e
complementares.
A primeira delas é vertical e fala de três mundos
distintos: a “Alta Planície Celeste”, morada dos kami do céu, de onde eles
descem, para dar paz, ordem e felicidade. É um mundo descrito como reflexo do
mundo dos humanos, uma espécie de Japão plenamente belo e perfeito; segue-se o
“País do Meio da Planície dos Canaviais”, morada dos homens, onde os kami
desceram; por último, o chamado “País de Yomi”, subterrâneo, moradia dos
mortos, terra de máculas e de pecados, onde habitam os espíritos malignos que
influenciam o homem para o mal. Esta tradição é a principal da mitologia
xintoísta e reflecte os meios aristocráticos.
A segunda concepção é horizontal, e coloca lado a
lado o “País do Meio” e o chamado “País dos Mortos” que, ao contrário do que o
nome indica, é uma terra de delícias, situada para além dos mares, onde habitam
os espíritos purificados dos antepassados, que visitam este mundo, trazendo
felicidade e protecção aos viventes. Esta concepção é de cariz mais popular. Há
que notar, mais uma vez, que o Xintoísmo atribui a importância fundamental a
este mundo. De facto, tanto kami como antepassados, embora habitem noutros
planos, conservam estreitas relações com o mundo dos humanos.
É claro que estas concepções devem ser lidas, não
de modo físico, sob o qual se tornariam ultrapassadas, mas de modo metafísico,
como na religião cristã.
AS FORÇAS DA NATUREZA
Há que reconhecer que o homem vive graças à
natureza, a tudo quanto ela lhe fornece, pelo que a sua atitude deve ser de
profunda gratidão e reverência. Mesmo quando a natureza se desenfreia, o ser
humano é forçado a reconhecer que muito maiores são os benefícios que dela
recebe. O homem, apesar de todo o seu avanço tecnológico, não possui poder
pleno, e deve reconhecer a sua humildade, num espírito de coexistência
pacífica.
Há inúmeras divindades ligadas a elementos
naturais, o que atesta que tudo é governado pelos kami. Logo, a natureza
reveste um carácter sagrado, regendo-se por uma vontade e sensibilidade
próprias, por uma espiritualidade misteriosa, mais do que propriamente por leis
naturais.
Sendo que toda a natureza descende de “kamis” assim
como a humanidade, fica claro que tudo está interligado tendo como origem em
comum um ancestral divino. Assim sendo o ser humano e a natureza, seus
elementos, minerais, vegetais e animais, são parentes.
A vida dessassociada da natureza é incompatível com
o Xintô, o ser humano não deve combatê-la ou transformá-la sem necessidade
vital. É comum aos praticantes xintoístas o retiro para ambientes onde possam
promover a integração com a natureza, uma forma de purificação, elevação
espiritual, e oportunidade para reflexão e meditação.
Como já foi dito na introdução, o Xintô e a própria
cultura japonesa pregam que sendo a natureza sagrada, sua destruição é
indesejável, e não existe o sentimento de hostilidade inerente recíproca
imperante no ocidente.
Outra prática bastante disseminada é a deificação
de determinados elementos naturais em especial. Como por exemplo a árvore que
representa um família ou um rocha que ocupa lugar de destaque em determinada
cidade. Principalmente na antiguidade, era tradicional em muitas aldeias a
veneração de algum “ícone” que representasse bem seu povoado ou dinastia.
O comportamento xintoísta é tão avesso a
interferência no cenário natural, para ele é sagrado e perfeito, que qualquer
atividade que implique em utilização ostensiva dos recursos naturais deve ser
recompensada no mínimo com a construção de um templo dedicado a natureza.
ÉTICA XINTOISTA
Como vimos, o homem é considerado como naturalmente
bom e puro, participante da natureza dos kami, e que o pecado e a impureza se
devem a influências malignas dos espíritos habitantes do mundo inferior. Por
isso, o homem recebe directamente dos kami uma componente natural, um ideal
celeste a ser realizado nesta vida, modelo de vivência dado e aceite como meta,
e que representa a ligação da vida humana à vida divina. Este é o maior
conceito moral do Xintoísmo, o chamado michi, termo que significa “caminho”.
Trata-se de um ideal de justiça e de carácter, de que ninguém se deve afastar,
elemento básico da vida xintoísta e do próprio culto. O michi, obediência ao
curso da natureza, reveste-se duma extrema simplicidade e naturalidade.
Para o Xintoísmo, a vida só alcança o seu sentido e
a sua finalidade se for vivida na pureza, que é o seu estado natural. A vida
que não leva isto em conta é radicalmente antixintoísta e não agrada aos kami
que, desgostosos, podem mandar vários tipos de desgraças para avisar o pecador,
e até mesmo castigá-lo. Procura-se esse ideal de pureza, tanto corporal como
mental e espiritual, que leva o homem à sua plenitude. Embora o homem não possa
controlar tudo o que acontece e pode danificar a sua pureza, tem a
responsabilidade de procurar viver uma vida autenticamente xintoísta, recta,
clara e honesta, segundo a vontade dos kami.
Vítima de forças que lhe escapam, o homem
corrompido é alguém que deixou de pertencer, durante algum tempo, ao mundo da
bondade e da felicidade, possuindo, porém, o direito de voltar a ele. Por isso,
o pecado e a falta moral, embora reconhecidos, revestem um carácter diferente
do que têm para os ocidentais.
Aquilo que pode danificar a pureza pode ser de
carácter voluntário ou involuntário. As faltas voluntárias são verdadeiros
pecados, da responsabilidade daquele que os pratica, e denominam-se tsumi. As
faltas involuntárias não fazem, obviamente, a pessoa incorrer em igual
responsabilidade, embora ela possa ter contribuído para a situação, devido à
sua má conduta ou imprudência. Incluem-se neste grupo as calamidades ou
desgraças (wazawai) e as manchas, impurezas (kegari), adquiridas por contactos
com elementos como a cadáver, o sangue, as relações carnais, etc. Estes males,
como vimos, têm origem no mundo inferior, que envia as calamidades e impurezas
e incita aos crimes. Para afastar a sua nefasta influência, realizam-se vários
tipos de exorcismos.
Isto, que parece uma confusão entre mal moral e
acontecimentos fortuitos, tem a sua justificação no preceito fundamental da
pureza que, para muitos pensadores xintoístas, se sobrepõe aos ritos e ao
culto.
Tudo isto é a concepção geral acerca da moralidade.
No que se refere ao concreto, as concepções morais rigidos do Xintoísmo
apresentam bastante pobreza, pois não se encontram códigos morais definidos
propriamente ditos, como existem noutras religiões orientais, como o
confucionismo, por exemplo. O michi apresenta-se como algo extremamente vago e
simples, o que pode levar a pensar que o Xintoísmo rejeita propositadamente
qualquer tipo de regras concretas de moral.
Mas, a este respeito, um grande teólogo xintoísta,
Motoori (1730-1801), apresenta uma teoria interessante. Diz ele que os homens
foram naturalmente dotados pelos kami de conhecimento do que devem ou não
fazer, pelo que não precisam de códigos morais. Se necessitassem de tal coisa,
seriam inferiores aos animais que, embora em grau inferior, sabem como devem
proceder. A ausência deliberada dum código moral no Xintoísmo é, para Motoori,
motivo de orgulho, pois significa que aos japoneses basta-lhes seguirem a moral
do coração e do espírito puro, neles inscrita pelos kami. Os chineses e outros,
por exemplo, com as suas abundantes teorias morais, só mostravam que eram, na
verdade, pessoas perversas e depravadas.
CULTO XINTOÍSTA
As práticas do Xintoísmo têm a finalidade de se
dirigirem aos kami, para que escutem a oração dos fiéis. As orações podem ter
diversos sentidos: pedidos, muitas vezes relacionados com a vida do dia-a-dia
ou com alguma ocasião importante; acções de graças, por um benefício concedido,
uma meta atingida, um obstáculo ultrapassado; promessas de acção futura em
favor dos homens e da sociedade; tentativas de aplacar a fúria dos kami,
irritados por alguma coisa; ou, muito simplesmente, para os louvar,
rendendo-lhes homenagem sincera, sem esperar propriamente nada de especial em
troca.
Através de vários elementos, os fiéis podem
estabelecer relação com os kami, relação muitas vezes de carácter filial, em
que uma divindade é tutelar de dada região ou localidade. Os “paroquianos”
estabelecem especial ligação com esse kami, que os atende e protege, nos mais
variados acontecimentos da sua vida.
CLERO SACERDOTAL XINTOÍSTA
Os santuários têm ao seu serviço um número variável
de sacerdotes, que neles oficiam de vários modos. São designados pelo termo
kannushi, que significa “pessoa que pertence ao kami”, ou então pelo termo
chinês shinkoki, “pessoa cuja profissão é servir a divindade”.
A sua principal função é a de servir e adorar os
kami e servir como um elo entre eles e os crentes através da execução dos ritos
nos santuários, visando assegurar a proteção do povo japonês e do imperador.
Não costumam falar em público, tendo sido mesmo
proibidos disso em 1885, no contexto do Xintoísmo de Estado. Hoje em dia,
porém, os sacerdotes pregadores começam a ser apreciados. Não são considerados
como chefes ou guias espirituais, mas somente como oficiantes de atos de culto,
a pedido dos fiéis e em seu benefício.
O sacerdócio xintoísta é aberto às mulheres. As
sacerdotisas têm mesmo tendência a aumentar, encontrando-se algumas à frente de
grandes templos. O sacerdócio feminino desenvolveu-se no Japão após a Segunda
Guerra Mundial. Para além de sacerdotisas, as mulheres podem ainda ser mikos.
Uma miko é uma virgem que leva uma vida monástica, ajudando os sacerdotes a
executar os ritos nos templos e executando as danças sagradas. Exercem estas
funções durante cinco a dez anos.
Os sacerdotes repartem-se por várias categorias. A
mais elevada é a de Princesa consagrada ao kami, uma princesa virgem da família
imperial. Atualmente, só existe uma, no santuário de Ise. Em seguida, temos o
Grande Sacerdote, à frente de cada santuário, e depois o restante clero, que se
reparte por funções diferenciadas.
Hoje em dia, verifica-se uma nova preocupação em
revitalizar o Xintoísmo e os santuários, buscando novas tendências, pelo que se
tem agora grande cuidado com a preparação intelectual e teológica dos
candidatos a sacerdotes. Os regulamentos atuais prevêem vários diplomas
possíveis, dos quais pelo menos um é exigido aos sacerdotes, que apenas o obtêm
após vários anos de estudo em universidades ou institutos especiais. Hoje em
dia a formação de um sacerdote xintoísta é garantida pela frequência de um
curso na Universidade de Kokugakuim ou da Universidade de Kogakkan.
Os sacerdotes, uma vez consagrados, mantêm as suas
funções habitualmente toda a vida, mesmo não sendo obrigados a exercê-las.
Moram fora do santuário, com exceção do Grande Sacerdote. Os sacerdotes
xintoístas não são obrigados a levar uma vida de castidade, podendo casar e
fundar uma família, o que geralmente fazem.
As vestes sacerdotais apresentam grande beleza
artística, de raízes nos séculos passados, mas só são utilizadas nos santuários
e em ocasiões especiais na rua. A indumentária para o culto fica completa com
um toucado especial e sapatos próprios. Sobre a testa de um “Yamabushi”,
coloca-se uma pequena caixa preta chamada “tokin”, que é amarrada à sua cabeça
com um cordão preto. Durante as cerimónias, os sacerdotes costumam trazer
também uma espécie de ceptro de madeira, que tem um significado purificador,
mas sobre o qual não recai qualquer tipo de veneração.
Fora das funções rituais, os sacerdotes não usam
qualquer tipo de sinal exterior, que os distinga dos leigos.
CONSTRUÇÃOD E TEMPLOS
As montanhas no Japão são muito numerosas e estão
envolvidas nos aspectos da vida diária, é delas que brotam os rios, e são
consideradas sagradas. Não são kami em si, mas sim moradias de kami. O
território montanhoso é tão respeitado que mesmo hoje em dia, o alpinismo não é
uma atividade muito difundida pelo povo japonês, e isso num país onde é difícil
ver todo um horizonte livre da presença de montanhas.
É muito comum a contrução de templos nessas
regiões, assim como cerimônias de deificação e requisição de boas colheitas à
“deusa do arrozal” que vive nas montanhas. Nas lendas japonesas as montanhas
ocupam lugar de destaque na associação com grandes desafios, buscas e
peregrinações.
Os santuários xintoístas espalham-se por todo o
Japão, constituindo lugares privilegiados de culto. Mas, embora surjam por todo
o lado, têm geralmente alguma razão especial para existir: um fenómeno natural,
um acontecimento histórico ou mítico, a simples devoção pessoal ou o patronato
político. Também os há motivados por revelações em sonhos, ou porque
simplesmente era necessário um lugar de culto naquele local.
Quando o local de construção de um novo santuário é
escolhido, põe-se em prática uma série de ritos, destinados a purificar o lugar
e a invocar a presença do kami, para que se digne vir habitar naquele sítio. Se
mais tarde for decidido deixar aquele santuário ou mudá-lo para outro lugar,
existem os ritos inversos, pelos quais se convida delicadamente o kami a
retirar-se.
O santuário encontra-se na base do Xintoísmo. É
nesse local que a divindade habita e que escuta os seus fiéis, e é também
centro de ligação da comunidade e de partilha de identidade. Neste contexto,
podem distinguir-se três grandes tipos de santuários, conforme a abrangência
que possuem:
os de dimensão local, centros de partilha de uma
comunidade reduzida, onde se venera o kami da localidade. Este tipo de
santuário congrega em torno de si as pessoas da aldeia, que sentem uma filiação
comum em relação à divindade. O santuário aparece como local de estreitamento
de relações entre kami e paroquianos.
santuários de tipo particular, mais abrangentes,
procurados por motivos concretos e determinados, como o êxito nos negócios ou
nos estudos, ou outro tipo de protecção especial. Este género de santuários
encontra-se por todo o Japão.
por último, os grandes santuários nacionais,
destino de peregrinação de milhões de pessoas, todos os anos, dos quais o mais
importante é o de Ise, já referido, em honra da deusa Amaterasu, e que está
directamente ligado à casa imperial.
Além destes, há ainda templos dedicados a kami de
guerra, a valores marciais ou em honra de pessoas notáveis, a quem se pedem
favores específicos.
O santuário é entendido como um local onde as
pessoas se vêm “refrescar” espiritualmente. Neles, está-se em profunda comunhão
com a natureza, que abre o homem a uma espiritualidade plena e à identificação
pessoal com os kami.
Os templos xintoístas podem assumir as mais
diversas formas e tamanhos, mas apresentam certos aspectos em comum. Todos eles
são constituídos por um edifício, ou um conjunto deles, inseridos num espaço
envolvente, rodeados pela natureza. Têm particular importância as árvores,
principalmente a árvore sagrada, sakaki, utilizada em muitos dos rituais.
O espaço em volta do edifício principal é por vezes
muito extenso, e apresenta-se dividido em várias partes. Ao longo do caminho,
que nunca é em linha recta, encontra-se uma série de diferentes elementos
separadores, que marcam também etapas duma caminhada espiritual. São eles:
os torii, muito característicos dos templos
japoneses, que são uma espécie de portais sem porta, constituídos por dois
postes verticais e duas traves horizontais. Aparece um de imediato no início do
caminho e depois geralmente mais dois, ou mesmo uma grande fila deles. A série
de torii repete-se para cada via de acesso ao santuário;
pontes, por vezes várias, até se chegar ao templo
algumas monumentais e muito elaboradas. A água é um elemento purificador, pelo
que os cursos de água debaixo das pontes constituem uma eficaz barreira contra
toda a impureza;
barreiras e paliçadas, com portas, que simbolizam a
entrada no local sagrado, reservado ao homem puro.
Encontram-se também jardins, lagos, lanternas.
Ainda antes de se chegar ao edifício principal, depara-se um tanque de água
limpa, geralmente abrigado por um alpendre, no qual os fiéis se lavam, purificando-se
de todas as impurezas e pecados, servindo-se, para isso, dumas colheres
compridas de bambu, para tirar a água.
É costume também, em ocasiões solenes, libertar
aves, peixes e outros animais.
Chegamos, finalmente, ao edifício do templo. Pode
haver vários, num mesmo santuário, dirigidos a diferentes kami. Têm geralmente
dimensões modestas, não obstante a grande diversidade de tamanhos. São
constituídos por três secções:
uma sala de orações (Haiden) para os fiéis, onde
eles dirigem as suas preces ao kami. À entrada está uma grande caixa de
madeira, para depositar moedas, e um sino, ligado a uma corda, que serve para
advertir o kami da presença do fiel;
uma sala de oferendas, reservada aos sacerdotes
(Heiden);
uma sala mais pequena (Honden), nunca visitada,
considerada a morada física do kami, e onde podem estar depositados objectos
simbólicos, como espelhos, jóias ou espadas, invólucros onde reside o espírito
da divindade. O espelho, particularmente, é considerado morada privilegiada do
espírito divino, e tem origem muito antiga, sendo já mencionado na mitologia
japonesa.
Alguns templos prevêem nos seus estatutos serem
totalmente reconstruídos periodicamente. É o caso do templo de Ise,
reconstruído de vinte em vinte anos. Essa ocasião é rodeada de ritos próprios,
para convidar o kami a mudar de residência. Embora reconstruídos, os templos
mantêm o estilo do anterior, pelo que os novos não diferem dos antigos e
originais.
Alguns santuários possuem também uma espécie de
museu, não raras vezes repleto de peças de grande valor, consideradas espólio
da divindade.
Os ritos exercidos nos santuários, apesar de muito
diversos, apresentam o seguinte esquema: o sacerdote, depois de purificado,
invoca o kami. Faz ofertas propiciatórias, de bebidas e alimentos, a que se
segue a oferta de jogos, danças e representações, para entreter a divindade. No
fim, o kami é convidado a retirar-se, seguindo-se uma refeição fraterna.
RITOS DE PASSAGEM E PURIFICAÇÃO
A purificação é uma prática fundamental em toda a
prática xintoísta. É por ela que o homem se liberta, regressando ao seu estado
inicial de pureza, a que tem direito. Para a purificação, que antecede qualquer
acto religioso, particular ou comunitário, utilizam-se diversos ritos, que
assumem formas diferentes.
Os vários momentos da vida humana, muitas vezes
ligados a ritos de passagem, são ocasião para realizar um tipo de festas de
motivação mais pessoal, realizadas no seio da família. São ocasião de
agradecimento, de pedido e de renovação de propósitos para com os kami.
A primeira apresentação no santuário ou hatsumyia
mairi consiste em levar ao santuário local os recém-nascidos para serem
apresentados às divindades. No caso dos meninos a apresentação ocorre no
trigésimo primeiro dia e nas meninas no trigésimo terceiro dia (embora possam
ocorrer variantes locais quanto ao número de dias). No passado era hábito a
criança ser levada ao santuário pela avó, porque se considerava que a mãe
estava impura por ter dado à luz, mas hoje em dia a criança é muitas vezes
levada pela mãe.
Shichigosan
No dia 15 de Novembro as famílias deslocam-se aos
santuários com os filhos para agradecer aos kami o fato destes gozarem de saúde
e para orar pelo seu crescimento. As crianças que acompanham os pais são os
meninos de três e cinco anos e as meninas de três e sete anos. O nome do
festival deriva precisamente da idade das crianças: shichi(sete), go (cinco) e
san (três).
Celebração da maturidade
A 15 de Janeiro celebra-se a festa da Idade Adulta
(Seijin Shiki). Nesse dia os jovens com vinte anos reúnem-se nos santuários
para receber uma bênção, embora a festa também possua um carácter estatal, com
cerimónias nas prefeituras. A Constituição japonesa atribui a maioridade aos
jovens que atingiram os vinte anos.
Outros momentos
votos por um parto fácil: no quinto mês, a mulher
grávida coloca no ventre um cinto de tecido branco, purificado, para proteger o
feto, e ora pela criança que vai nascer;
as festas chamadas de sekku, que para os meninos é
no dia 5 de Abril, em que se estendem estandartes em forma de carpa, se fazem
bonecos em figura de guerreiros e se oferecem bolos. Para as meninas, é no dia
3 de Março, em que se colocam bonecas sobre um estrado e se oferecem bebidas,
doces e bolos;
a entrada na vida activa, que é ocasião para o
jovem agradecer aos kami, comprometendo-se a dar o seu melhor para o serviço da
sociedade;
o casamento, que é celebrado numa cerimónia muito
solene, na presença de um sacerdote, que inclui oferendas, orações e promessas
aos kami, seguindo-se um banquete;
a expulsão das maldições. Certas idades são
consideradas nefastas, sujeitas a desgraças: 35, 42 e 61 anos para os homens e
19, 33 e 37 anos para as mulheres. Nessas alturas, um sacerdote realiza um
exorcismo próprio e recomenda bastante prudência, pois as dificuldades ameaçam
acumular-se;
as festas de longevidade: certos aniversários são
comemorados com uma festa familiar e uma visita ao santuário. É o que se faz no
60º, 70º, 77º, 80º, 88º, 90º e 99º aniversários.
Os kami não suportam a impureza, pelo que se exerce
sempre um conjunto de práticas purificativas antes do culto propriamente dito,
que tornam puros os participantes, os objectos e as oferendas. Os ritos de
purificação assumem três formas distintas:
o misogi, que consiste na purificação por meio da
água. A água é tida como poderoso elemento purificador, crença já muito antiga,
pois é referida na mitologia: o deus Izanagi, depois de fujir dos infernos,
banhou-se na água dum rio, para se purificar das imundícies contraídas naquele
lugar. Ao banhar-se ou lavar-se na água, o fiel xintoísta obtém a purificação
das impurezas, tanto das voluntárias como das involuntárias. Pela água,
purifica-se o corpo e a alma. O misogi é depois estendido a níveis
sucessivamente superiores: o coração, o meio envolvente, a alma;
o harai, que é um tipo de purificação algo próximo
do exorcismo. É realizado por um sacerdote, que agita sobre o que deve ser
purificado ramos da árvore sagrada, sakaki, ou uma vara com tiras de papel
penduradas, ónusa e joga-se um punhado de sal. Por este meio, obtém-se a
purificação de todas as manchas, corporais e espirituais, bem como o
afastamento de todas as influências malignas.
Duas vezes por ano, no fim de Junho e de Dezembro,
realiza-se uma purificação solene, ou grande exorcismo, o chamado o-harai. No
recinto do santuário, reúnem-se muitas pessoas, que recebem umas tiras de
cânhamo ou de papel branco (kirinusa). Depois de recitar a oração de
purificação, o sacerdote agita a vara com os papéis, enquanto as pessoas agitam
também as suas tiras. Estas tornam-se objectos de substituição, contendo todas
as impurezas, e são lançadas a rios ou ao mar. Nalguns santuários, um exercício
semelhante é feito com papéis recortados em forma humana (hitogata), que a pessoa
passa pelo corpo, depois de neles ter escrito o nome;
o imi, que é um período de jejum a ser realizado
antes das cerimónias. Tem duração diferente, conforme a importância do rito.
Consiste em abster-se de determinados alimentos e bebidas, bem como de palavras
e acções menos próprias. É um período de recolhimento pessoal, evitando todo o
tipo de impureza, sem se ouvir música e sem se preocupar com assuntos que
causem fadiga ou sofrimento. Este tipo de purificação é principalmente
realizado pelos sacerdotes, que se retiram para outro lugar e fazem abluções.
Após este tempo, qualquer pessoa está apta a participar nas cerimónias mais
importantes.
FESTIVIDADES
A religião xintoísta comemora um grande número de
festas, com uma grande variedade de costumes e de motivos para celebrar. Não
raramente, verifica-se um grande intercâmbio entre religião e estado civil:
várias festividades xintoístas são feitas feriados, e vice-versa. As festas
dividem-se em dois grupos: as comunitárias, respeitantes à população em geral,
e as particulares, de âmbito mais pessoal e familiar.
Diversos tipos de ritos festivos são celebrados nos
santuários. Cotidianamente, fazem-se cerimónias de oferendas, de manhã. No
primeiro dia de cada mês também há ritos próprios. Estes são ritos de dimensão
modesta.
REISAI
Cada santuário, uma ou duas vezes por ano, celebra
uma data festiva, relacionada com o kami ou com o seu templo. O dia em que é
celebrada a festa pode ter múltiplos significados: pode corresponder ao dia de
fundação do santuário, a um dia importante na sua história ou ser um dia
associado à divindade do santuário.
Durante estas festas ocorre geralmente uma
procissão dos kami, razão pela qual as festas são também chamadas de shinkó-sai
(“Festa da Procissão dos Deuses”) ou togyo-sai (“Festa da Augusta Travessia”).
Os kami são instalados num carro (hóren) ou num palanquim (mikoshi) e são
passeados pela aldeia ou cidade.
Junta-se muita gente, que agita ramos de árvore e
estandartes, fazendo daquele acontecimento algo muito colorido e vistoso.
Estabelecem-se locais de paragem, para o kami descansar. A finalidade deste
acto é simplesmente entreter e divertir a divindade, pedindo-lhe, ao mesmo
tempo, que continue a dispensar a sua protecção. Estas festas são também
ocasião para jogos, artes e danças, tendo especial significado para o
estreitamento de laços entre kami e paroquianos, e destes entre si.
FESTAS DA PRIMAVERA
São várias as festas da Primavera (haru matsuri).
No dia 17 de Fevereiro desenrola-se a festa Toshigoi-matsuri no palácio
imperial e em todos os santuários do Japão, durante a qual é feita uma prece
que solicita boas colheitas e a prosperidade do país.
FESTAS DE VERÃO
Estas festas (natsu matsuri) são essencialmente
urbanas e tem como principal objectivo afastar as calamidades.
Uma das festas de Verão mais conhecidas é a festa
de Gion que se desenrola no santuário Yasaka em Quioto no mês de Julho e que
inclui uma marcha com carros ricamente decorados. Segundo a tradição esta festa
teria surgido no começo da época Heian, num tempo marcado por grande número de
epidemias; para afastá-las os demónios aos quais se atribuíam estas doenças
realizavam-se orações.
Outra importante festa é a do Rei Celeste
(Tennó-matsuri) que tem lugar no santuário Tsushima situado na cidade com o
mesmo nome (em Aichi). Na véspera da festa ocorre uma cerimónia na qual todas
as impurezas são colocadas em canas que são largadas no rio. No dia da festa
vários barcos, decorados com lanternas, deslizam pelo rio Tenno ao som de música
e à luz de fogos-de-artifício.
FESTAS DE OUTONO
As festas do Outono (aki matsuri) servem para
agradecer às divindades pela existência de uma colheita abundante.
No santuário de Ise, a 17 de Outubro, decorre o
importante rito do kanname-sai (“cerimónia da prova”), durante o qual as
primícias das colheitas dos cereais são oferecidos à deusa Amaterasu. São
também feitas oferendas das primeiras espigas de arroz cultivadas pelo
imperador e pelos agricultores das províncias.
A 23 de Novembro, é o dia de Agradecimento pelo
Trabalho, com novas ofertas e orações pela prosperidade do Japão.
INFLUÊNCIAS
A tradição religiosa do xintoísmo é anterior ao
budismo, que posteriormente foi introduzido no Japão no século VI. O contato
entre as duas religiões modificou ambas. Os budistas adotaram divindades
xintoístas, e estes, que consideravam seus deuses espíritos invisíveis e sem
formas precisas, aprenderam com o budismo a erigir imagens e templos votivos.
Proclamou-se inclusive que as duas religiões eram manifestações diferentes da
mesma verdade, o que originou uma tendência sincretista. Ambas religiões
representam a religiosidade japonesa e os japoneses chegam a praticar os ritos
de ambas tradições de acordo com a natureza da ocasião (por exemplo, preferem
rituais xintoístas para rituais de nascimento e casamento e rituais budistas em
eventos fúnebres).
Algumas das novas religiões japonesas tem forte
influência xintoísta.
O xintoísmo não pretende converter, por isso sua
expansão fora das ilhas japonesas limitou-se geralmente a descendentes de
japoneses.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BIBLIOGRAFIA
ROCHEDIEU, EDMOND. Xintoísmo e As Novas Religiões
do Japão. Ed. VERBO Lisboa/São Paulo Junho 1982. No original ROCHEDIEU, EDMOND,
Le Shintoisme. Edito-Service S.A. Genebra.
Enciclopédia Mirador Internacional Volume 20.
XINTOÍSMO
YAMASHIRO, JOSÉ. História da Cultura Japonesa. Ed.
IBRASA. São Paulo
Marcus Valerio – Trabalho monográfico



