Critérios frouxos para a delimitação de reservas indígenas e
quilombos ajudam a engordar as contas de organizações não governamentais
e diminuem ainda mais o território destinado aos brasileiros que querem
produzir

Leonardo Coutinho, Igor Paulin e Júlia de Medeiros
Manoel Marques
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LEI DA SELVA Lula na comemoração da demarcação da Raposa Serra do Sol, que feriu o estado de Roraima |
As dimensões continentais do Brasil costumam ser apontadas como um dos
alicerces da prosperidade presente e futura do país. As vastidões
férteis e inexploradas garantiriam a ampliação do agronegócio e do peso
da nação no comércio mundial. Mas essas avaliações nunca levam em conta a
parcela do território que não é nem será explorada, porque já foi
demarcada para proteção ambiental ou de grupos específicos da
população.
Áreas de preservação ecológica, reservas indígenas e supostos antigos
quilombos abarcam, hoje, 77,6% da extensão do Brasil. Se a conta incluir
também os assentamentos de reforma agrária, as cidades, os portos, as
estradas e outras obras de infraestrutura, o total alcança 90,6% do
território nacional.
Ou seja, as próximas gerações terão de se contentar em ocupar uma porção
do tamanho de São Paulo e Minas Gerais. E esse naco poderá ficar ainda
menor. O governo pretende criar outras 1 514 reservas e destinar mais 50
000 lotes para a reforma agrária. Juntos, eles consumirão uma área
equivalente à de Pernambuco.
A maior parte será entregue a índios e comunidades de remanescentes de
quilombos. Com a intenção de proteger e preservar a cultura de povos
nativos e expiar os pecados da escravatura, a legislação brasileira
instaurou um rito sumário no processo de delimitação dessas áreas.
Os motivos, pretensamente nobres, abriram espaço para que surgisse uma
verdadeira indústria de demarcação. Pelas leis atuQais, uma comunidade
depende apenas de duas coisas para ser considerada indígena ou
quilombola: uma declaração de seus integrantes e um laudo antropológico.
A maioria desses laudos é elaborada sem nenhum rigor científico e com
claro teor ideológico de uma esquerda que ainda insiste em extinguir o
capitalismo, imobilizando terras para a produção.
Alguns relatórios ressuscitaram povos extintos há mais de 300 anos.
Outros encontraram etnias em estados da federação nos quais não há
registro histórico de que elas tenham vivido lá. Ou acharam quilombos em
regiões que só vieram a abrigar negros depois que a escravatura havia
sido abolida.
Nesta reportagem, VEJA apresenta casos nos quais antropólogos, ativistas
políticos e religiosos se associaram a agentes públicos para montar
processos e criar reservas. Parte delas destrói perspectivas econômicas
de toda uma região, como ocorreu em Peruíbe, no Litoral Sul de São
Paulo. Outras levam as tintas do teatro do absurdo. Exemplo disso é o
Parque Nacional do Jaú, no Amazonas, que englobou uma vila criada em
1907 e pôs seus moradores em situação de despejo.
A solução para mantê-los lá foi declarar a área um quilombo do qual não
há registro histórico. Certas iniciativas são motivadas pela ideia
maluca de que o território brasileiro deveria pertencer apenas aos
índios, tese refutada pelo Supremo Tribunal Federal. Há, ainda, os que
advogam a criação de reservas indígenas como meio de preservar o
ambiente. E há também – ou principalmente – aqueles que, a pretexto de
proteger este ou aquele aspecto, querem tão somente faturar. "Diante
desse quadro, é preciso dar um basta imediato nos processos de
demarcação", como já advertiu há quatro anos o antropólogo Mércio
Pereira Gomes, ex-presidente da Funai e professor da Universidade
Federal Fluminense.
Os laudos antropológicos são encomendados e pagos pela Fundação Nacional
do Índio (Funai). Mas muitos dos antropólogos que os elaboram são
arregimentados em organizações não governamentais (ONGs) que sobrevivem
do sucesso nas demarcações. A quantidade de dinheiro que elas recebem
está diretamente relacionada ao número de índios ou quilombolas que
alegam defender.
Para várias dessas entidades, portanto, criar uma reserva indígena ou um
quilombo é uma forma de angariar recursos de outras organizações
estrangeiras e mesmo do governo brasileiro. Não é por outro motivo que
apenas a causa indígena já tenha arregimentado 242 ONGs. Em dez anos, a
União repassou para essas entidades 700 milhões de reais. A terceira
maior beneficiária foi o Conselho Indígena de Roraima (CIR). A
instituição foi criada por padres católicos de Roraima com o objetivo de
promover a demarcação da reserva Raposa Serra do Sol, um escândalo de
proporções literalmente amazônicas. Instituída em 2005, ela abrange 7,5%
do território do estado e significou a destruição de cidades, de
lavouras e um ponto final no desenvolvimento do norte de Roraima – que,
no total, passou a ter 46% de sua área constituída por reservas
indígenas. Em dez anos, o CIR recebeu nada menos que 88 milhões de reais
da União, mais do que a quantia repassada à delegacia da Funai de
Roraima no mesmo período. Não é preciso dizer que a organização nem
sequer prestou contas de como gastou esse dinheiro.
A ganância e a falta de controle propiciaram o surgimento de uma
aberração científica. Antropólogos e indigenistas brasileiros inventaram
o conceito de "índios ressurgidos". Eles seriam herdeiros de tribos
extintas há 200 ou 300 anos. Os laudos que atestam sua legitimidade não
se preocupam em certificar se esses grupos mantêm vínculos históricos ou
culturais com suas pretensas raízes.
Apresentam somente reivindicações de seus integrantes e argumentos
estapafúrdios para justificá-las. A leniência com que a Funai analisa
tais processos permitiu que comunidades espalhadas pelo país passassem a
se apresentar como tribos desaparecidas. As regiões Nordeste e Norte
lideram os pedidos de reconhecimento apresentados à Funai. Em dez anos, a
população que se declara indígena triplicou. Em 2000, o Ceará contava
com seis povos indígenas.
Hoje, tem doze. Na Bahia, catorze populações reivindicam reservas. Na
Amazônia, quarenta grupos de ribeirinhos de repente se descobriram
índios. Em vários desses grupos, ninguém é capaz de apontar um ancestral
indígena nem de citar costumes tribais. VEJA deparou com comunidades
usando cocares comprados em lojas de artesanato. Em uma delas, há
pessoas que aderiram à macumba, um culto africano, pensando que se
tratasse da religião do extinto povo anacé. No Pará, um padre ensina aos
ribeirinhos católicos como dançar em honra aos deuses daqueles que
seriam seus antepassados.
Casos assim escandalizam até estudiosos benevolentes, que aceitam a tese
dos "índios ressurgidos". "Não basta dizer que é índio para se
transformar em um deles. Só é índio quem nasce, cresce e vive num
ambiente de cultura indígena original", diz o antropólogo Eduardo
Viveiros de Castro, do Museu Nacional, no Rio de Janeiro. Declarar-se
índio, no entanto, além de fácil, é uma farra. No governo do PT, basta
ser reconhecido como índio para ganhar Bolsa Família e cesta básica.
O governo gasta 250% mais com a saúde de um índio – verdadeiro ou das
Organizações Tabajara – do que com a de um cidadão que (ainda) não
decidiu virar índio. O paradoxo é que, em certas regiões, é preciso ser
visto como índio para ter acesso a benesses da civilização. As "tribos"
têm direito a escolas próprias, o que pode ser considerado um luxo no
interior do Norte e do Nordeste, onde milhões de crianças têm de andar
quilômetros até a sala de aula mais próxima.
"Aqui, só tinha escola até a 8ª série e a duas horas de distância.
Depois que a gente se tornou índio, tudo ficou diferente, mais perto",
diz Magnólia da Silva, neotupinambá baiana. Isso para não falar da
segurança fornecida pela Polícia Federal, que protege as terras de
invasões e conflitos agrários. "Essas vantagens fizeram as pessoas
assumir artificialmente uma condição étnica, a fim de obter serviços que
deveriam ser universais", constata o sociólogo Demétrio Magnoli.
A indústria da demarcação enxergou nas pequenas comunidades negras mais
uma maneira de sair do vermelho e ficar no azul. Para se ter uma ideia,
em 1995, na localidade de Oriximiná, no Pará, o governo federal
reconheceu oficialmente a existência de uma comunidade remanescente de
um quilombo – e, assim, concedeu um pedaço de terra aos supostos
herdeiros dos supostos escravos que supostamente viviam ali. Desde
então, foram instituídas outras 171 áreas semelhantes em diversas
regiões.
Em boa parte delas, os critérios usados foram tão arbitrários quanto os
que permitiram a explosão de reservas indígenas. Também no caso dos
remanescentes de quilombolas, a principal prova exigida para a
demarcação é a autodeclaração. Como era de esperar, passou a ser mais
negócio se dizer negro do que mulato. "Desde que o governo começou a
financiar esse tipo de segregação racial, os mestiços que moram perto de
quilombos passaram a se declarar negros para não perder dinheiro", diz a
presidente do Movimento Pardo-Mestiço Brasileiro, Helderli Alves. Índio
que não é índio, negro que não é negro, reservas que abrangem quase 80%
do território nacional e podem alcançar uma área ainda maior: o Brasil é
mesmo um país único. Para espertinhos e espertalhões.
Os novos canibais
Manoel Marques
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A foto acima parece estranha – e é. O baiano J osé Aílson da Silva é
negro e professa o candomblé. Seu cocar é de penas de galinha, como os
que se usam no Carnaval. Silva se declarou pataxó, mas os pataxós
disseram que era mentira. Reapareceu tupinambá, povo antropófago extinto
no século XVII. Ele é irmão do também autodeclarado cacique Babau, que
vive em uma área que nunca foi habitada pelos tupinambás. Sua "tribo" é
composta de uma maioria de negros e mulatos, mas também tem brancos de
cabelos louros. Há seis anos, o grupo invade e saqueia fazendas do sul
da Bahia, crimes que levaram Babau à prisão. Seu irmão motorista também
esteve na cadeia, por jogar o ônibus sobre agricultores. As contradições
e os delitos não impediram a Funai de reconhecê-los como índios
legítimos e de oferecer-lhes uma reserva gigantesca, que englobaria até a
histórica Olivença, um das primeiras vilas do país.
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Teatrinho na praia
Manoel Marques
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Os boraris viviam em Alter do Chão, a praia mais badalada do Pará. Com
pouco mais 200 pessoas, a etnia assimilou a cultura dos brancos de tal
forma que desapareceu no século XVIII. Em 2005, Florêncio Vaz, frade
fundador do Grupo Consciência Indígena, persuadiu 47 famílias caboclas a
proclamar sua ascendência borari. Frei Florêncio ensinou-lhes costumes e
coreografias indígenas. O "cacique" Odair José, de28 anos,
reclamou do fato de VEJA tê-lo visitado sem anúncio prévio. "A gente se
prepara para receber a imprensa", disse. Seu vizinho Graciano Souza
Filho afirma que "ele se pinta e se fantasia de índio para enganar os
visitantes". Basílio dos Santos, tio do "cacique", corrobora essa
versão: "Não tem índio aqui. Os bisavôs do Odair nasceram em Belém".
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Macumbeiros de cocar
Leonardo Coutinho
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Os cearenses de São Gonçalo do Amarante vivem um tormento. Sede do Porto
de Pecém, o município esperaabrigar uma refinaria, uma siderúrgica e um
complexo industrial. Um padre, no entanto, convenceu seus fiéis de que
esses investimentos os expulsarão do local. Sua única saída para ficar
lá seria declararem-se indígenas. "Querem nos tirar terras que nossos
pais e avós compraram com muito suor", reverbera o agente de saúde Francisco Moraes.
Eles, então, compraram cocares, maracas e passaram a se pintar. "A
gente sempre foi índio, só não sabia", diz Moraes, que agora se
apresenta como "Cacique Júnior" e cultiva supostos hábitos dos índios
anacés, extintos há 200 anos. "Faço macumba e a dança de São Gonçalo." A
questão é que a origem da macumba é africana e a da dança, portuguesa.
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Made in Paraguai
Leonardo Coutinho
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Há dezoito anos, o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) importou
índios paraguaios e argentinos para o Morro dos Cavalos, em Santa
Catarina. Hoje, vivem lá dezessete famílias. A maioria dos imigrantes só
se expressa em espanhol, mas todos foram orientados a se declarar
brasileiros. "A Funai e o Cimi falam para a gente dizer que é carijó",
diz o guarani Milton Moreira, de 49 anos. Paraguaio, ele chegou a
Santa Catarina quando tinha 6 anos, mas foi sua presença no local que
embasou o pedido de criação da reserva. Curiosamente, Moreira se opõe à
demarcação. "Cresci aqui porque meu pai não tinha mais onde me criar. Se
esses antropólogos querem botar índio em qualquer lugar, por que não
põem a gente para morar no apartamento deles?", pergunta Moreira.
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Índio bom é índio pobre
Claudio Gatti
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Em 2000, cinquenta famílias de guaranis se mudaram para uma praia em
Peruíbe, no Litoral Sul de São Paulo. A terra que eles ocuparam é
infértil, mas ainda assim poderiam ter feito um ótimo negócio. O
empresário Eike Batista queria construir um porto no local e ofereceu
aos índios uma fazenda produtiva, com infraestrutura, dois rios, um
pesque-pague e até caça. Mais: daria 1 milhão de reais a cada família. A
tribo tirou a sorte grande – ou quase. A Funai barrou o acordo em 2007.
Alegou que os sete anos de ocupação irregular da área converteram os
índios em moradores tradicionais do local. A chefe Lílian Gomes (em
pé, ao fundo) lamentou. Moradora da região desde 2002, ela é casada com
um caminhoneiro (branco), tem carro, TV, computador, faz compras no
supermercado e não conseguiu impedir a Funai de enterrar a melhor
oportunidade de ascensão social que seus liderados tiveram.
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Problema dos brancos

Trezentos pequenos agricultores das gaúchas Erechim, Erebango e Getúlio
Vargas estão prestes a perder suas terras. Em 2006, o Conselho
Indigenista Missionário (Cimi) transferiu para a região um grupo de 63
guaranis de outros locais do Rio Grande do Sul. Os índios ergueram uma
favela em volta de fazendas constituídas por italianos, alemães e
poloneses há mais de 150 anos. Estão vivendo em condições subumanas. "A
gente veio para cá porque o Cimi prometeu mais terras, mas estamos na
miséria", diz um dos líderes guarani Severino Moreira (o primeiro
à esquerda). Seu sofrimento é passageiro. A Funai declarou que a terra é
uma área tradicional dos índios, sugeriu a criação de uma reserva no
local e a expulsão dos colonos. São esses últimos, agora, que terão
problemas.
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Os "carambolas"
Manoel Marques
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Nunca se soube da existência de quilombos no Amazonas. Mas há quatro
anos apareceu um em Novo Airão, a noroeste de Manaus. Lá, 22 famílias se
declararam herdeiras de escravos fugidos. Até então, elas contavam
outra história: descenderiam de sergipanos que, há 100 anos, teriam
imigrado para trabalhar na coleta do látex. Em 1980, a comunidade entrou
em um limbo jurídico. Naquele ano, o governo incluiu sua vila no Parque
Nacional do Jaú. As famílias passaram a viver ilegalmente na área. O
Ministério do Desenvolvimento Agrário resolveu o problema convertendo-os
em quilombolas – ou "carambolas", como eles se autodenominam. "A gente
virou ‘carambola’ para não perder a terra", diz Edneu Mendes.
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Não basta ser negro
Fotos Liane Neves
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