sexta-feira, 2 de maio de 2014

Inspiração para intelectuais


A inspiração provém de tudo. Sempre que escrevo, oriento-me pelo nada. Não tenho ideias. Mas elas surgem. Como se a minha mente estivesse a dizer um ditado, e eu, sou o seu aluno aplicado, que escrevo com cuidado para não cometer erros e acompanhar o orador. E a inspiração voa. Claro que não surge do nada. Não somos deus que cria um universo e uma humanidade sem bases, sem músicas que inspiram, sem livros que contam historias. A todo o momento a inspiração aborda-nos. Quer seja por uma pessoa estranha. Por versos de um poeta. Ou pelo som de uma música. Quando nos inspiramos, criamos.
Será que somos intelectuais, quando criamos? Somos mais que o normal? Nem todos criam. Constantemente a mente faz nos tomar uma série de atitudes, reacções. Mas isso, não é criar, é reagir. Criar, é algo tão diferente. Tão mais pessoal, mais criativo, mais único. Quando criamos somos donos de tudo. Somos intelectuais. Somos acima de qualquer um. Porque somos artistas. Somos poetas inspirados. Heróis da noite e do dia. Somos alguém. Mas criar, não faz de nós alguém melhor.
A fama não é o prémio pela nossa criação. Mas a mudança nas pessoas. Podermos ajudar alguém a crescer, a não cometer os mesmos erros que nós. Isso sim é o verdadeiro intuito da inspiração. Da criação. Pelo menos é assim que o vejo. Crio, a escrever. Escrevo talvez mais para retratar sentimentos. Coisas que vejo. Coisas que sinto. Passo para o papel. E no fim, dá um resultado.
A minha inspiração provém das pessoas. Da vida. Da experiência. Das sensações. Dos sentimentos. Tal como a de todos nós. Não são apenas os inspirados aqueles que escrevem ou pintam. São inspirados aqueles que se impõem. São inspirados aqueles que colocam o bem comum a frente do seu. São inspirados aqueles que tomam uma posição. Que defendem um ideal. Que conversam a olhar nos olhos. Que sabem falar. Que sabem se fazer ouvir. Que são verdadeiros. Influentes. Persuasivos. Únicos. Todos somos únicos, mas apenas alguns de nós admitimos o ser. Porque os outros, acham-se pobres de espírito. Inúteis. Massacrados e maltratados. No fundo, são apenas tolos, pois não admitem que tudo está as suas mãos, basta-lhes agarrar.

A Violência na Sociedade Brasileira


Nós queremos discutir neste artigo a violência na sociedade brasileira.
Além de ser um constrangimento físico ou moral, a violência é um ato vergonhoso que acontece diariamente, em todos os lugares do Brasil e no mundo. Ninguém sai mais à rua seguro de que vai voltar ao seu lar, muitas pessoas morrem e deixam famílias em sofrimento, por causa de um assalto, uma bala perdida ou outra causa de violência.
Ao andar pelas ruas, ninguém mais confia em ninguém, todos ao se aproximar de qualquer pessoa já ficam preocupadíssimos, sempre achando que irão ser assaltados ou coisa pior.
Cada dia que passa a violência aumenta rapidamente, em vez de todos serem unidos, parece que separam-se. Não sabemos o que será o dia de amanhã, há tanto medo dentro de nós que não pensamos em outra coisa senão a violência. Não podemos esquecer de ressaltar a violência nas torcidas de esportes. Coisa que deveria ser diversão acaba em violência e morte.
Quem não olha televisão? Todos os dias há casos e mais casos de mortes, assassinatos. Quase todos com uma coisa em comum: impunidade.
Como todos nós sabemos, continuam a ocorrer, no Brasil, graves violações dos direitos humanos.
As vítimas tendem a ser aqueles que mais precisam de proteção: os pobres urbanos e rurais, os povos indígenas, os negros, os jovens e também aqueles que trabalham em prol dos mesmos: advogados, sacerdotes, líderes sindicais, camponeses. Os violadores costumam ser agentes do Estado, cuja responsabilidade legal é a proteção dos cidadãos.
A despeito de algumas exceções notáveis, a impunidade ainda predomina para a maioria dos crimes contra os direitos humanos.
Em muitas cidades emergiram forças que passaram a explorar a desintegração social do ambiente urbano, para impor formas próprias de regulação social. As brechas cada vez maiores entre riqueza e pobreza, juntamente com as atividades do crime organizado e a disponibilidade de armas, criaram uma mistura explosiva, em que se deu a escalada da violência social brasileira. Somando-se a isso a inadequação do judiciário e a propensão de certos setores da polícia a agir como juiz, júri e carrasco daqueles que consideram "elementos marginais", formou-se um vácuo político e legal em que ocorrem violações brutais dos direitos humanos.
Mas, embora a história e os padrões sociais nos ajudem a entender os problemas dos direitos humanos no Brasil, não basta para explicar a impunidade de que desfruta um número excessivamente grande de violadores desses direitos.
 



Brechas da Impunidade 

Se formou no âmago da sociedade brasileira uma série de brechas, as quais permitem que tais crimes fiquem impunes.
A primeira é a brecha entre a legislação destinada a proteger os direitos humanos e a sua implementação.
O povo brasileiro tem a expectativa legítima de que os direitos civis e políticos inscritos na Constituição e na lei sejam justa e efetivamente aplicados pelo estado. No Rio de Janeiro, nos 10 meses que seguiram ao do massacre de Vigário Geral - de setembro de 1993 a junho de 1994 - foram registrada as mortes de 1.200 pessoas nas mãos dos esquadrões da morte. Mais de 80% desses crimes permanecem sem solução.
O panorama nas zonas rurais é ainda pior. Em apenas 4%, aproximadamente, dos casos de morte de camponeses e líderes sindicais rurais, os responsáveis foram levados a julgamento.
Quando são frustradas as expectativas daqueles que contam com a justiça e a procuram, a textura da sociedade começa a desintegrar-se. Assim como em outros países, tem sido essa experiência de muitos brasileiros, especialmente na periferia das grandes cidades e em algumas áreas rurais. Resulta daí que as relações sociais não são reguladas pela lei, mas sim por uma combinação de intimidação e apadrinhamento.
A Segunda brecha situa-se entre os setores das forças de segurança e o povo que juraram proteger.
O povo brasileiro tem o direito de viver sem medo do crime. Mas também tem o direito de viver sem medo da polícia. Dos 173 casos da assassinatos ocorridos no meio rural, em 19993, com a participação de pistoleiros contratados, que a Procuradoria Geral da Republica está investigando, comprovou-se que 80 contaram com a participação direta de policiais militares ou civis.
A morte do suspeito de um crime diante de câmeras de TV, no Rio de Janeiro, e o massacre de 111 detentos na Casa de Detenção, em São Paulo, têm um elemento comum: mostram que os policias sentem que têm controle sobre a vida e a morte dos cidadãos.
Como observou um ilustre membro da seção paulista de Ordem dos Advogados do Brasil, a respeito do caso Carandiru, mais aterrador que o número de vitimas foi o número de violadores. Isso mostra como um sentimento coletivo de impunidade poderia estar enraizado na cultura organizacional de certos setores das forças de segurança.
Mas é possível mudar. Após o massacre da Casa de Detenção, foram tomadas medidas para estabelecer padrões mais rigorosos de investigação de assassinatos cometidos por policias nas ruas, e todos os policiais envolvidos em tiroteios fatais foram obrigados a consultar um psiquiatra.
A terceira brecha estaria entre a procura da justiça e a capacidade do Estado para proporcioná-la.
Infelizmente para muitos brasileiros, sobretudo para os que integram os setores mais vulneráveis da população, o Brasil é também um país sem justiça.
Não é que o povo não acredite na justiça. É que suas convicções são cruelmente destruídas pelas próprias pessoas cujo dever seria preservá-las.
Essas brechas entre lei e a sua aplicação, entre as forças de segurança e o povo que juraram proteger, e entre a procura de justiça e a capacidade do Estado para proporcioná-la, criam uma brecha maior e mais fundável: uma brecha na própria alma da sociedade, que separa o Estado dos seus cidadãos e os cidadãos entre si.
É por isso que tais questões deixaram de preocupar apenas as vítimas, suas famílias e aqueles que lutam com coragem e determinação nas organizações de defesa dos direitos humanos, para afetar a sociedade brasileira como um todo.
 



Caminhos a percorrer

Para eliminar essas brechas, o movimento pelos direitos humanos precisa vencer quatro batalhas.
A primeira é a batalha pela identidade, uma batalha pela preservação da identidade individual das vítimas, como a das centenas de crianças e adolescentes mortos a cada ano nas principais cidades brasileiras.
Sabemos que, em sua maioria, as vítimas são jovens adolescentes de sexo masculino, provenientes de bairros pobres. Sabemos também que, contrariando a crença popular, a maioria deles não são crianças de rua nem têm ficha criminal.
Mas uma vítima não é um número estatístico nem categoria sociológica. Uma vítima é um ser humano. E para muitas dessas crianças e adolescentes a morte nem chega a conferir a dignidade humana elementar da identificação pelo nome.
Dos mais de 2 mil casos de assassinatos registrados no Rio de Janeiro no período de um ano, 600 das vítimas sequer foram identificadas. Como disse à Anistia Internacional um promotor estadual do Rio de Janeiro, em um número demasiadamente grande de casos, vítimas e violadores têm um atributo em comum: ambos são desconhecidos.


A Segunda é a batalha contra o esquecimento.  
"Vamos esquecer o passado", exigem os violadores de crimes contra os direitos humanos. Mas será que devemos esquecer os 144 "desaparecidos" durante os anos de governo militar? Devemos esquecer que os assassinos de Chico Mendes continuam em liberdade? Devemos esquecer que os responsáveis pela morte de Margarida Maria Alves ainda não foram julgados?
Justiça não significa esquecer o crime. "A justiça tarda mas não falha", diz o ditado popular. Só que, muitas vezes, "a justiça tarda mas não chega", e não chega porque tarda demais. Será que algum dia chegará para os membros das comunidades indígenas assassinados em meados da década de 80, cujos processos ainda estão paralisados na justiça?


A terceira é a batalha pela compaixão.
Muitos se voltaram contra as organizações de defesa dos direitos humanos, considerando seu trabalho pouco mais que a proteção de criminosos.
A ansiedade a respeito da escala do crime é alimentada por programas radiofônicos populares, que proclamam: " Bandido bom é bandido morto! "
Já faz muito tempo que muita gente aceita a morte de jovens suspeitos, desde que os mortos por engano não sejam seus próprios filhos.
Essas pessoas aceitaram a exibição pública dos corpos das vitimas, desde que não fosse realizada em áreas residenciais.
Aceitaram o fato de que grandes setores da população vejam negados seus direitos humanos básicos por serem pobres, ou viverem no bairro errado, ou terem a cor errada.
Mas as políticas do medo não trazem segurança. Pelo contrário, degradam a sociedade que tais crimes são tolerados e prejudicam a reputação internacional, da qual depende a prosperidade a longo prazo.            


A quarta batalha é a da responsabilidade.  
É claro que, para que a impunidade tenha fim , os responsáveis por crimes contra os direitos humanos devem ser levados a prestar contas dos seus atos perante um tribunal.
Mas há um sentido mais amplo em que a responsabilidade é crucial na luta pelos direitos humanos. O governo brasileiro é responsável, perante a lei internacional, pela garantia de que o Brasil cumpra os tratados internacionais de direitos humanos dos quais é signatário.
O governo brasileiro também é responsável perante a opinião pública internacional, pois o respeito pelos direitos humanos é uma obrigação moral que transcende as fronteiras nacionais.
Acima de tudo, o governo deveria prestar contas ao povo brasileiro.
 



Violência é proporcional à discriminação social

Os baixos salários, o desemprego e a recessão aumentam a miséria e a violência social. A violência pode não ser desejada pela sociedade civil, mas é desejada pelo governo, para afastar o povo da participação da vida nacional. É bom alertar também, que a recessão pode levar o país ao caos, à convulsão social e à ditadura.
A violência pode ser tomada como sinônimo de defesa. Ela é uma agressão de defesa. Um povo abandonado, amedrontado, humilhado, intimidado e atemorizado, até pela propaganda da violência, não participa. Nessa situação, consciente ou inconscientemente, uma intenção daqueles que estão no poder no sentido de afastar as pessoas da participação social, política e econômica. Isso vem ao encontro desse sistema que privilegia uma pequena minoria e prejudica a grande maioria. Por isso, a violência, muitas vezes é estimulada por aqueles que estão no poder para se manterem no poder.
As autoridades estão apostando na violência, pois agora se criam condições para que esta violência subsista e afaste o povo daquilo que é um direito do povo, a participação na vida nacional.
Temos grandes cidades que são de primeiro mundo. Aqui também temos a criminalidade do primeiro mundo. A criminalidade da droga, da violência policial, das quadrilhas organizadas. Agora, no Brasil real, que não é o Brasil do primeiro mundo, temos uma criminalidade que é fruto da discriminação social em que o povo vive, onde poucos são os donos e muitos são os escravos.
Pelo fato de o povo viver inseguro, amedrontado e intimidado, seria mais sensato e coerente que os meios de comunicação falassem de flores e amores em vez de promover programas de violência.
Mas o governo detêm os cordéis dos meios de comunicação e as grandes empresas se mantêm através do favorecimento do governo e através da manipulação da informação. Por isso eles promovem a violência exatamente para mostrar ao povo que ele tem que ficar na moita, sem o mínimo de esperança. Quando o povo chega em casa, depois de 12 horas de trabalho, e não só de trabalho, mas de envolvimento com toda esta loucura de vida, ele assiste novamente à violência do que foi sujeito. Isso quer dizer que ele vive permanentemente num mundo de violência, dentro e fora de casa. Que esperança este povo pode ter deste mundo?
 



Violência da tevê e dos brinquedos para a criança 

Nenhuma criança nasce violenta. Há consenso de que a condição de ser violento é adquirida no decorrer do desenvolvimento. Muitas famílias, pela condição infra-humana a que são submetidas, são forçadas a conviver constantemente com situações violentas. A isso, somam-se os brinquedos, em forma de armas miniaturizadas, colocadas facilmente ao acesso das crianças. A tevê colabora com imagens violentas e promiscuas. O que será das gerações futuras?
Os filmes violentos apresentados pela televisão têm influência sobre as crianças. O mundo atual faz com que a criança seja exposta, de forma muito intensa, a impulsos violentos. Vários psicólogos, principalmente norte-americanos, têm concluído que a violência gera, na criança, uma habituação. A criança se acostuma com a violência. Nessa habituação, para ser motivada, ela termina necessitando de mais estímulos violentos do que o necessário. Em experiências feitas nos EUA, um grupo de psicólogos tomou um grupo de crianças que viam pouca tevê e que passava o dia todo sob a estimulação de filmes violentos. Colocaram eletrocenfalogramas e aparelhos sensores para medir o pulso das crianças. Constataram, após algum tempo, que as crianças que estavam acostumadas com a violência, quando viam uma cena agressiva, não possuíam aceleração do pulso. De outra parte, as crianças que não estavam habituadas à violência, tinham uma saliente aceleração cardíaca.
Pela experiência acima, nota-se que, para as crianças acostumadas com violência, é necessário um impulso ainda mais violento para que reaja. Isso mostra que a violência gera violência: que a violência faz com que a pessoa necessite de maior violência. É prejudicial permitir que uma criança de 5 anos seja submetida a programas promíscuos e violentos da tevê. Essa superexposição violenta, para a criança, não é benéfica. Entendo que os meios de comunicação de massa acabam por estimular a forma violenta de viver, a partir do momento em que divulgam tanta violência. A gente, sem querer, acaba sendo envolvido, se habitua com ela, achando que é normal. Coisa que não acontecia com nossos antepassados, quando não havia o aparato da violência que temos hoje diante dos olhos. Chegavam a nós, com muita lentidão, e não com tanta intensidade como ocorre hoje.
Não é educativo apresentar o mundo violento a uma criança. Pois devemos preparar a criança para enfrentar o mundo com todos os outros aspectos violentos.
Mas isso depende do nível de desenvolvimento dessa criança. O que está ocorrendo, e que é prejudicial e que marca as crianças de hoje, é que elas, em etapas de desenvolvimento muito precoce, são submetidas a estímulos muito violentos do meio-ambiente. Conheço crianças com cinco anos de idade que assistem à televisão aos sábados até as quatro da manhã. Assistem a programas extremamente violentos e promíscuos. Isso não pode fazer bem para a criança. Deve haver uma adaptação. Precisamos tomar consciência de que todos nós, adultos, devemos lutar contra a violência. Estou percebendo que se nós não tomarmos essa atitude, vai ocorrer uma verdadeira autodestruição.
Uma questão que preocupa muito é a do castigo. Bater, dar palmadas, vários psiquiatras veem a questão das palmadas de duas maneiras, ambas decorrentes da estrutura familiar. Há famílias que são de uma permissidade muito grande para a criança. Elas não ajudam a criança a saber manejar seus impulsos agressivos, ou mesmo seus impulsos sexuais. E há outras famílias que são extremamente rígidas e que, também pela sua rigidez, não permitem que a criança saiba também manejar seus impulsos. Uma das necessidades básicas infantis é a disciplina, no bom sentido, e isto consiste em saber dar limites aos filhos. Se nós temos hoje tanta agressividade com jovens, é porque, possivelmente, os pais não souberam dar limites e, com isso, as crianças se tornam muito agressivas, onipotentes. Perdem o senso dos limites. Pensam que podem, inclusive, manejar com a vida dos outros. Penso que isso se deve a condutas agressivas assimiladas pela criança. Faltaram atitudes firmes, de parte dos pais. As vezes, os pais também perdem o controle e acabam batendo nos filhos de uma forma até violenta. Quando isso ocorre, eles têm que manter a coerência, sem, em seguida, mimar o filho.
Se eles acariciam o filho depois de uma surra, ele vai aprender a desobedecer, para ser beneficiado com o carinho posterior. Não há nada de errado em um pai perder a paciência e, vez por outra, dar uma palmada no filho. O que ele deve fazer é conservar, com firmeza, esta atitude.
Essa atitude firme tem que ser compartilhada pelo pai e pela mãe, evitando que um bata e o outro acaricie. Por que deve haver uma coerência de atitudes entre pais. Porque senão, vai ocorrer um fenômeno chamado dissociação, no qual um dos pais fica sendo carrasco ou mau e ruim, e outro bom e excelente. Isso só pode gerar intranquilidade para a criança.
A questão dos brinquedos violentos é polêmica. De um lado, temos a sociedade consumista que oferece as armas de todos os portes, e de todas as formas. Desde uma simples faca, até o mais sofisticado foguete. Tudo em miniatura. Sou de uma posição intermediária. Penso que o ideal seria o que ocorreu comigo: "Eu tinha meus brinquedos agressivos, eu tinha meus bodoques, minhas espadas, mas nós não fazíamos deste brinquedo algo como a meta principal. A gente jogava futebol e fazia outras coisas e se exercitava ao máximo desenvolvendo todas as capacidades motoras.
Acho que há necessidade de revisarmos a carga de instrumentos agressivos que colocamos ao alcance destes menores. Um hiperarmamento é prejudicial."
Alguns brinquedos agressivos são, entretanto, necessários para a criança, pois precisa extravasar a sua agressividade. Mas isso deve ser feito de uma forma adequada. O equilíbrio é aconselhável. Criança não pode passar o dia todo com brinquedos eletrônicos. É um perigo.
   



Conclusão

A conclusão que podemos tirar, é de que, a violência está cada vez maior.
Achamos que, algumas causas da violência são:

  • a exclusão;
  • as drogas;
  • a falta de atendimento às necessidades básicas, como saúde, educação e lazer.
A não venda de armas pode diminuir as estatísticas da mesma.
No mais, achamos que uma coisa que podemos fazer é criar nossos filhos de maneira correta, tentando educá-los para que nunca sejam violentos.
Temos que lutar juntos contra a violência na sociedade brasileira. Senão o que será do dia de amanhã?  


Bibliografia  

  • Livro: O que é Violência Urbana
  • Autor: Regis de Morais
  • Jornal: Mundo Jovem
  • Jornal: Zero Hora
  • Jornal: Correio do Povo

TEOLOGIA E ESPIRITUALIDADE


UM CERTO JOSÉ

                  UM CERTO JOSÉ


             
                    
 OLÁ, AMIGOS DE  TEOLOGIA E ESPIRITUALIDADE!
      No mês de março os católicos comemoram o dia de São José.

    São José ou José de Nazaré ou José, carpinteiro é, segundo o Novo Testamento, o esposo de Maria e o pai de Jesus.

    Descendente da casa real de Davi, é  venerado como santo pela Igreja Ortodoxa, Igreja Anglicana e Igreja Católica que o celebra como seu padroeiro universal. A Liturgia Luterana também dedica um dia – 19 de março – à sua memória, sob o título de “Tutor de Nosso Senhor”.

     Operário, é tido como “Padroeiro dos trabalhadores”, e, pela fidelidade a sua esposa e dedicação paternal a Jesus, como “Padroeiro das Famílias”, emprestando seu nome a muitas igrejas e lugares ao redor do mundo.

    Nesta oportunidade aproveitamos para divulgar um texto publicado pela revista Veja em 21 de dezembro de 2005, de autoria de Roberto Pompeo de Toledo, intitulado “Um certo José”.

     O texto abordava a pessoa de José, e provocava uma reflexão bem apropriada tendo em vista às vésperas do Natal.

    Antes do texto há uma exortação exatamente nesse sentido: “ Pensemos nesse Natal em sua figura quieta, singela, trancafiada em sua solidão, e talvez, em sua tristeza.”

    Direi: “Pensemos neste mês de março, em José de Nazaré, o carpinteiro...”

    Com vocês o instigante texto de Roberto Pompeo de Toledo.

Boa leitura e boas reflexões!


UM CERTO JOSÉ



     No Natal garantem-lhe um lugar. É quando ele assume seu posto no presépio, junto com a mulher, o menino, o burro, a vaca, os pastores e os misteriosos personagens chamados “reis magos”. É um dos poucos papéis que lhe atribuem. A rigor, um de apenas dois papéis – o outro é o de comandar a fuga da família para o Egito. Depois ele desaparece dessa história, talvez a mais conhecida do mundo, sem deixar rastro. Não avisam se morreu ou se foi embora. Ele é produto de dois roteiristas desatentos que, mal nos dão conta de sua existência, mudam de assunto e se esquecem dele sem remédio.






     Estamos falando de José, o esposo de Maria, mãe de Jesus – um estranho personagem, que se imagina solitário e taciturno, talvez triste, algo desamparado, mas cumpridor. Os dois roteiristas desatentos são os evangelistas Mateus e Lucas, os únicos a tratar da infância de Jesus. Mateus ainda lhe dedica um pouco mais de cuidado, e descreve seu incômodo ao saber que a mulher, que nunca tocara, estava grávida. É o melhor momento de José, o mais humano, o travão do marido traído a amargar-lhe a garganta – e a doer-lhe na testa. Estava ele ruminando sua infelicidade e o troco que iria dar a Maria – repudiá-la, ainda que discretamente, sem expô-la à execração pública – quando lhe aparece, em sonho, o Anjo do Senhor e informa que a gravidez era obra do Espírito Santo. Ah, bom, se é assim... José conforma-se a seu destino de marido de conveniência e pai de mentira.

     Grande coisa, diriam os mais céticos. Contando com a intimidade do Anjo do Senhor e as privilegiadas informações que este lhe sussurrara em sonho, quem ousaria agir diferentemente? Não nos deixemos corromper. O fato é que José era bom. O melhor dos homens. É possível supô-lo dia após dia em sua oficina de carpinteiro, silencioso, modesto, enquanto no filho despontavam excêntricos dotes e a mulher resplandecia no prestígio sem paralelo de ter dado à luz sendo virgem. 
     Nos primeiros mil anos de cristianismo, José não mereceu homenagens da Igreja Católica. Só em 1129 surge a primeira igreja a ele dedicada – em Bolonha, na Itália. Na famosa Legenda Áurea, um repositório de vidas de santos escrito por Jacopo de Varazze no século XIII, José nem foi incluído. Seu culto só começa de verdade no século XV, graças às pregações de São Bernardino de Siena, Jean de Gerson e outros. Nesse mesmo século o papa Sisto IV (1471-1484) finalmente o encaixa no calendário romano, reservando-lhe a data de 19 de março.
   José é desses personagens concebidos para resolver certos problemas no enredo. Logo na abertura do Evangelho de Mateus, ele resolve o primeiro, o de estabelecer uma conexão entre Jesus e Davi. Mateus apresenta uma genealogia que começa com Abrão, chega a Davi, e de Davi, 27 gerações depois, deságua em José. Cumpria-se assim a profecia de que o Messias nasceria no tronco de Davi, aparentemente tão necessária para convencer os incréus que para esse efeito o evangelista esquece de que José não era um pai de verdade. Outro problema que ele ajuda a resolver é o das várias menções, no Novo Testamento, aos “irmãos de Jesus”. Como a Igreja fazia questão de preservar a virgindade de Maria, mesmo depois do parto, surgiu a solução de atribuir os tais irmãos a um casamento anterior de José. Esta tese concorre com outra, mais favorecida pela Igreja Católica, segundo a qual, quando nos Evangelhos está escrito “irmãos”, deve-se ler “primos”. 
     Sobretudo, José resolve o problema de completar uma família em torno de Jesus. Esta a sua grande função no presépio: a de celebrar as virtudes da família nuclear, tão prestigiosa, no seu caso, que passa (e isso acontece na mesma época em que começa a ser cultuado) a se chamar de “sagrada”. Não menos de acordo com as realidades da vida é a família da mãe sozinha, e isso não só no tempo de Jesus com em todos os outros, o nosso inclusive. No Brasil, a cada quatro famílias, uma tem a mulher no comando. Mas um marido foi julgado necessário, mesmo que a mulher prescindisse de seus préstimos para gerar filhos, e lá foi José, obsequioso como era de sua natureza, assumir o encargo, ainda que intimamente talvez mortificado, ferido em seus brios de varão e de macho. Assim que se cumprem os relatos da infância de Jesus, ele desaparece de cena. Teria agora abandonado a família, assim como tantos pais? Prefere-se, em seu favor, imaginar que morreu. E se morreu, babau. Morreu tão completamente que os evangelhos não se deram ao trabalho de noticiar-lhe a morte.
     José é, por excelência, aquilo que no teatro e no cinema se chama de ator coadjuvante. Sua função é criar condições para que os outros brilhem. É uma função que exige nobreza de sentimentos, essenciais que lhe são a renúncia e o sacrifício. Pensemos em José, neste Natal, quieto em seu canto, rústico, singelo, trancafiado em sua solidão e seu sacrifício, talvez também em sua tristeza. Por uma vez, pensemos em sua morte, ao contemplar as figuras do presépio.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014


"ZELOTA - A VIDA E A ÉPOCA DE JESUS DE NAZARÉ"



"ZELOTA - A VIDA E A ÉPOCA DE JESUS DE NAZARÉ





Olá, amigos de “TEOLOGIA E ESPIRITUALIDADE”


Desde o segundo semestre do ano passado aguardávamos o lançamento no Brasil da obra de Reza Aslan – “Zelota, a vida e a época de Jesus de Nazaré”.

O livro despertou meu interesse por si mesmo, uma vez que a temática sobre o Jesus histórico é de sumo interesse para mim e foi através desse estudo que iniciei minha caminhada acadêmica desde 2004.

Logo no início da obra, o autor coloca um depoimento de sua vida pessoal com o qual muito me identifiquei. (Nota do autor, pag. 11 à 15)

Assim como eu, ele quanto mais estudava a Bíblia, percebia “a distância entre o Jesus dos evangelhos e o Jesus da História”.

Nos estudos a nível superior, ele tanto quanto eu, e tanto quanto a outros estudiosos, percebeu que “a Bíblia está repleta de gritantes e evidentes erros e contradições tal como seria de esperar de um documento escrito por centenas de mãos diferentes através de milhares de anos”.

Ele, tanto quanto eu, mergulhou durante sua vida acadêmica, no estudo da Bíblia “não como um crente incondicional, mas como um estudioso inquisitivo”.

Quanto mais ele “aprendia sobre a vida do Jesus histórico, o mundo turbulento em que ele viveu e a brutalidade da ocupação romana que ele desafiou, mais era atraído por ele”. O que também aconteceu comigo.

Mais adiante (Introdução – pag. 23) Reza apresenta o objetivo de seu livro:


“Este livro é uma tentativa de recuperar, tanto quanto possível, o Jesus da história, o Jesus antes do cristianismo: o revolucionário judeu politicamente consciente que, há 2 mil anos, atravessou o campo galileu reunindo  seguidores para um movimento com o objetivo de estabelecer o Reino de Deus, mas cuja missão fracassou – ele foi preso e executado por Roma pelo crime de sedição. É também sobre como, após Jesus ter fracassado em estabelecer o Reino de Deus na terra, seus seguidores reinterpretaram não só a missão e a identidade de Jesus, mas também a própria natureza e definição do messias judeu.”


O autor consegue plenamente e com brilhantismo realizar sua intenção de “divulgar conteúdos que já são conhecidos dos estudiosos da Bíblia e difundi-los junto a um público mais amplo do que o acadêmico”.

Nessa nova postagem, reunimos material de várias entrevistas dadas pelo autor depois que sua obra se tornou o assunto do dia, publicadas em revistas e jornais e a transcrição de sua entrevista no programa da Globo News – “Milênio”  transmitida em 24/01/2014.


Boa leitura!



REZA ASLAN: UM MUÇULMANO CONTA A HISTÓRIA DE UM JESUS REBELDE

AUTOR DE UM POLÊMICO LIVRO SOBRE A VIDA DE JESUS CRISTO, O AMERICANO REZA ASLAN AFIRMA QUE O FILHO DE MARIA FOI O MAIOR REVOLUCIONÁRIO DE TODOS OS TEMPOS

            Reza Aslan é um acadêmico, com mestrado em Teologia na Universidade de Harvard e doutorado em História das Religiões na Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara, mas seu livro “Zelota – a vida e a época de Jesus de Nazaré” (308 páginas, Zahar Editora) conquistou o grande público. Razões alheias ao seu conteúdo contribuíram para que a obra virasse best-seller nos EUA.

           
            No dia 26 de julho de 2013, dez dias após o lançamento norte-americano do livro, Aslan foi hostilizado por Laura Green, âncora da emissora conservadora norte-americana Fox News. 

        Ele fora convidado para falar sobre seu livro: um polêmico ensaio em que afirma que Jesus foi um revolucionário. “Você é muçulmano, então por que escreveu um livro sobre o fundador do cristianismo?”, perguntou a apresentadora. Reza Aslan, calmo, sem se descompor, explicou-lhe que ele é “um estudioso das religiões, com quatro graduações, incluindo uma sobre o Novo Testamento, com fluência em grego bíblico, que estudou as origens do cristianismo por duas décadas e que, sim, é muçulmano”.







            A apresentadora, porém, não desistiu; continuou lhe fazendo a mesma pergunta, sugerindo que o estudioso expressou no livro opiniões baseadas na sua fé e não nas suas competências acadêmicas.

            A entrevista se tornou viral: desde o dia 26/07/2013, ela foi vista milhões de vezes na internet. Uma publicidade que ajudou as vendas, tanto que a Random House, a editora, já imprimiu mais 50 mil cópias, de um total de 150 mil.



       “Ser atacado de falta de jesusidade por uma âncora da Fox News é aparentemente um bom caminho para conduzir seu livro ao número 1 das listas”, comentou Adam Gopnick, na revista “New Yorker”.
O OUTRO JESUS
TRECHOS DA REPORTAGEM DE MASSIMO VINCENZI,  PUBLICADA NO JORNAL LA REPUBLICA, EM 03 de dezembro de 2013

Reza Aslan, 41 anos, leciona na Universidade da Califórnia. Escritor e jornalista nascido no Irã, chegou aos Estados Unidos com a família depois da revolução de Khomeini. Seu livro foi publicado também na Itália agora com o título “Gesù il ribelle” e nos EUA ele domina a lista dos mais vendidos há meses, começando pelo New York Times, que se levantou em defesa do autor.


A ideia do livro é de contar a figura de Cristo, separando a verdade histórica do mito posterior. Uma operação amplamente explorada por outros no passado, mas convincente, com uma narrativa fluida, sem nunca ferir a sensibilidade do leitor, mesmo o mais religioso. Não há provocação, não há sarcasmo, mas apenas a vontade de entender.


       Em relação à entrevista concedida à Fox News Reza Aslan declarou:

“Também foi minha culpa, eu devia esperar pelo que aconteceu, afinal aquela rede de TV construiu o seu sucesso sobre posições muito conservadoras e radicais: o medo do Islã é uma das suas marcas registradas. Mas o que me impressionou foi a maneira inexorável com que eu fui atacado. A apresentadora nunca fala do livro, eu nunca conseguia expor as minhas teses: elas não lhe interessavam, ela só queria me colocar em apuros, expor-me ao ridículo. E é o mesmo modo com que sou agredido nas redes sociais: ninguém nunca entra no mérito das minhas ideias. Só insultos baseados em estereótipos”.


       Ele também explicou porque como estudioso optou por se ocupar de Jesus Cristo, sobre o qual há uma vasta produção literária:

“Jesus é a pessoa mais importante dos últimos 2 mil anos, está na base da civilização ocidental. Eu queria separar a sua realidade histórica do mito religioso, que é posterior. Eu queria explicar como um agricultor pobre e analfabeto conseguiu fundar um movimento revolucionário em defesa dos deserdados e dos marginalizados, chegando a desafiar de maneira direta o poder romano e das hierarquias judaicas. Interessava-me imergir o Cristo na sua época, ver suas ações relacionadas com os eventos daquele período: ações e reações. Porque, se pensarmos na sua dimensão religiosa, é óbvio que não existe o tempo, as suas palavras e as suas ações são eternas, valem sempre e para sempre. Eu queria contar o homem, não Deus”.


Indagado sobre como trabalhou para escrever o livro, Aslan informou:

Comecei as pesquisas há 20 anos, primeiro como estudante, e depois como professor. Usei as fontes diretas da época, traduzi as versões originais do Novo Testamento: me movimentei segundo os critérios científicos que geralmente se usamos na universidade para qualquer pesquisa. Depois, coloquei tudo o que encontrei no relato, tentando fascinar o leitor, levá-lo para dentro da fantástica vida de Jesus. Mas cada linha que eu escrevi está documentada.

Perguntado sobre se acompanha a ação do Papa Francisco, Aslan declarou:


“Certamente, sou um entusiasta. Fui formado pelos jesuítas, e o método que eles me ensinaram me levou a me apaixonar pelo Jesus histórico, antes ainda do que o religioso. O meu livro está alinhado com a sua formação: ela relata um Cristo atento principalmente aos pobres, à sua libertação, à sua salvação. Se o Papa conseguir, como está conseguindo, se manter fiel às suas origens, ele trará à Igreja uma transformação nunca antes vista. É o retorno a uma vida sob o sinal da vocação, longe da burocracia do poder: o seu exemplo será revolucionário. Eu tenho certeza disso”.

UM MUÇULMANO CONTA A HISTÓRIA DE UM JESUS REBELDE

TRECHOS DA REPORTAGEM DE VIVIANA MAZZA, PUBLICADA NO CADERNO LA LETTURA, DO JORNAL  CORRIERE DELA SERA, EM 11 DE AGOSTO DE 2013:


O livro de Aslan vai em busca da figura histórica de Jesus: não o filho de Deus contado nos evangelhos, mas sim o judeu analfabeto do pobre vilarejo de Nazaré, que chamou o seu povo a se rebelar contra a ocupação romana e os sacerdotes do templo. As suas fontes são livros, artigos e pesquisas de outros estudiosos e documentos históricos da época   (30% de “Zealot – The life and times of Jesus of Nazareth” é dedicado às notas e à bibliografia).
            






O autor, que leciona tanto escrita criativa quanto estudos religiosos na Universidade da Califórnia em Riverside, não muito longe de Los Angeles, explica que a sua intenção é divulgar conteúdos que já são conhecidos dos estudiosos da Bíblia e difundi-los junto a um público mais amplo do que o acadêmico. O resultado – observa – é que, de um lado, há aqueles que acham o meu livro controverso e chocante, e, de outro, aqueles que lamentam que não há nada de novo”.


Certamente, o livro de Aslan contradiz diversos ensinamentos do Novo Testamento. O seu Jesus não é filho de uma virgem, mas (talvez) de uma mãe solteira; tem vários irmãos e irmãs e (talvez) uma esposa; mas, acima de tudo, não morreu pelos nossos pecados, mas foi eliminado porque era um revolucionário nacionalista que queria subverter a ordem religiosa, econômica e política.


Aslan explica: “Jesus, o homem, é uma figura incrível. Ele ousou desafiar o maior império do mundo e perdeu, mas fez isso em nome dos pobres, dos fracos, dos deserdados”.





















JESUS ERA COMO OS OUTROS MESSIAS


TRECHOS DE ENTREVISTA DE REZA ASLAN À REVISTA ÉPOCA DE DEZEMBRO DE 2013


Época – O senhor defende em seu livro uma tese polêmica: o Jesus histórico foi um revolucionário. O senhor acredita que Jesus estava mais pra Che Guevara que para Ghandi?


Reza Aslan – Jesus foi o maior revolucionário de todos os tempos. As pessoas têm dificuldade de compreender isso porque veem o Cristo da religião com o olhar do nosso tempo. No tempo de Jesus, não havia separação entre política e religião. Ambas eram a mesma coisa. 

         É incorreto dizer que Jesus era só um líder espiritual ou só um líder político. Ele era os dois. Toda e qualquer palavra proferida por Jesus tinha implicações políticas, por mais espirituais que fossem. 


       Nesse livro, tento tirar as camadas de teologia, misologia, lenda e doutrina que se sobrepuseram ao Jesus histórico. Quis compreender o mundo em que Jesus viveu. Meu livro é sobre as implicações das palavras de Jesus em seu mundo, em seu tempo. É também sobre as diferenças entre Jesus de Nazaré e o Cristo da fé, criado pelos evangelhos e pela Igreja.


Época – Qual a diferença entre o Jesus histórico e o Cristo da fé?

Reza AslanO Jesus da história era um judeu pregando o judaísmo para outros judeus. O Cristo da fé, aquele que lemos nos Evangelhos e na teologia cristã, é alguém divorciado do judaísmo, alguém pregando uma nova fé, uma nova religião. 

        Jesus proclamava-se o Messias, mas, quando dizia isso, se referia ao messias do judaísmo. Se Jesus de fato pensasse ser o Deus encarnado, teria sido o primeiro judeu da história a pensar assim. Porque o conceito de um homem divino viola 5 mil anos de história, tradição e religião judaicas. Não é plausível que Jesus se considerasse um Deus encarnado.


Sobram duas opções:
Ø Jesus nunca disse isso e era como todas as outras centenas de messias de seu tempo;

Ø Jesus acreditava nisso e era absolutamente único, diferente de todos os judeus que vieram antes ou depois dele.






     Como historiador, acredito que Jesus era como todos os outros messias de seu tempo e nunca disse ser o Deus encarnado do Novo Testamento.


Época – E por que Jesus inspirou tantos a segui-lo?

Reza Aslan – Isso tem menos a ver com espiritualidade e mais com os ensinamentos de Jesus. São ensinamentos únicos e extraordinários. Jesus teve uma visão de uma nova ordem mundial, em que ricos e pobres trocariam de lugar. Os primeiros se tornariam os últimos, e os últimos se tornariam os primeiros. O apelo dessa mensagem depois da morte de Jesus se perpetuou menos pelo que Jesus disse ou fez e mais pelo que seus discípulos escreveram e disseram sobre ele.


Época – Então a mensagem de Cristo foi reinventada?

Reza AslanOs seguidores de Jesus, os homens que escreveram os Evangelhos anos ou décadas depois de sua morte, tentaram esconder ou amenizar o aspecto político da vida de Jesus.

Primeiro, porque Jesus falhou em sua missão. O que sabemos de fato sobre Jesus? Que ele era judeu, que começou um movimento judaico no século I e, como resultado desse movimento, foi condenado à morte na cruz por crimes contra o Estado (Roma). As ambições políticas de Jesus, falharam.

Segundo, a definição de messias, no tempo de Jesus, era um descendente do rei Davi, que restabeleceria o Reino de Davi na Terra. Se você diz ser um messias e morre sem restabelecer o Reino de Davi, você não é um messias. Todos os outros messias, e forma centenas, prometeram restabelecer o reino de Davi. Foram tão bem sucedidos quanto Jesus. Nenhum cumpriu a promessa, e todos foram chamados de falsos messias.

A diferença é que os seguidores de Jesus tentaram dar um sentido a sua falha, mudaram o significado de messias, o deixaram menos judeu, mais espiritual, Quando fizeram isso, o tornaram mais atraente para os não judeus.


Época – De que forma?

Reza Aslan - Jesus foi condenado à crucificação por crimes contra o Estado. Roma reservava a crucificação a crimes contra o Estado.

Como convencer Roma a aceitar um movimento de um homem que pretendia tirar Roma do poder? Basta dizer que o reino prometido por Jesus não era o terreno, mas sim o divino, que Jesus não tinha ambições políticas, não ameaçava o Império Romano. Assim, você diz que é possível ser cristão sem ser uma ameaça ao Estado.

Todas essas mensagens foram incorporadas ao cristianismo e ajudaram em sua expansão. Décadas depois da morte de Jesus, os seguidores não judeus de Cristo superaram os seguidores judeus. Cem anos depois, não havia quase ligação alguma entre o cristianismo e o judaísmo. E, pelos 2 mil anos, o cristianismo tem sido uma religião que confortavelmente se casa com o Estado. Como faz isso? Proclamando que não tem interesse em governar este mundo, não se apega às coisas terrenas.


Época – As críticas mais contundentes a seu livro dizem que o senhor usou as fontes de pesquisa que melhor se adaptavam à suas teses e descartou as demais. Qual foi seu critério?

Reza Aslan – Essa é uma crítica feita por não especialistas. Os leigos olham para os evangelhos e acham que tudo o que está escrito em Mateus, Marcos, Lucas e João é igualmente válido. Isso é um absurdo.

Há 200 anos definiu-se uma metodologia de estudo para saber o que é confiável do ponto de vista histórico nos Evangelhos. Para o leigo, parece que escolho apenas o que me interessa. Mas fui metódico. Não usei o evangelho de João como fonte de pesquisa, porque ele é tardio, escrito quase um século depois da morte de Jesus. Usei apenas o evangelho de Marcos, visto universalmente como o mais preciso historicamente.

Os evangelhos não são história, não são fatos. São argumentos teológicos. Minhas fontes foram os documentos históricos sobre o tempo em que Jesus viveu e partes comprováveis dos Evangelhos. Rejeito as histórias da natividade, a fuga da família de Jesus para o Egito e outros acontecimentos imprecisos. Tais histórias são lendas e mitos.


Época - Sua entrevista na Fox News se espalhou pela internet. O que o senhor pensou quando Laura Green perguntou sobre um muçulmano escrever sobre Jesus?

Reza Aslan – Fiquei surpreso  mas depois entendi. Há um sentimento antimuçulmano em níveis sem precedentes na história dos EUA. Em nenhum lugar isso é mais óbvio que na Fox News. É uma emissora que alimenta o medo como receita de sucesso. 

   Existem milhões de pessoas que não conseguem compreender que a religião é um estudo acadêmico. São pessoas que confundem o estudo da religião com a fé individual. Religião também é uma disciplina acadêmica. Uma disciplina em que muçulmanos escrevem sobre hindus, e hindus escrevem sobre cristãos e cristãos escrevem sobre judeus. Isso é totalmente normal. Somos historiadores.


NÃO VIM TRAZER A PAZ, MAS A ESPADA


TRECHOS DA REPORTAGEM DE REINALDO JOSÉ LOPES, PUBLICADA NO JORNAL FOLHA DE SÃO PAULO, DE 24 DE NOVEMBRO DE 2013

Livro de autor norte-americano de origem iraniana defende que as pregações de Jesus convocando o “Reino de Deus” sejam lidas de forma mais literal e revolucionária que espiritual.


 “Não penseis que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas a espada. Vim trazer divisão entre o homem e seu pai, entre a filha e sua mãe”, declara Jesus no capítulo 10 do Evangelho de Mateus.

Durante séculos, a maioria dos cristãos interpretou a frase belicosa do Nazareno de modo espiritual. Afinal, se levadas ao pé da letra, as exigências de Cristo para abandonar riquezas, casa, pais e filhos para segui-lo não estão entre os assuntos mais agradáveis para um almoço familiar de domingo.



     Eis, em essência, a premissa de “Zelota: a Vida e a Época de Jesus de Nazaré”, novo livro de Aslan que acaba de ser lançado no Brasil: Jesus não era um mestre pacifista, que só pensava em exaltar as virtudes dos lírios do campo e oferecer a outra face.



O principal objetivo do profeta de Nazaré, fomentar a vinda do “Reino de Deus”, equivalia a um programa político (e revolucionário), que envolvia a expulsão dos romanos da Palestina e a recriação da antiga e gloriosa monarquia israelita, com o próprio Jesus no trono, sob as bênçãos de Deus.


Daí o nome do livro: zelota (do grego “zelotes”) é como os autores bíblicos denominavam os judeus especialmente zelosos das prerrogativas religiosas do Deus de Israel – uma divindade que, ao menos no Antigo Testamento, era capaz de uma aterrorizante fúria militar contra os inimigos dos israelitas. Mais tarde, o termo seria usado para designar uma seita revolucionária judaica.


“Vamos colocar a coisa da seguinte forma: há aqueles que acham que Jesus era total e absolutamente único, diferente de todos os judeus de seu tempo. E há os que acham que, embora ele fosse extraordinário e inovador, ainda assim seu pensamento tinha muito em comum com o de outros judeus. Eu faço parte desse segundo grupo”, explicou Aslan, em entrevista por telefone.


“Os demais judeus do século 1º d. C. acreditavam que o Messias era um descendente do rei Davi cujo trabalho seria derrotar os inimigos de Israel e implantar o Reino de Deus na Terra. Acredito que essa era a visão que Jesus tinha sobre si mesmo”.

A abordagem do escritor é, em grande medida, uma espécie de “retorno ao básico” na pesquisa histórica sobre a figura de Jesus Cristo.

Um dos primeiros intelectuais a tentar uma interpretação secular para entender quem foi o Nazareno, o alemão Samuel Reimarus (1694-1768), já defendia que os objetivos de Jesus eram basicamente políticos.

Aslan diz que não há muito mistério sobre o por que desse aparente fracasso acadêmico. “Fora do Novo Testamento, simplesmente não há nenhum traço de evidências a respeito de Jesus que seja do século I d.C.”, afirma.

Creio que até existe algum consenso, mas ele é muito limitado. Podemos dizer que Jesus era um judeu, que iniciou um movimento para os judeus da Palestina, e que Roma o executou como inimigo do Estado. E é só”, diz Aslan. 

    “O que conseguimos fazer é pegar esse pouquinho e colocá-lo no contexto do mundo no qual Jesus viveu, sobre o qual sabemos muita coisa. Sempre há a possibilidade de que alguma nova descoberta arqueológica mude esse cenário. Mas por enquanto isso não aconteceu”.


Diante de tal pobreza de dados, talvez não seja surpreendente que haja hoje no mercado uma variedade enorme de interpretações sobre Jesus.

“Não acho que eu esteja explorando algum terreno realmente novo na questão”, pondera Aslan. “Consegui apenas reunir os principais dados e argumentos de uma maneira coerente e que pode ser compreendida pelo leitor não especializado”.

Apesar da modéstia, Aslan teve peito para defender posições controversas mesmo para os padrões da pesquisa sobre o Jesus histórico. 


 Ele vê a célebre “purificação do Templo” (episódio no qual Jesus expulsa cambistas e vendedores de animais do local mais sagrado de Jerusalém) como um ataque político direto à corrupção da elite sacerdotal judaica, aliada a Roma, coisa com a qual muitos outros estudiosos concordam.






















      Mas vai além e argumenta que a passagem na qual Jesus diz “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” é, na verdade, uma frase sutilmente subversiva. Da mesma forma, a ideia de “oferecer a outra face” seria aplicável apenas a irmãos judeus, não a pagãos ocupando Jerusalém, ou a qualquer outro não judeu.


“O judaísmo era tudo que Jesus conhecia e pregava. Ele mesmo afirmou que não veio para abolir nem uma só letra da Lei de Moisés”, diz Aslan. “O mandamento de amar o próximo já estava presente no judaísmo, mas valia apenas para membros da comunidade de Israel”.



PROGRAMA MILÊNIO – 27/01/2014

ENTREVISTA DO HISTORIADOR REZA ASLAM
POR JORGE PONTUAL




Os evangelhos contam a história de Jesus Cristo. Mas o que dizem outras fontes sobre quem foi realmente Jesus – o Jesus histórico? Pouquíssimos documentos sobreviveram à passagem dos milênios, mas desde o século XIX pesquisadores trabalham para responder à pergunta.

O historiador da Religião Reza Aslan, reuniu as principais conclusões no livro “Zelota, a Vida e o Tempo de Jesus de Nazaré”. Um best-seller nos Estados Unidos, o livro provocou a ira de fundamentalistas cristãos que atacaram Aslan: “Como é possível que um muçulmano fale sobre Jesus?”

De passagem por Nova York, Reza Aslan, o jovem americano de origem iraniana, que vive na Califórnia, recebeu Milênio para defender a sua versão de quem teria sido o Jesus histórico.

Jorge PontualO que o levou a estudar o Jesus histórico?

Reza Aslan – Ouvi a história do evangelho pela primeira vez aos quinze anos, numa colônia de férias evangélica ao norte da Califórnia, essa mensagem do deus do céu e da terra, descendo na forma de um bebê e morrendo por nossos pecados e de que quem também acredita nele também terá a vida eterna. Eu nunca tinha ouvido nada parecido na vida. Foi uma experiência transformadora. Eu me converti e virei cristão evangélico e passei os quatro ou cinco anos seguintes pregando essa mensagem a todos que eu conhecia. 

    Quando entrei na faculdade decidi que meu trabalho seria estudar o Novo Testamento e foi nesse momento que eu tive a experiência que acho muita gente na mesma situação tem: a percepção de que muita coisa que eu julgava saber sobre Jesus era incompleta, senão incorreta. Que há um abismo entre o Cristo da fé ao qual fui apresentado na Igreja e o Jesus histórico sobre quem eu aprendia na Universidade. E fiquei mais interessado no Jesus histórico. Ele se tornou mais real pra mim, mais acessível e até mais simpático. O livro surgiu disso. Eu quis escrever sobre esse homem.


Jorge Pontual - Como acadêmico de estudos religiosos como construiu o seu Jesus histórico?

Reza Aslan – Em relação à minha formação, tenho vários diplomas em História e Sociologia das Religiões. Eu me especializei no que se chama hoje de religiões ocidentais ou abraâmicas: Islamismo, Judaísmo e Cristianismo e me interesso principalmente pelas questões das origens das religiões. Meu primeiro livro era sobre a origem do Islamismo. Esse é sobre as origens do Cristianismo. 

     Embora eu queira deixar claro, que o livro Zelota, não é sobre o Cristianismo porque Jesus não era cristão, ele era judeu. É um livro sobre o Judaísmo e o que eu diria a quem me pergunta qual é a diferença entre o Cristo da fé e o Jesus histórico é que a principal diferença é que o Jesus histórico era um judeu pregando o judaísmo a outros judeus. Quando você se dá conta disso, surge uma nova forma de pensar sobre quem foi esse homem.

Jorge Pontual – Mas você descobriu alguma prova nova, algo que as pessoas desconheciam?

Reza Aslan – A busca pelo Jesus histórico tem uns 200 anos. Faz dois séculos que os estudiosos tem procurado pelo Jesus histórico. Então, para ser franco, a essa altura há muita pouca novidade a ser dita sobre Jesus com exceção de algumas descobertas arqueológicas. 

      A última grande descoberta que fizemos foi a dos Manuscritos do Mar Morto e a dos Evangelhos Gnósticos que nos ensinaram muito sobre a enorme diversidade existente no cristianismo dos séculos II e III. Mas infelizmente elas não revelaram muito sobre o Jesus histórico. Já os Manuscritos do Mar Morto que foram escritos por judeus que compartilhavam vários sentimentos de Jesus e que foram escritos mais ou menos na época em que Jesus viveu geraram uma nova forma de pensar o mundo em que Jesus viveu. 


        Portanto o meu principal recurso para reconstruir a vida e a época de Jesus foi o próprio mundo dele. O que tento fazer é destilar esse debate de 200 anos que só acontece na academia, apenas entre estudiosos, e torná-lo acessível e atraente a um público mais abrangente. Quero que todo mundo se envolva nessa discussão. 


Jorge Pontual – Quem eram os zelotas? Jesus era um deles?

Reza Aslan – O fenômeno dos zelotas era comum na época de Jesus. A maioria dos judeus, no mundo de Jesus provavelmente diria que zelava pelo nome de Deus.

O termo zelo é na verdade um princípio bíblico e significa principalmente uma devoção inflexível à autoridade suprema de Deus. É uma recusa a servir a qualquer outro mestre que não seja o Senhor do Universo. E é algo que está no coração da Torah que diz que a terra que Deus separou para os seus escolhidos não pode ser ocupada por mais ninguém.

Para Jesus e os outros judeus isso era um conflito muito real. Eles viviam numa terra que estava sob uma ocupação brutal e sangrenta de um império romano pagão. O zelo forçava, obrigava os judeus a defenderem a sua terra contra esse império pagão. Então, muitos judeus, a maioria eu diria, provavelmente se autodenominariam zelotas, com orgulho, mas alguns zelotas, realmente, radicalizaram. Enfrentaram tanto o império romano quanto os colaboradores judeus, a elite rica e aristocrática que apoiava a ocupação romana. E o argumento do livro é que quando você analisa os ensinamentos e as ações de Jesus, o fenômeno dos zelotas era amplamente difundido, era impossível de ser esquecido.

Jorge Pontual – Como você separa os ensinamentos do Jesus histórico do que foi adicionado aos evangelhos?

Reza AslanÉ importante entender que os evangelhos não são relatos de testemunhas oculares de acontecimentos históricos. São argumentos teológicos escritos por fiéis, muitos anos depois dos acontecimentos que descrevem.

Em outras palavras, os escritores dos evangelhos já acreditavam que Jesus era o messias, o filho de Deus, o Deus encarnado. Eles escreveram os evangelhos para provar essa crença. E, portanto, os evangelhos  são um argumento, são um lado do debate não uma história, uma biografia nos termos atuais.

Então, o que um estudioso tem de fazer, é pegar as declarações dos evangelhos, e analisá-las segundo o que sabemos sobre a época em que foram escritas e a época que descrevem, que são diferentes, para tentar descobrir o que é e o que não é historicamente correto.

Mas, como eu disse, esse processo existe há muito tempo. As ferramentas à disposição dos estudiosos para decidir o que é e o que não é provável nos evangelhos, existem há muitos anos e a esta altura há uma razoável unanimidade entre os estudiosos em relação ao que é e o que não é mais histórico. Apesar disso ainda há muita discussão. Nem todo mundo concorda em tudo.

Há uma unanimidade em relação a certos versículos e certas passagens que são descartadas pela maioria. Por exemplo, as passagens sobre a natividade, as histórias sobre o nascimento de Jesus que encontramos em Mateus e Lucas, pouquíssimos estudiosos levam aquelas historias à sério.
Jorge Pontual – Pode dar um exemplo desse Jesus revolucionário e uma de suas pregações?

Reza Aslan – Talvez o exemplo mais famoso e um em que a maioria dos estudiosos concorda como sendo historicamente correto, seja a sua declaração sobre o pagamento de tributos

  É uma declaração que a maioria das pessoas conhece, aquele famoso momento em que as autoridades judaicas preparam uma armadilha para Jesus perguntando a ele se é legítimo pagar os imposto a César ou não. O interessante é que os evangelhos dizem que os judeus estavam preparando uma armadilha mas não dizem qual é. Isso porque o público original dos evangelhos sabia exatamente do que se falava. Mas nós, dois mil anos depois não entendemos o contexto.




    A cena é a seguinte: Jesus acaba de entrar triunfante em Jerusalém proclamando-se o novo rei dos judeus. Ele participou de um ato de traição ao expulsar do Templo os cambistas e os animais para o sacrifício. Nesse momento os próprios discípulos reconhecem o fanatismo nas ações de Jesus e relembram o versículo mencionado pelo rei Davi: “O zelo por vossa casa me consome”. Exatamente depois disso as autoridades judaicas decidem fazer uma pergunta para que Jesus se entregue enquanto zelota. Então, vão até ele e perguntam: Rabi, devemos pagar o tributo a César ou não?


Não se trata de uma pergunta simples.  O pagamento de tributos na época de Jesus era o teste definitivo do fanatismo. Simplificando o máximo possível, os zelotas se recusavam a pagar tributo à Roma, porque ao contrário dos impostos que todo mundo pagava dependendo da propriedade que tinha, o tributo era um pagamento extra de um denário, que todos os homens judeus faziam ao Imperador como sinal de sua subserviência à Roma. Era um sinal de que a terra pertencia à Roma. Portanto, todos os homens tinham que pagar essa moeda simbólica.

       A fala seguinte de Jesus ficou famosa:

Mostre-me um denário. Alguém lhe dá uma moeda e ele diz: De quem são o rosto e o nome nessa moeda? Dizem que são de César. E então Jesus diz algo que por muitas gerações desde a Bíblia King James, é entendido não só em inglês mas em muitas línguas, como “Daí a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”.
                
         
Mas não é isso que Jesus diz. A palavra grega que ele usa não significa dar. É na verdade uma palavra composta que significa DEVOLVER. A palavra em si, significa devolver algo a alguém que é dono da coisa. Se eu pegasse algo emprestado com você, eu devolveria. O que Jesus quer dizer é devolva a moeda à César porque é dele! O nome e o rosto dele estão nela. Mas devolva à Deus o que é de Deus, e todo judeu daquela época que ouviu isso sabia exatamente o que era de Deus: a terra era de Deus.

 Portanto, esse se torna o momento em que Jesus se entrega enquanto zelota. E de fato, quase imediatamente depois disso ele se esconde porque os romanos tentam prendê-lo. E ele é levado à justiça logo depois.

Jorge Pontual – Qual era o significado do reino de Deus, para o Jesus histórico?

Reza Aslan – Acho que a maioria dos estudiosos concorda que os ensinamentos de Jesus se baseiam nessa noção do Reino de Deus. Mas muito se discute sobre o que Jesus queira dizer quando falava no Reino de Deus. Mas quando analisamos as primeiras declarações de Jesus, principalmente no evangelho de Marcos, o primeiro escrito por volta do ano 70 d.C., o que percebemos é que Jesus descreve um reino muito real, um reino presente que ele presumia que fosse criado na terra durante a sua vida. Ele diz que há pessoas que não morrerão antes de se verem no reino de Deus criado na Terra.

Entenda que o papel do Messias, como descendente do rei Davi era restaurar o reino de Davi. Então, acho, que quando Jesus se referia ao reino de Deus, também se refere ao reino de Davi. Pra ele os dois são a mesma coisa.

     O reino de Deus para Jesus era uma nova ordem mundial, uma na qual os ricos e os pobres trocariam de lugar. Quem está em cima, desceria, e quem está em baixo subiria. Quando Jesus fala que os pobres herdarão o reino de Deus, os famintos serão alimentados, os que pranteiam se alegrarão, as pessoas esquecem que ele continua falando do outro lado deste argumento: os ricos já receberam consolo, os que tiveram comida, passarão fome, os que riram, chorarão. 


    Jesus, em sua concepção do Reino de Deus, não descreve uma fantasia utópica onde todos são iguais, ele está descrevendo uma realidade assustadora, na qual os pobres e os ricos trocam de lugar, na qual os primeiros serão os últimos. E os últimos serão os primeiros. Ele descreve a inversão da ordem social e como pode imaginar essa era uma mensagem atraente para quem estava na base da escala social, e ameaçadora para quem estava no topo e no final é o que o leva à morte.
Jorge Pontual – Como foi que o Reino de Deus passou a significar algo totalmente diferente – a eternidade, o reino dos céus?

Reza Aslan – É importante entendermos que os evangelhos foram escritos depois do ano 70 d.C. O que aconteceu nesse ano? Como resultado de uma rebelião de zelotas, em 66 d.C., em Jerusalém, os romanos marcharam até a cidade sagrada e a incendiaram, mataram cerca de 100 mil judeus,  e destruíram o Templo,  e o judaísmo deixou de ser um culto legítimo no império romano.

Os cristãos tinham uma decisão simples a tomar: continuar a pregar o evangelho aos judeus que são párias no império romano, ou se concentrar exclusivamente, num público não judeu, ou romano.

Fica bem claro, quando lemos os evangelhos, que eles não foram escritos para um público judeu.

1.  Porque eles foram escritos em grego, não em aramaico, a língua de Jesus; nem em hebraico, a língua dos judeus.

2.  Porque eles descrevem continuamente, rituais judaicos, explicam as coisas judaicas que Jesus e seus seguidores fazem, claramente porque são destinados a um público não judeu.
Mas principalmente, porque se você fosse pregar a um público não judeu teria que fazer três coisas importantes:

1.  Teria que descrever um Jesus, um pouco menos judeu; ou seja, teria que remover o contexto etnonacionalista de seus ensinamentos e transformá-los em princípios éticos abstratos que todos aceitariam independentemente de sua raça ou cultura.
É difícil convencer a um grupo de romanos a se associar a um movimento fundado por um camponês judeu, é preciso torná-lo menos judeu.

2. Precisa torná-lo um pouco menos revolucionário, precisa adaptar as declarações revolucionárias de Jesus.
Novamente é muito difícil convencer os romanos a seguirem um movimento iniciado por um homem cuja motivação era tirar Roma do poder. Não é um argumento muito bom.

É a essa altura que vemos a espiritualização da mensagem de Jesus:

Ø O Reino de Deus não é um reino terreno, é celestial. Jesus não queria mudar o reino terreno. Seu único interesse era o reino dos céus.
Ø O Messias não está interessado em restaurar o reino de Davi na terra. O Messias era uma figura espiritual. Seu reino virá no final dos tempos.
Isso significa retirar qualquer ameaça de caráter político que o movimento de Jesus pode apresentar aos romanos. Você tenta convencer Roma de que se trata de um movimento puramente espiritual, sem nenhum objetivo político.





3.   É preciso retirar a culpa de Roma pela morte de Jesus. Roma não pode ter matado este homem. Foram os judeus que o mataram.
Talvez essa foi a mais importante coisa que se precisou fazer para tornar a mensagem do evangelho palatável aos romanos.

É isso que você vê nos evangelhos, desde o primeiro de Marcos, até o último de João. É uma progressão constante. Toda a culpa é retirada de Pôncio Pilatos e colocada diretamente sobre os judeus. Foram os judeus que mataram Jesus o que por sinal é um argumento perfeito para desjudaizar Jesus. Além de Jesus não ser judeu, foram os judeus que o mataram.
Jorge Pontual – São Paulo estava por trás disso?

Reza Aslan – Paulo certamente teve um papel muito importante na dissociação desse movimento de suas conexões judaicas. Paulo disse que Cristo era o fim da Torah. O que ele tentou fazer foi transformar o movimento em algo novo e diferente, algo que claramente não era mais o judaísmo.

  É importante entender, que durante a vida de Paulo, a sua versão do movimento, foi uma versão marginal. Na verdade, Paulo não era nada popular na comunidade de cristãos. Ele vivia em conflito com a assembléia de Jerusalém e os principais líderes do movimento: Tiago, o irmão de Jesus; Pedro, o primeiro apóstolo e João. 

   Esses três líderes que conheceram Jesus, viajaram e conversaram com ele, ao contrário de Paulo, que nunca conheceu Jesus. Eles eram os verdadeiros líderes da comunidade e sua interpretação do movimento era muito mais judaica do que a interpretação de Paulo.

Foi depois da morte de Paulo, da destruição de Jerusalém, e com ela a destruição da primeira igreja de Jerusalém, a igreja que foi liderada por Pedro, João e Tiago, que a visão de Paulo do cristianismo separado do judaísmo, um cristianismo mais romano e helenístico, ganhou força.

Jorge Pontual - Qual a relevância para nós desse Jesus revolucionário?

Reza Aslan – Se há alguma lição para ser aprendida hoje com o exemplo revolucionário de Jesus, é a de que todas as pessoas, em todas as épocas usarão a religião em busca de um propósito e uma identidade quando sua dignidade lhes fosse retirada. Isso aconteceu com os judeus vivendo sob a ocupação romana há dois mil anos e também acontece com os muçulmanos vivendo sob ocupação judaica dois mil anos depois. Acho que um fato fundamental em relação à religião é que ela oferece uma sensação de propósito e de identidade, e quando você é marginalizado e se sente  pessoalmente atacado, a  religião preenche um espaço para o bem e para o mal. Às vezes, por motivos pacíficos,  outras por motivos violentos,  mas esse é o poder que a religião tem. Essa é uma lição a ser aprendida sobre a vida e a época de Jesus.
Jorge Pontual – Acho que o nosso tempo acabou. Obrigado!