O
presente artigo busca traçar um panorama histórico-crítico acerca
de diversas descobertas científicas que afirmam ter encontrado
achados arqueológicos que comprovem a existência passada do homem
primitivo. Tal busca ficou comumente conhecida através da nomenclatura
“a busca do elo perdido”, sendo ela a maior argumentação possível a ser
provida pela arqueologia, visando a corroboração da teoria
evolucionista, como defendida originalmente por Charles Darwin. O artigo
se propõe verificar se as primeiras evidências apresentadas podem ser
consideradas conclusivas ou se haveria a necessidade de se continuar as
buscas por tais evidências.
A série de
desenhos em progressão, que apresenta a evolução de um pequeno símio
quadrúpede, o qual, à medida que cresce, modifica sua estrutura
anatômica até se tornar bípede e de corpo ereto como um ser humano
moderno, tem estado presente em livros e revistas de toda gama
de manifestações literárias, como expressão verdadeira sobre a origem
humana. Pela forma como se faz a divulgação dessa série de desenhos, os
leitores, na sua maioria, aceitam essa iconografia moderna e até
acreditam que as formas esqueléticas desses modelos encontram-se
completas, enriquecendo os acervos dos museus do mundo.
Esses desenhos, na realidade, não são a
reprodução de restos fossilizados, cujos vestígios estariam expostos em
algum lugar de pesquisa ou de visita famoso do mundo. Esses desenhos não
são outra coisa senão fruto da imaginação de artistas que receberam
sugestões de diversos cientistas, sobre como teria sido a evolução de um
símio, através dos séculos, até se transformar no ser humano moderno.
Devemos ainda asseverar que esses desenhos são uma tentativa de rejeitar
a origem da humanidade, mediante um processo de criação, como
é relatado no Gênesis, primeiro livro da Bíblia; e mais ainda, de
procurar explicar esse fato através de um imaginário mecanismo de
transformação gradual e contínuo, que aconteceu supostamente ao longo de
milhões e milhões de anos.
Desde que a ideia de transformação ficou
patente na mente de alguns cientistas, o desejo de justificar essa
possível realidade levou muitas personalidades do mundo científico a
procurar provas objetivas para demonstrar essa teoria. Muitos vestígios
foram encontrados em diferentes partes do mundo e, após serem
analisados, receberam o qualificativo de evidências fidedignas da
evolução humana.1 Esses pareceres, emitidos em forma
positiva, levaram muitos acadêmicos e professores que atuam em todos os
níveis de formação educacional, a refletir, para seus discípulos, com a
fidelidade da luz que incide na superfície de um objeto espelhado, a
ideia de que esses vestígios já demonstram a evolução humana. No
entanto, a análise dessas presumíveis evidências não justificam tais
asseverações e, contrariamente, a realidade é outra e a verdade é
oposta, conforme veremos a seguir.
O homem das cavernas
Pelos anais da história da ciência, se
considera que George Buffon, célebre naturalista francês e principal
autor da coleção de 44 volumes da Histoire naturelle, foi quem
reconheceu, em 1749, com a autoridade de um cientista, a semelhança
estrutural do ser humano com o macaco (CLARK, 1977, p. 144).2 Meio
século mais tarde, outro cientista francês, o marquês Jean de Lamark,
afirmou, na sua obra Filosofia zoológica, publicada em 1809 3,
que o homem descendeu do macaco através de um processo de transformação
que ele mesmo denominou de continuum filogenético. Através dessas
afirmações, consideradas valiosas por serem emitidas por autoridades
universalmente reconhecidas no campo das ciências, parecia estar
estabelecida a teoria da evolução humana. A partir dessas assertivas,
muitos cientistas, principalmente antropólogos, dedicaram parte da sua
existência à procura de provas objetivas para demonstrar que o ser
humano é, evolutivamente, descendente dos macacos. Essa procura,
considerada uma atividade positiva, em muitos meios acadêmicos, recebe o
utópico nome de a “busca do elo perdido”.
Foram muitas as tentativas de descobrir o
“elo perdido”, ou seja, vestígios da suposta transformação do organismo
de um símio no ser humano primitivo. Em 1833, por exemplo, foi
descoberta na França a primeira caverna com indícios de ter sido
habitada. Alguns instrumentos de pedra, não muito bem definidos, achados
no lugar, revelariam a presença do homem primitivo; ou seja, do homem
não completamente evoluído e que teria muitas características de símio.
Essa teoria, no entanto, foi desconsiderada nos meios acadêmicos por
falta de definição dos indícios.
Alguns anos mais tarde, em 1848, no
estreito de Gibraltar, foi achado um crânio fraturado, sobre o qual se
emitiram opiniões otimistas no sentido de pertencer ao homem das
cavernas. O entusiasmo não teve muita duração, pois o interesse
despertado, não foi maior do que a definição de que esse vestígio, não
passava de ser simplesmente um crânio deformado.
Em 1856, ocorreu o primeiro achado
considerado nos meios científicos como importante para provar a
transformação evolutiva do ser humano. Foi na Alemanha, nas proximidades
do rio Dussel, no vale de Neander, onde foram encontrados ossos
deformados que alguns observadores insinuaram serem vestígios
pertencentes ao homem de Neanderthal.
A doença do Homem de Neanderthal
Os restos de ossos
encontrados na caverna junto ao rio Dussel eram na sua maioria parecidos
aos de um ser humano moderno, embora apresentando formatos e tamanhos
diferentes. As primeiras informações pareciam ser positivas, pois
afirmavam que os vestígios encontrados pertenciam ao homem primitivo.
Logo após esse achado, duas autoridades em antropologia, os franceses
Marcellin Boule, diretor do Instituto Francês de Patologia Humana,
e Henri Vallois, editor da conceituada Revue d’Antropologie descreveram o
corpo do homem de Neanderthal como sendo de pequena estatura,
estrutura robusta, cabeça grande e face bem desenvolvida (CLARK, 1977,
p. 145). Por mais de quarenta anos essas descrições foram consideradas
conclusivas e, pela posição e o nível de autoridade dos que a emitiram,
foram também consideradas a última instância na definição dos restos do
homem de Neanderthal.
A imprensa sensacionalista da época,
contando com a imaginação de hábeis desenhistas, divulgou esses
pareceres através de uma série de desenhos demonstrando a transformação
evolutiva de um pequeno símio até alcançar a forma humana. No entanto,
essas opiniões precipitadas causaram muita confusão nos meios
científicos e até mesmo em ambientes tipicamente evolucionistas. Thomas
Henry Huxley, o mais fiel e ardoroso defensor das ideias evolucionistas
de Darwin, não concordava com as conclusões sobre os vestígios de ossos
encontrados nas margens do rio Dussel. Ele negou categoricamente que
esses vestígios pertencessem ao homem primitivo, afirmando que “os ossos
de Neanderthal representam só uma pequena luz exagerada de uma forma de
australianos vivos” (DAVIDHEISER, 1982, p. 331).
Jacob W. Gruber, do Departamento de
Antropologia da Universidade Temple, declarou-se cético em relação às
conclusões sobre os restos do vale do rio Dussel, e afirmou em 1948:
“Quanto mais informação tem vindo sobre o homem do Pleistoceno, os
vestígios de Neanderthal tornam–se mais confusos” (DAVIDHEISER, 1982, p.
330). Por outro lado, o paleontólogo W. E. Le Gros Clark manifestou uma
posição mais definida sobre os restos de ossos do ser humano primitivo
afirmando que o homem de Neanderthal “não deveria ser considerado como
nenhum outro espécime, senão Homo sapiens” (CLARK, 1977, p. 147).
Essas conclusões, no entanto, não foram
manifestações isoladas e únicas. A literatura científica relata que
outros dois antropólogos, C. Arambourg e E. Pattie, publicaram
independentemente seus estudos no mesmo tempo que faziam Straus e Cave,
havendo chegado à mesma conclusão (DAVIDHEISER, 1982, p. 332). Esses
estudos definiam, em forma conclusiva, que os ossos encontrados no vale
de Neander não correspondem ao homem primitivo, mas a um ser humano
moderno, cujos ossos sofreram deformação devido a uma doença
degenerativa.
As opiniões de outros especialistas
reafirmam que os ossos do homem de Neanderthal não são de um humano
pré-histórico, mas de alguém moderno, vitimado por uma doença
degenerativa nos ossos. Existem também outras opiniões que, mesmo não
reconhecendo que a deformação seja causada por doença degenerativa, não
admitem, no entanto, que os ossos sejam pertencentes ao homem primitivo.
Earnest Albert Hooton (1946, p. 338) acredita que esses ossos poderiam
pertencer a um ser humano com características físicas muito semelhantes
aos aborígines australianos. Theodore McCown (1950, p. 92), por sua vez,
sugere que esses vestígios poderiam pertencer a um indivíduo humano,
especificado como uma subespécie (raça ou variedade) de Homo sapiens. A
terminologia usada por McCown revela claramente a possibilidade de
existir um mecanismo contrário à transformação progressiva dos seres
vivos. Esse mecanismo teria a função, em certas circunstâncias, de
provocar a degeneração das estruturas anatômicas dos indivíduos.
A controvérsia sobre o Homem de Java
Em 1890, o jovem e eminente professor
Eugène Dubois, renunciou à sua privilegiada posição como conferencista
de anatomia da prestigiada Universidade de Amsterdã, viajando
imediatamente à ilha de Java, para se dedicar à pesquisa e procura dos
restos daquilo que ele considerava o homem primitivo. Um ano após sua
chegada, perto da região de Trinil, Java, desenterrou vários ossos de
animais e, entre esses, um dente de aspecto estranho que, como
inicialmente pensou, seria de um macaco. Mais tarde, à distância de um
metro, encontrou um crânio pequeno. Explorações posteriores permitiram
encontrar outro dente molar e, a quinze metros de distância, um osso
fêmur (DUBOIS, 1935, p. 578–580). Dubois reuniu os ossos encontrados e
considerou que todos esses vestígios pertenciam a um mesmo indivíduo. Ao
analisar aquele pequeno número de ossos, concluiu que suas
características não eram as de um ser humano comum, mas sim de um símio
em evolução. Entusiasmado com seus achados e suas primeiras conclusões,
fez uma cuidadosa descrição das características desses ossos, e até
classificou o espécime dando-lhe o nome científico de
Pithecanthropus erectus, ou “homem macaco ereto”.
Com uma bagagem plena de realizações,
obtida nas suas pesquisas, não sem despender muito esforço, Dubois
voltou para Europa a fim de fazer conhecer seus resultados. Cheio de
entusiasmo e certo das suas conclusões, apresentou o relatório do seu
achado no 3° Congresso Internacional de Zoologia, realizado em 1895, na
cidade de Leiden, diante de uma platéia de cientistas que previamente
duvidavam da autenticidade e do que representavam esses vestígios
(DAVIDHEISER, 1982, p. 334). Apesar do empenho manifestado por Dubois na
apresentação da sua descoberta, a maioria dos cientistas considerou que
os ossos pertenciam a uma classe de macacos, talvez um gibão
(DAVIDHEISER, 1982, p. 335). Diante dessas opiniões antagônicas e da
rejeição generalizada às suas conclusões, Dubois
manifestou-se contrariado, não conseguindo esconder a profunda
frustração que sentia. Essa sensação de derrota foi de tal magnitude na
consciência de Dubois, que decidiu isolar-se do mundo científico,
escondendo os presumíveis ossos do homem primitivo durante 28 anos.
No decorrer do tempo, no entanto, alguns
cientistas, analisando o relatório que fora apresentado por Dubois,
mudaram de opinião e começaram a sustentar a ideia de que os vestígios
encontrados em Java eram de fato do homem primitivo. Bateram às portas
da residência do pesquisador, desejando observar esses ossos mais de
perto, para reafirmar o seu parecer. Mas, de forma insólita, Dubois
respondeu que ele próprio já não podia sustentar a opinião original e,
finalmente, admitiu que o Pithecanthropus erectus podia ser um gibão
gigante e não um ancestral do ser humano (KLOTZ, 1970, p. 343).
Anos mais tarde, o paleontólogo alemão
Gustav von Koenigswald, em 1937, definiu que os restos do
Pithecanthropus erectus pertenciam originalmente a uma raça de seres
humanos que, por causas fisiológicas ou genéticas, sofreram degeneração,
o que explicaria a deformação óssea presente nesses vestígios (MARSH,
1967, p. 207). Mais recentemente, o Dr. Kraus, ao definir sua posição
sobre o homem de Java, baseado nos vestígios encontrados, emitiu uma
comparação ao respeito, asseverando que, se o filho de um
Pithecanthropus nascesse e crescesse no mundo moderno, “ele não
agiria melhor ou pior do que uma criança Homo sapiens” (KLOTZ, 1970, p.
344).
Piltdown e as evidências de uma fraude
Em 1911, durante
trabalhos realizados num poço localizado junto à estrada de Barkham
Manor, no condado de Sussex, Inglaterra, o advogado Charles Dawson e Sir
Arthur Smith Woodward, do Departamento de Geologia e Paleontologia do
Museu Britânico, encontraram vários fragmentos de ossos petrificados de
formatos curiosos. Pelas primeiras observações, os autores dessa
descoberta acreditaram que os ossos pertenceriam a um tipo de homem
pré-histórico. Durante os meses seguintes, graças ao estudo
mais dedicado e avaliação cuidadosa, chegaram a resultados que os
conduziu à confirmação das opiniões anteriores. Com essas conclusões,
prepararam um relatório das suas descobertas, o qual foi apresentado
diante de um auditório de notáveis cientistas, em dezembro de 1912, na
sala da Sociedade de Geologia da Inglaterra (DAVIDHEISER, 1982, p. 340).
Os autores expuseram os vestígios
afirmando pertencer ao “Homem de Piltdown”. Os fragmentos incluíam o
lado esquerdo do osso frontal, quase todo o lado esquerdo do osso
parietal, 2/3 de partes do parietal direito, a parte inferior do
occipital, a metade direita do maxilar inferior com alguns dentes,
sobressaindo um proeminente canino (KLOTZ, 1970, p. 351).
Inicialmente, muitos cientistas duvidaram
de que o maxilar fizesse parte do crânio. Dentre eles, doutores
Waterston, Boule, Miller e Ramstron desconfiaram da autenticidade do
material apresentado e levantaram a suspeita de tratar-se de uma fraude
(STRAUS,1954, p. 265–269; WYSONG, 1981, p. 296). Mas a argumentação
favorável foi convincente e o relatório aprovado. A partir desse
momento, a descrição dos vestígios do “Homem de Piltdown” foi
considerada suficiente e prova clássica da evolução humana. Assim, esse
conceito foi exposto sem reservas nas revistas populares e nos textos de
ensino de todos os níveis, fazendo parte dos conteúdos curriculares
durante os 40 anos seguintes.
O dia 21 de novembro de 1953 registrou no
campo da ciência, principalmente no círculo do evolucionismo, um evento
com os efeitos de um cataclismo. Nesse dia foi anunciada ao mundo a
grande fraude cometida em relação à veracidade sobre o Homem de
Piltdown. Muitas análises permitiram chegar a essa conclusão. As provas
eram numerosas e não deixavam lugar para dúvidas. O dente canino havia
sido colocado artificialmente por meio do uso de substâncias abrasivas,
de maneira tal que aparentasse ser um dente humano. Além disso, foi
notório o descuido cometido na colocação dos outros dentes; as pontas
eram aplanadas, mas dispostas em ângulos diferentes (DAVIDHEISER, 1982,
p. 342). Utilizando a técnica do Fluorine chegou-se à conclusão de que o
crânio era um osso fossilizado, enquanto que o maxilar e o dente
claramente mostravam que não haviam sofrido tal processo. Verificou-se
também que essas duas estruturas haviam sido artificialmente coloridas,
supostamente com a finalidade de assemelhá-las ao crânio (STRAUS, 1954,
p. 268) e, dessa maneira, torná-las compatíveis.
As observações que levaram os estudiosos a
concluir que os vestígios do suposto “homem de Piltdown” eram na
realidade objetos de uma fraude não pararam por aí. Os cientistas
Weiner, Oakley e Clark chegaram à conclusão de que o maxilar e o dente
eram de um símio moderno, alterados deliberadamente com a finalidade de
parecerem fósseis (STRAUS, 1954, p. 266). Um exame dessas estruturas com
raios X mostrou que não havia depósitos da dentina secundária, como se
esperava que isso acontecesse se o dente fosse gasto naturalmente antes
da morte do indivíduo (STRAUS, 1954, p. 269). Clark constatou que fibras
colágenas, como as que se observam na superfície de um osso
atual, foram achadas em vários segmentos do maxilar do crânio do falso
homem de Piltdown, e que o osso que divide a cavidade nasal não é
compatível com essa estrutura, pertencendo a algum animal moderno
(KLOTZ, 1970, p. 353).
Cabe nestas circunstâncias fazer menção
do espírito de franqueza e honestidade que estimulou aqueles
especialistas, no momento oportuno, para não hesitar ao proferir suas
avaliações, chamando a atenção do mundo científico e do público em geral
para o reconhecimento dessa fraude.
O desaparecimento do Homem de Pequim
Na década de 1920, um
enorme grupo de cientistas realizou escavações nas cavernas de Chou Kou
Tien, perto da cidade de Pequim. Nas paredes internas dessas cavernas
haviam sido descobertos desenhos rupestres, o que sem dúvida estimulou
vários especialistas a procurar indícios dos autores. A primeira
suposição foi que os autores desses desenhos pertenceriam a uma espécie
de homem primitivo. Ao longo dessa década, muitos especialistas, algumas
vezes em número de cem, dedicaram grande parte de seu tempo em
escavações no interior dessas cavernas, procurando vestígios do
homem primitivo. Em 1929, foi achado um crânio de tamanho pequeno, e nos
dias seguintes, outros objetos, tais como ossos avulsos de formato
característico de difícil identificação, alguns implementos de pedra e,
sobre uma camada geológica acima das cavernas, foram encontrados
esqueletos de animais, como ursos, hienas, tigres, chitas etc. Foram
também achados vários esqueletos tipicamente humanos, embora
arbitrariamente e por alguma razão não apontada, só tenham sido
relatados três indivíduos (CLARK, 1977, p. 149).
O estudo dos restos de ossos encontrados
nessas cavernas levou os especialistas a emitir suas primeiras
conclusões. A capacidade volumétrica da caixa craniana variava entre 850
cc. a 1.300 cc., relativamente pequena para os padrões do ser humano
atual. O tipo dos implementos de pedra encontrados ali foi considerado
muito rudimentar. Com essas informações, os pesquisadores não demoraram
em confirmar que esses vestígios pertenciam ao um ser humano
pré-histórico, o qual foi identificado com o nome de Sinanthropus
erectus ou o “Homem de Pequim”.
Alguns antropólogos que participaram das
pesquisas de Chou Kou Tien divulgaram informações sobre peculiaridades
de comportamento do “Homem de Pequim”. Afirmaram, por exemplo, que esse
espécime pré–histórico, gozava de conhecimentos suficientes para
produzir fogo e alguma técnica necessária para elaborar artefatos de
pedra. Um relatório dado a conhecer em 1938 declarava que a coleção de
Sinanthropus chegava a 38 indivíduos fossilizados, incompletos. Estes,
na sua maioria, consistiam de fragmentos de maxilares, peças avulsas de
crânio e dentes. Analisando os crânios definiu-se que 40% dos mesmos
pareciam representar crianças de até 14 anos de idade, três crânios
podiam pertencer a adultos menores de 30 anos; três outros a pessoas
entre 30 e 40 anos, e um pareceria realmente ser de uma mulher idosa
(KLOTZ, 1960, p. 1511).
O paradeiro dos ossos dos supostos homens
de Pequim, até o momento, representa um mistério, impossível de ser
resolvido. Sabe-se que esses vestígios, por causas não explicadas, foram
removidos do lugar onde haviam sido encontrados, evitando dessa maneira
sua preservação e também impossibilitando a sua análise e avaliação
final. Anos mais tarde, os poucos especialistas que realmente tiveram
contato com esses vestígios alegaram que eles desapareceram durante a
invasão japonesa à China. Outra versão por eles sustentada é a de que
esses ossos se misturaram com os de combatentes da guerra sino-japonesa,
o que teria tornado impossível a sua identificação. Até o presente,
ninguém mais achou um vestígio sequer semelhante aos do “Homem de
Pequim”. Toda informação é dada pelo relatório preparado por alguns dos
que participaram nas escavações das cavernas de Chou Kuo Tien não
havendo em lugar nenhum, algum objeto, por insignificante que seja,
para justificar a existência do Sinanthropus erectus.
Outras buscas pelo homem primitivo
Em 1930, um casal de
pesquisadores britânicos, Louis B. Leakey e Mary, iniciou escavações na
garganta de Olduvai, na Tanzania, com o objetivo de encontrar vestígios
do homem primitivo. Depois de quase 30 anos de sacrificados esforços, em
busca do “elo perdido”, no mês de Julho de 1959, enquanto Louis se
encontrava convalescente no seu leito, vitimado por uma doença tropical,
sua esposa Mary, que prosseguia nas escavações, encontrou um dente
humano de aspecto estranho. Entusiasmada, a pesquisadora continuou sua
tarefa e achou nas proximidades mais um maxilar de formato singular, com
alguns dentes. Cheia de emoção, Mary correu para junto do seu esposo
para lhe comunicar que finalmente seus longos e quase infindos esforços
haviam sido recompensados: fora encontrado o primeiro indício do homem
primitivo.
Aquela notícia certamente representou
muito mais do que a comunicação de um fato. O sentimento de realização
provocou alívio físico no arqueólogo, e o estimulou a prosseguir em suas
pesquisas. Mesmo convalescente, Leakey retomou às escavações. Durante
os dezenove dias seguintes o casal acumulou mais de 400 fragmentos de
ossos, com os quais, após uma cuidadosa seleção, conseguiu montar, como
peças de um quebra-cabeça, um crânio de aspecto peculiar (CLARK, 1977,
p. 155).
O crânio formado era pequeno, de apenas
530 cc. de capacidade, e Leakey considerou pertencente a um espécime do
homem primitivo, que ele mesmo identificou com o nome de Zinjanthropus
boisei. Para conhecer a idade da existência desses vestígios, uma
amostra da camada geológica onde se encontravam os mesmos, foi enviada à
Universidade da Califórnia para análise radiométrica. Usando a técnica
de datação Potásio-Argônio estimou-se que a idade do Zinjanthropus
provavelmente seria de 1.750 milhões de anos (KLOTZ, 1970, p. 340). Uma
idade incompatível com o período do aparecimento do homem na Terra.
Leakey continuou suas escavações e numa
camada mais antiga encontrou peças de um crânio humano de aspecto
completamente moderno. No entanto, a idade desse novo crânio foi
estimada em 1.800 milhões de anos. Esse fato causou muita confusão na
mente de antropólogos e evolucionistas, porque precisavam elucidar o
problema de como os restos de um homem de aspecto moderno estavam
soterrados em camadas geológicas de formação anterior do que a camada do
homem primitivo. Aceitar como real o suposto crânio do Zinjanthropus
boisei seria reconhecer que o homem moderno seria mais antigo do que o
homem primitivo (MARSH, 1967, p. 209), situação difícil de ser
esclarecida.
Outra tentativa de encontrar o “elo
perdido” foi efetuada em 1922, quando Harold Cook noticiou a descoberta
de vestígios do homem primitivo, cujas características seriam as de um
símio com aspectos humanos. O entusiasmo provocado por esse achado foi
sem limites, ao ponto de identificar esse espécime com o nome de
Hesperopithecus haroldcookii. O inaudito do fato é que a reconstrução
imaginária desse modelo pré–histórico foi efetuada na base de um único e
simples molar fossilizado. A imprensa da época divulgou a novidade com
desenhos imaginários, que exibiam o hominídeo num ambiente primitivo.
Mais tarde, especialistas conscientes da sua responsabilidade analisaram
essa suposta evidência e chegaram a uma conclusão que terminou com o
entusiasmo inicial. A
ideia primeira de que esse único objeto possibilitava demonstrar a
existência do homem pré-histórico foi abandonada, não sem
constrangimentos, uma vez que descobriram que o dente isolado pertencia a
uma espécie de porco já extinta (WINBOLT apud WYSONG, 1981, p. 296).
Considerações finais
No presente, alguns
evolucionistas convictos continuam realizando pesquisas e escavações a
fim de encontrar os vestígios do símio transformado em homem. A maioria
dos evolucionistas, no entanto, apesar das opiniões controversas sobre
os diferentes vestígios do homem macaco, com visão um tanto anuviada,
ainda mantém suas convicções na descrição teórica e na exposição
imaginativa que fez dos restos encontrados o elo que preenche a coluna
evolutiva. Outros cientistas evolucionistas preferem ser mais
cuidadosos, atuando conscientes de uma realidade que não é favorável ao
estabelecimento de uma forma de transição entre um símio e o ser humano,
admitindo em forma acanhada, que a “busca do elo perdido” ainda
continua.
Referências
1 As supostas evidências do homem
primitivo encontram-se amplamente divulgadas em uma gama ampla de
textos. Citamos dois, em língua portuguesa: David (1973, p. 1–17) e
McAlester (1988, p. 149–163).
2 Pelas suas afirmações, Buffon foi obrigado a se retratar, ameaçado pela igreja dominante (WHITE, 1899, p. 46–47).
3 Segundo Ritland (1970, p. 21) a primeira referência da teoria de Lamark apareceu em 1801.
BIBLIOGRAFIA
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WYSONG, R. L. The creation, evolution controversy. Michigan: Inquiry Press, 1981.
Artigo de autoria de Ruben
Aguilar, Doutor em Arqueologia pela USP. Professor de Teologia no Centro
Universitário Adventista de São Paulo (Unasp). E-mail: ruben.aguilar@unasp.edu.br