sexta-feira, 2 de maio de 2014

O que é real nas primeiras evidências acerca do homem primitivo?


O presente artigo busca traçar um panorama histórico-crítico acerca de diversas descobertas científicas que afirmam ter encontrado achados arqueológicos que comprovem a existência passada do homem primitivo. Tal busca ficou comumente conhecida através da nomenclatura “a busca do elo perdido”, sendo ela a maior argumentação possível a ser provida pela arqueologia, visando a corroboração da teoria evolucionista, como defendida originalmente por Charles Darwin. O artigo se propõe verificar se as primeiras evidências apresentadas podem ser consideradas conclusivas ou se haveria a necessidade de se continuar as buscas por tais evidências.
A série de desenhos em progressão, que apresenta a evolução de um pequeno símio quadrúpede, o qual, à medida que cresce, modifica sua estrutura anatômica até se tornar bípede e de corpo ereto como um ser humano moderno, tem estado presente em livros e revistas de toda gama de manifestações literárias, como expressão verdadeira sobre a origem humana. Pela forma como se faz a divulgação dessa série de desenhos, os leitores, na sua maioria, aceitam essa iconografia moderna e até acreditam que as formas esqueléticas desses modelos encontram-se completas, enriquecendo os acervos dos museus do mundo.
Esses desenhos, na realidade, não são a reprodução de restos fossilizados, cujos vestígios estariam expostos em algum lugar de pesquisa ou de visita famoso do mundo. Esses desenhos não são outra coisa senão fruto da imaginação de artistas que receberam sugestões de diversos cientistas, sobre como teria sido a evolução de um símio, através dos séculos, até se transformar no ser humano moderno. Devemos ainda asseverar que esses desenhos são uma tentativa de rejeitar a origem da humanidade, mediante um processo de criação, como é relatado no Gênesis, primeiro livro da Bíblia; e mais ainda, de procurar explicar esse fato através de um imaginário mecanismo de transformação gradual e contínuo, que aconteceu supostamente ao longo de milhões e milhões de anos.
Desde que a ideia de transformação ficou patente na mente de alguns cientistas, o desejo de justificar essa possível realidade levou muitas personalidades do mundo científico a procurar provas objetivas para demonstrar essa teoria. Muitos vestígios foram encontrados em diferentes partes do mundo e, após serem analisados, receberam o qualificativo de evidências fidedignas da evolução humana.Esses pareceres, emitidos em forma positiva, levaram muitos acadêmicos e professores que atuam em todos os níveis de formação educacional, a refletir, para seus discípulos, com a fidelidade da luz que incide na superfície de um objeto espelhado, a ideia de que esses vestígios já demonstram a evolução humana. No entanto, a análise dessas presumíveis evidências não justificam tais asseverações e, contrariamente, a realidade é outra e a verdade é oposta, conforme veremos a seguir.
O homem das cavernas
Pelos anais da história da ciência, se considera que George Buffon, célebre naturalista francês e principal autor da coleção de 44 volumes da Histoire naturelle, foi quem reconheceu, em 1749, com a autoridade de um cientista, a semelhança estrutural do ser humano com o macaco (CLARK, 1977, p. 144).Meio século mais tarde, outro cientista francês, o marquês Jean de Lamark, afirmou, na sua obra Filosofia zoológica, publicada em 1809 3, que o homem descendeu do macaco através de um processo de transformação que ele mesmo denominou de continuum filogenético. Através dessas afirmações, consideradas valiosas por serem emitidas por autoridades universalmente reconhecidas no campo das ciências, parecia estar estabelecida a teoria da evolução humana. A partir dessas assertivas, muitos cientistas, principalmente antropólogos, dedicaram parte da sua existência à procura de provas objetivas para demonstrar que o ser humano é, evolutivamente, descendente dos macacos. Essa procura, considerada uma atividade positiva, em muitos meios acadêmicos, recebe o utópico nome de a “busca do elo perdido”.
Foram muitas as tentativas de descobrir o “elo perdido”, ou seja, vestígios da suposta transformação do organismo de um símio no ser humano primitivo. Em 1833, por exemplo, foi descoberta na França a primeira caverna com indícios de ter sido habitada. Alguns instrumentos de pedra, não muito bem definidos, achados no lugar, revelariam a presença do homem primitivo; ou seja, do homem não completamente evoluído e que teria muitas características de símio. Essa teoria, no entanto, foi desconsiderada nos meios acadêmicos por falta de definição dos indícios.
Alguns anos mais tarde, em 1848, no estreito de Gibraltar, foi achado um crânio fraturado, sobre o qual se emitiram opiniões otimistas no sentido de pertencer ao homem das cavernas. O entusiasmo não teve muita duração, pois o interesse despertado, não foi maior do que a definição de que esse vestígio, não passava de ser simplesmente um crânio deformado.
Em 1856, ocorreu o primeiro achado considerado nos meios científicos como importante para provar a transformação evolutiva do ser humano. Foi na Alemanha, nas proximidades do rio Dussel, no vale de Neander, onde foram encontrados ossos deformados que alguns observadores insinuaram serem vestígios pertencentes ao homem de Neanderthal.
A doença do Homem de Neanderthal
Os restos de ossos encontrados na caverna junto ao rio Dussel eram na sua maioria parecidos aos de um ser humano moderno, embora apresentando formatos e tamanhos diferentes. As primeiras informações pareciam ser positivas, pois afirmavam que os vestígios encontrados pertenciam ao homem primitivo. Logo após esse achado, duas autoridades em antropologia, os franceses Marcellin Boule, diretor do Instituto Francês de Patologia Humana, e Henri Vallois, editor da conceituada Revue d’Antropologie descreveram o corpo do homem de Neanderthal como sendo de pequena estatura, estrutura robusta, cabeça grande e face bem desenvolvida (CLARK, 1977, p. 145). Por mais de quarenta anos essas descrições foram consideradas conclusivas e, pela posição e o nível de autoridade dos que a emitiram, foram também consideradas a última instância na definição dos restos do homem de Neanderthal.
A imprensa sensacionalista da época, contando com a imaginação de hábeis desenhistas, divulgou esses pareceres através de uma série de desenhos demonstrando a transformação evolutiva de um pequeno símio até alcançar a forma humana. No entanto, essas opiniões precipitadas causaram muita confusão nos meios científicos e até mesmo em ambientes tipicamente evolucionistas. Thomas Henry Huxley, o mais fiel e ardoroso defensor das ideias evolucionistas de Darwin, não concordava com as conclusões sobre os vestígios de ossos encontrados nas margens do rio Dussel. Ele negou categoricamente que esses vestígios pertencessem ao homem primitivo, afirmando que “os ossos de Neanderthal representam só uma pequena luz exagerada de uma forma de australianos vivos” (DAVIDHEISER, 1982, p. 331).
Jacob W. Gruber, do Departamento de Antropologia da Universidade Temple, declarou-se cético em relação às conclusões sobre os restos do vale do rio Dussel, e afirmou em 1948: “Quanto mais informação tem vindo sobre o homem do Pleistoceno, os vestígios de Neanderthal tornam–se mais confusos” (DAVIDHEISER, 1982, p. 330). Por outro lado, o paleontólogo W. E. Le Gros Clark manifestou uma posição mais definida sobre os restos de ossos do ser humano primitivo afirmando que o homem de Neanderthal “não deveria ser considerado como nenhum outro espécime, senão Homo sapiens” (CLARK, 1977, p. 147).
Essas conclusões, no entanto, não foram manifestações isoladas e únicas. A literatura científica relata que outros dois antropólogos, C. Arambourg e E. Pattie, publicaram independentemente seus estudos no mesmo tempo que faziam Straus e Cave, havendo chegado à mesma conclusão (DAVIDHEISER, 1982, p. 332). Esses estudos definiam, em forma conclusiva, que os ossos encontrados no vale de Neander não correspondem ao homem primitivo, mas a um ser humano moderno, cujos ossos sofreram deformação devido a uma doença degenerativa.
As opiniões de outros especialistas reafirmam que os ossos do homem de Neanderthal não são de um humano pré-histórico, mas de alguém moderno, vitimado por uma doença degenerativa nos ossos. Existem também outras opiniões que, mesmo não reconhecendo que a deformação seja causada por doença degenerativa, não admitem, no entanto, que os ossos sejam pertencentes ao homem primitivo. Earnest Albert Hooton (1946, p. 338) acredita que esses ossos poderiam pertencer a um ser humano com características físicas muito semelhantes aos aborígines australianos. Theodore McCown (1950, p. 92), por sua vez, sugere que esses vestígios poderiam pertencer a um indivíduo humano, especificado como uma subespécie (raça ou variedade) de Homo sapiens. A terminologia usada por McCown revela claramente a possibilidade de existir um mecanismo contrário à transformação progressiva dos seres vivos. Esse mecanismo teria a função, em certas circunstâncias, de provocar a degeneração das estruturas anatômicas dos indivíduos.
A controvérsia sobre o Homem de Java
Em 1890, o jovem e eminente professor Eugène Dubois, renunciou à sua privilegiada posição como conferencista de anatomia da prestigiada Universidade de Amsterdã, viajando imediatamente à ilha de Java, para se dedicar à pesquisa e procura dos restos daquilo que ele considerava o homem primitivo. Um ano após sua chegada, perto da região de Trinil, Java, desenterrou vários ossos de animais e, entre esses, um dente de aspecto estranho que, como inicialmente pensou, seria de um macaco. Mais tarde, à distância de um metro, encontrou um crânio pequeno. Explorações posteriores permitiram encontrar outro dente molar e, a quinze metros de distância, um osso fêmur (DUBOIS, 1935, p. 578–580). Dubois reuniu os ossos encontrados e considerou que todos esses vestígios pertenciam a um mesmo indivíduo. Ao analisar aquele pequeno número de ossos, concluiu que suas características não eram as de um ser humano comum, mas sim de um símio em evolução. Entusiasmado com seus achados e suas primeiras conclusões, fez uma cuidadosa descrição das características desses ossos, e até classificou o espécime dando-lhe o nome científico de Pithecanthropus erectus, ou “homem macaco ereto”.
Com uma bagagem plena de realizações, obtida nas suas pesquisas, não sem despender muito esforço, Dubois voltou para Europa a fim de fazer conhecer seus resultados. Cheio de entusiasmo e certo das suas conclusões, apresentou o relatório do seu achado no 3° Congresso Internacional de Zoologia, realizado em 1895, na cidade de Leiden, diante de uma platéia de cientistas que previamente duvidavam da autenticidade e do que representavam esses vestígios (DAVIDHEISER, 1982, p. 334). Apesar do empenho manifestado por Dubois na apresentação da sua descoberta, a maioria dos cientistas considerou que os ossos pertenciam a uma classe de macacos, talvez um gibão (DAVIDHEISER, 1982, p. 335). Diante dessas opiniões antagônicas e da rejeição generalizada às suas conclusões, Dubois manifestou-se contrariado, não conseguindo esconder a profunda frustração que sentia. Essa sensação de derrota foi de tal magnitude na consciência de Dubois, que decidiu isolar-se do mundo científico, escondendo os presumíveis ossos do homem primitivo durante 28 anos.
No decorrer do tempo, no entanto, alguns cientistas, analisando o relatório que fora apresentado por Dubois, mudaram de opinião e começaram a sustentar a ideia de que os vestígios encontrados em Java eram de fato do homem primitivo. Bateram às portas da residência do pesquisador, desejando observar esses ossos mais de perto, para reafirmar o seu parecer. Mas, de forma insólita, Dubois respondeu que ele próprio já não podia sustentar a opinião original e, finalmente, admitiu que o Pithecanthropus erectus podia ser um gibão gigante e não um ancestral do ser humano (KLOTZ, 1970, p. 343).
Anos mais tarde, o paleontólogo alemão Gustav von Koenigswald, em 1937, definiu que os restos do Pithecanthropus erectus pertenciam originalmente a uma raça de seres humanos que, por causas fisiológicas ou genéticas, sofreram degeneração, o que explicaria a deformação óssea presente nesses vestígios (MARSH, 1967, p. 207). Mais recentemente, o Dr. Kraus, ao definir sua posição sobre o homem de Java, baseado nos vestígios encontrados, emitiu uma comparação ao respeito, asseverando que, se o filho de um Pithecanthropus nascesse e crescesse no mundo moderno, “ele não agiria melhor ou pior do que uma criança Homo sapiens” (KLOTZ, 1970, p. 344).
Piltdown e as evidências de uma fraude
Em 1911, durante trabalhos realizados num poço localizado junto à estrada de Barkham Manor, no condado de Sussex, Inglaterra, o advogado Charles Dawson e Sir Arthur Smith Woodward, do Departamento de Geologia e Paleontologia do Museu Britânico, encontraram vários fragmentos de ossos petrificados de formatos curiosos. Pelas primeiras observações, os autores dessa descoberta acreditaram que os ossos pertenceriam a um tipo de homem pré-histórico. Durante os meses seguintes, graças ao estudo mais dedicado e avaliação cuidadosa, chegaram a resultados que os conduziu à confirmação das opiniões anteriores. Com essas conclusões, prepararam um relatório das suas descobertas, o qual foi apresentado diante de um auditório de notáveis cientistas, em dezembro de 1912, na sala da Sociedade de Geologia da Inglaterra (DAVIDHEISER, 1982, p. 340).
Os autores expuseram os vestígios afirmando pertencer ao “Homem de Piltdown”. Os fragmentos incluíam o lado esquerdo do osso frontal, quase todo o lado esquerdo do osso parietal, 2/3 de partes do parietal direito, a parte inferior do occipital, a metade direita do maxilar inferior com alguns dentes, sobressaindo um proeminente canino (KLOTZ, 1970, p. 351).
Inicialmente, muitos cientistas duvidaram de que o maxilar fizesse parte do crânio. Dentre eles, doutores Waterston, Boule, Miller e Ramstron desconfiaram da autenticidade do material apresentado e levantaram a suspeita de tratar-se de uma fraude (STRAUS,1954, p. 265–269; WYSONG, 1981, p. 296). Mas a argumentação favorável foi convincente e o relatório aprovado. A partir desse momento, a descrição dos vestígios do “Homem de Piltdown” foi considerada suficiente e prova clássica da evolução humana. Assim, esse conceito foi exposto sem reservas nas revistas populares e nos textos de ensino de todos os níveis, fazendo parte dos conteúdos curriculares durante os 40 anos seguintes.
O dia 21 de novembro de 1953 registrou no campo da ciência, principalmente no círculo do evolucionismo, um evento com os efeitos de um cataclismo. Nesse dia foi anunciada ao mundo a grande fraude cometida em relação à veracidade sobre o Homem de Piltdown. Muitas análises permitiram chegar a essa conclusão. As provas eram numerosas e não deixavam lugar para dúvidas. O dente canino havia sido colocado artificialmente por meio do uso de substâncias abrasivas, de maneira tal que aparentasse ser um dente humano. Além disso, foi notório o descuido cometido na colocação dos outros dentes; as pontas eram aplanadas, mas dispostas em ângulos diferentes (DAVIDHEISER, 1982, p. 342). Utilizando a técnica do Fluorine chegou-se à conclusão de que o crânio era um osso fossilizado, enquanto que o maxilar e o dente claramente mostravam que não haviam sofrido tal processo. Verificou-se também que essas duas estruturas haviam sido artificialmente coloridas, supostamente com a finalidade de assemelhá-las ao crânio (STRAUS, 1954, p. 268) e, dessa maneira, torná-las compatíveis.
As observações que levaram os estudiosos a concluir que os vestígios do suposto “homem de Piltdown” eram na realidade objetos de uma fraude não pararam por aí. Os cientistas Weiner, Oakley e Clark chegaram à conclusão de que o maxilar e o dente eram de um símio moderno, alterados deliberadamente com a finalidade de parecerem fósseis (STRAUS, 1954, p. 266). Um exame dessas estruturas com raios X mostrou que não havia depósitos da dentina secundária, como se esperava que isso acontecesse se o dente fosse gasto naturalmente antes da morte do indivíduo (STRAUS, 1954, p. 269). Clark constatou que fibras colágenas, como as que se observam na superfície de um osso atual, foram achadas em vários segmentos do maxilar do crânio do falso homem de Piltdown, e que o osso que divide a cavidade nasal não é compatível com essa estrutura, pertencendo a algum animal moderno (KLOTZ, 1970, p. 353).
Cabe nestas circunstâncias fazer menção do espírito de franqueza e honestidade que estimulou aqueles especialistas, no momento oportuno, para não hesitar ao proferir suas avaliações, chamando a atenção do mundo científico e do público em geral para o reconhecimento dessa fraude.
O desaparecimento do Homem de Pequim
Na década de 1920, um enorme grupo de cientistas realizou escavações nas cavernas de Chou Kou Tien, perto da cidade de Pequim. Nas paredes internas dessas cavernas haviam sido descobertos desenhos rupestres, o que sem dúvida estimulou vários especialistas a procurar indícios dos autores. A primeira suposição foi que os autores desses desenhos pertenceriam a uma espécie de homem primitivo. Ao longo dessa década, muitos especialistas, algumas vezes em número de cem, dedicaram grande parte de seu tempo em escavações no interior dessas cavernas, procurando vestígios do homem primitivo. Em 1929, foi achado um crânio de tamanho pequeno, e nos dias seguintes, outros objetos, tais como ossos avulsos de formato característico de difícil identificação, alguns implementos de pedra e, sobre uma camada geológica acima das cavernas, foram encontrados esqueletos de animais, como ursos, hienas, tigres, chitas etc. Foram também achados vários esqueletos tipicamente humanos, embora arbitrariamente e por alguma razão não apontada, só tenham sido relatados três indivíduos (CLARK, 1977, p. 149).
O estudo dos restos de ossos encontrados nessas cavernas levou os especialistas a emitir suas primeiras conclusões. A capacidade volumétrica da caixa craniana variava entre 850 cc. a 1.300 cc., relativamente pequena para os padrões do ser humano atual. O tipo dos implementos de pedra encontrados ali foi considerado muito rudimentar. Com essas informações, os pesquisadores não demoraram em confirmar que esses vestígios pertenciam ao um ser humano pré-histórico, o qual foi identificado com o nome de Sinanthropus erectus ou o “Homem de Pequim”.
Alguns antropólogos que participaram das pesquisas de Chou Kou Tien divulgaram informações sobre peculiaridades de comportamento do “Homem de Pequim”. Afirmaram, por exemplo, que esse espécime pré–histórico, gozava de conhecimentos suficientes para produzir fogo e alguma técnica necessária para elaborar artefatos de pedra. Um relatório dado a conhecer em 1938 declarava que a coleção de Sinanthropus chegava a 38 indivíduos fossilizados, incompletos. Estes, na sua maioria, consistiam de fragmentos de maxilares, peças avulsas de crânio e dentes. Analisando os crânios definiu-se que 40% dos mesmos pareciam representar crianças de até 14 anos de idade, três crânios podiam pertencer a adultos menores de 30 anos; três outros a pessoas entre 30 e 40 anos, e um pareceria realmente ser de uma mulher idosa (KLOTZ, 1960, p. 1511).
O paradeiro dos ossos dos supostos homens de Pequim, até o momento, representa um mistério, impossível de ser resolvido. Sabe-se que esses vestígios, por causas não explicadas, foram removidos do lugar onde haviam sido encontrados, evitando dessa maneira sua preservação e também impossibilitando a sua análise e avaliação final. Anos mais tarde, os poucos especialistas que realmente tiveram contato com esses vestígios alegaram que eles desapareceram durante a invasão japonesa à China. Outra versão por eles sustentada é a de que esses ossos se misturaram com os de combatentes da guerra sino-japonesa, o que teria tornado impossível a sua identificação. Até o presente, ninguém mais achou um vestígio sequer semelhante aos do “Homem de Pequim”. Toda informação é dada pelo relatório preparado por alguns dos que participaram nas escavações das cavernas de Chou Kuo Tien não havendo em lugar nenhum, algum objeto, por insignificante que seja, para justificar a existência do Sinanthropus erectus.
Outras buscas pelo homem primitivo
Em 1930, um casal de pesquisadores britânicos, Louis B. Leakey e Mary, iniciou escavações na garganta de Olduvai, na Tanzania, com o objetivo de encontrar vestígios do homem primitivo. Depois de quase 30 anos de sacrificados esforços, em busca do “elo perdido”, no mês de Julho de 1959, enquanto Louis se encontrava convalescente no seu leito, vitimado por uma doença tropical, sua esposa Mary, que prosseguia nas escavações, encontrou um dente humano de aspecto estranho. Entusiasmada, a pesquisadora continuou sua tarefa e achou nas proximidades mais um maxilar de formato singular, com alguns dentes. Cheia de emoção, Mary correu para junto do seu esposo para lhe comunicar que finalmente seus longos e quase infindos esforços haviam sido recompensados: fora encontrado o primeiro indício do homem primitivo.
Aquela notícia certamente representou muito mais do que a comunicação de um fato. O sentimento de realização provocou alívio físico no arqueólogo, e o estimulou a prosseguir em suas pesquisas. Mesmo convalescente, Leakey retomou às escavações. Durante os dezenove dias seguintes o casal acumulou mais de 400 fragmentos de ossos, com os quais, após uma cuidadosa seleção, conseguiu montar, como peças de um quebra-cabeça, um crânio de aspecto peculiar (CLARK, 1977, p. 155).
O crânio formado era pequeno, de apenas 530 cc. de capacidade, e Leakey considerou pertencente a um espécime do homem primitivo, que ele mesmo identificou com o nome de Zinjanthropus boisei. Para conhecer a idade da existência desses vestígios, uma amostra da camada geológica onde se encontravam os mesmos, foi enviada à Universidade da Califórnia para análise radiométrica. Usando a técnica de datação Potásio-Argônio estimou-se que a idade do Zinjanthropus provavelmente seria de 1.750 milhões de anos (KLOTZ, 1970, p. 340). Uma idade incompatível com o período do aparecimento do homem na Terra.
Leakey continuou suas escavações e numa camada mais antiga encontrou peças de um crânio humano de aspecto completamente moderno. No entanto, a idade desse novo crânio foi estimada em 1.800 milhões de anos. Esse fato causou muita confusão na mente de antropólogos e evolucionistas, porque precisavam elucidar o problema de como os restos de um homem de aspecto moderno estavam soterrados em camadas geológicas de formação anterior do que a camada do homem primitivo. Aceitar como real o suposto crânio do Zinjanthropus boisei seria reconhecer que o homem moderno seria mais antigo do que o homem primitivo (MARSH, 1967, p. 209), situação difícil de ser esclarecida.
Outra tentativa de encontrar o “elo perdido” foi efetuada em 1922, quando Harold Cook noticiou a descoberta de vestígios do homem primitivo, cujas características seriam as de um símio com aspectos humanos. O entusiasmo provocado por esse achado foi sem limites, ao ponto de identificar esse espécime com o nome de Hesperopithecus haroldcookii. O inaudito do fato é que a reconstrução imaginária desse modelo pré–histórico foi efetuada na base de um único e simples molar fossilizado. A imprensa da época divulgou a novidade com desenhos imaginários, que exibiam o hominídeo num ambiente primitivo. Mais tarde, especialistas conscientes da sua responsabilidade analisaram essa suposta evidência e chegaram a uma conclusão que terminou com o entusiasmo inicial. A
ideia primeira de que esse único objeto possibilitava demonstrar a existência do homem pré-histórico foi abandonada, não sem constrangimentos, uma vez que descobriram que o dente isolado pertencia a uma espécie de porco já extinta (WINBOLT apud WYSONG, 1981, p. 296).
Considerações finais
No presente, alguns evolucionistas convictos continuam realizando pesquisas e escavações a fim de encontrar os vestígios do símio transformado em homem. A maioria dos evolucionistas, no entanto, apesar das opiniões controversas sobre os diferentes vestígios do homem macaco, com visão um tanto anuviada, ainda mantém suas convicções na descrição teórica e na exposição imaginativa que fez dos restos encontrados o elo que preenche a coluna evolutiva. Outros cientistas evolucionistas preferem ser mais cuidadosos, atuando conscientes de uma realidade que não é favorável ao estabelecimento de uma forma de transição entre um símio e o ser humano, admitindo em forma acanhada, que a “busca do elo perdido” ainda continua.
Referências
1 As supostas evidências do homem primitivo encontram-se amplamente divulgadas em uma gama ampla de textos. Citamos dois, em língua portuguesa: David (1973, p. 1–17) e McAlester (1988, p. 149–163).
2 Pelas suas afirmações, Buffon foi obrigado a se retratar, ameaçado pela igreja dominante (WHITE, 1899, p. 46–47).
3 Segundo Ritland (1970, p. 21) a primeira referência da teoria de Lamark apareceu em 1801.
BIBLIOGRAFIA
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DAVID, P. A evolução do homem. Lisboa: Editora Verbo, 1973.
DAVIDHEISER, B. Evolution and christian faith. Phillipsburg: The Presbyterian and Reformed Publishing Company, 1982.
DUBOIS, E. On the Gibbonlike appearance of Pithecanthropus erectus. Koninklijke Akademie Amsterdam, v. 38, 1935.
HOOTON, E. A. Up from the Ape. Michigan: The Macmillan Company, 1946.
KLOTZ, J. W. Age of Pekin man. Science, v. 131, 1960.
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MACALESTER, A. L. História geológica da vida. São Paulo: Editora Edgard Blucher, 1988.
MARSH, F. L. Life, man and time. Escondido: Outdoor Pictures, 1967.
MCCOWN, T. D. The genus Palaeoanthropus and the problem of superspecific differentiation among the Hominidae. In: COLD Spring Harbor Bio. Lab. Origen
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RITLAND, R. A search for meaning in nature. Mountain View: Pacific Press, 1970.
STRAUS, W. L. The great Piltdown Hoax. Science, v. 119, 1954.
WHITE, A. D. Histoire de la lutte entre la science et la theoligie. Paris: Editorial Guillaumin & Cie, 1899.
WYSONG, R. L. The creation, evolution controversy. Michigan: Inquiry Press, 1981.
Artigo de autoria de Ruben Aguilar, Doutor em Arqueologia pela USP. Professor de Teologia no Centro Universitário Adventista de São Paulo (Unasp). E-mail: ruben.aguilar@unasp.edu.br

Animais Irracionais: Homem ou Animal?


Animais Irracionais: Homem ou Animal?

O homem muitas vezes se acha superior aos animais, não é mesmo? Achamos que por estarmos estudando ou trabalhando somos muito mais inteligentes que todos os outros seres com os quais dividimos o planeta. Nós, humanos, logicamente somos dotados de características que os outros seres não possuem. Nós, humanos somos membros da espécie chamada homo sapiens, que quer dizer homem sábio. Nós temos um cérebro muito mais desenvolvido que os outros seres da natureza, temos capacidades como raciocínio abstrato, linguagem e resolução de problemas. Nós conseguimos usar nossos membros como braços e mãos para utilizar recursos da natureza de maneira diferente.
Animais
Animais
A única coisa que pode nos diferenciar dos outros animais como aves, macacos, formigas, elefantes etc. é que nós somos misteriosamente influenciados por uma série de interações sociais específicas. Lógico que os outros animais também não conseguem viver sozinhos, mas o homem tem uma necessidade crescente de mostrar quem é. Ele vive em grandes aglomerados humanos, com casas e prédios por todos os lados. Estruturas que vendem coisas que na maior parte das vezes ele não precisa comprar. Ele é cheio de leis, de regras sociais, de rituais, de éticas e valores. O homem tem uma cultura muito diferenciada.
Animais Irracionais
Animais Irracionais
Ele gosta de estética, de música, de beleza nas coisas, ele gosta de inovação, filosofia, artes, gosta de compreender tudo o que tem ao seu redor. Uma das coisas mais interessantes é que o homem quer entender os por quês da vida, porque ele existe, por que faz algumas coisas, entender suas atitudes etc.
O homem, mesmo tendo como uma de suas características entender os por quês de sua vida é um animal, como qualquer outro. Ele é mamífero, demora 9 meses para se desenvolver no ventre de sua mãe. Mas nós temos as semelhanças de um mamífero qualquer e nos comportamos como senão tivéssemos as características citadas nos dois parágrafos que já passaram. Por isso o homem é tão complicado. Nós, humanos, vivemos pelo prazer. Aí está nosso principal problema.
Os animais são movidos por coisas como proteção, reprodução da espécie, comida e abrigo. Os humanos, além dessas necessidades básicas, gostam de luxo. O abrigo não pode ser qualquer um. Precisa ter muito mais conforto. Eles procuram ficar ricos, se portam como se não houvesse amanhã, os fazendo parecer completamente irracionais. Já que os animais, não tendo nem mesmo a metade de nossa inteligência, sabem noções básicas de como preservar a natureza.
Irracionais
Irracionais
Sempre ficaremos com a questão se o homem é mesmo racional ou irracional, pois em alguns casos sempre age por instinto. Mas mesmo assim devemos em primeiro lugar racionalizar sobre nossas atitudes em relação à natureza, principalmente. Pois nós estamos destruindo nosso próprio planeta, nosso próprio habitat e muitas vezes nem percebemos isso. Estamos somente em busca do prazer, do que é fútil.

mundo é normal


Se o mundo é normal para quê ser anormal? Todas as coisas rolam como se o mundo se tratasse de uma montanha. Somos apenas pedras, á espera da derrocada. O mundo é normal, porquê ser anormal? Se todos são algo, alguns orgulham-se de não o ser. Se todos são alguém, alguns orgulham-se de nunca o terem sido. Se o mundo é redondo, e descendemos de macacos, alguns orgulham-se de o contradizer. E tudo progride, tudo segue, e nós continuamos uma pedra á espera dessa longa derrocada.
Tudo tem uma lógica. Qualquer pessoa procura justificar-se das suas atitudes. Procura dizer, de uma maneira lógica ou ilógica, a razão das suas atitudes. E a verdade é que nem tudo tem razão de ser. O mundo é de facto normal, nós é que teimamos em torná-lo anormal. Porque gostamos da diferença, da dificuldade, da lição de moral depois de cometermos o erro. Criamos e evoluímos. E o mundo torna-se menos normal.
Ninguém gosta de ser normal. Talvez gostem os velhos do Restelo, teimando que o bom seria manter o passado. Pois aí, talvez fossemos todos normais. Talvez se todos conservássemos o passado. Se a evolução estagnasse talvez deixássemos de tentar ser diferentes. A diferença provém do comum. E hoje, hoje o mundo é uma aldeia global. Ou pelo menos luta para o ser. E se o mundo se irá tornar num globo todo igual, então aí explodiremos as nossas diferenças, ai seremos todos menos como somos hoje. Aí, iremos seguir aqueles que consideramos diferentes.
Hoje, está em voga ser diferente. Esquecer a normalidade e tomar uma posição: ser diferente. Mas diferente do quê? Daquilo que querem que sejamos, ou igual àqueles que consideras diferentes? E são eles diferentes do quê? De ti? Procuramos sobressair. Procuramos fazer-nos notar. Fazer-nos ouvir. E damos connosco a ser quem nunca gostaríamos de ter sido. E apenas o somos, para sermos diferentes. O mundo é normal, lutamos pela sua diferença. E enquanto uns lutam para se imortalizar, outros lutam por quem nada tem. Enquanto uns criam para tornar a nossa vida diferente outros trabalham para manter tudo em pé. Enquanto uns vendem o corpo outros curam quem está doente. O mundo está cheio de diferenças. E contudo é normal. Porquê lutarmos pelas nossas diferenças? Somos todos dignos da vida. Mas apenas alguns têm direito a vive-la.



Inspiração para intelectuais


A inspiração provém de tudo. Sempre que escrevo, oriento-me pelo nada. Não tenho ideias. Mas elas surgem. Como se a minha mente estivesse a dizer um ditado, e eu, sou o seu aluno aplicado, que escrevo com cuidado para não cometer erros e acompanhar o orador. E a inspiração voa. Claro que não surge do nada. Não somos deus que cria um universo e uma humanidade sem bases, sem músicas que inspiram, sem livros que contam historias. A todo o momento a inspiração aborda-nos. Quer seja por uma pessoa estranha. Por versos de um poeta. Ou pelo som de uma música. Quando nos inspiramos, criamos.
Será que somos intelectuais, quando criamos? Somos mais que o normal? Nem todos criam. Constantemente a mente faz nos tomar uma série de atitudes, reacções. Mas isso, não é criar, é reagir. Criar, é algo tão diferente. Tão mais pessoal, mais criativo, mais único. Quando criamos somos donos de tudo. Somos intelectuais. Somos acima de qualquer um. Porque somos artistas. Somos poetas inspirados. Heróis da noite e do dia. Somos alguém. Mas criar, não faz de nós alguém melhor.
A fama não é o prémio pela nossa criação. Mas a mudança nas pessoas. Podermos ajudar alguém a crescer, a não cometer os mesmos erros que nós. Isso sim é o verdadeiro intuito da inspiração. Da criação. Pelo menos é assim que o vejo. Crio, a escrever. Escrevo talvez mais para retratar sentimentos. Coisas que vejo. Coisas que sinto. Passo para o papel. E no fim, dá um resultado.
A minha inspiração provém das pessoas. Da vida. Da experiência. Das sensações. Dos sentimentos. Tal como a de todos nós. Não são apenas os inspirados aqueles que escrevem ou pintam. São inspirados aqueles que se impõem. São inspirados aqueles que colocam o bem comum a frente do seu. São inspirados aqueles que tomam uma posição. Que defendem um ideal. Que conversam a olhar nos olhos. Que sabem falar. Que sabem se fazer ouvir. Que são verdadeiros. Influentes. Persuasivos. Únicos. Todos somos únicos, mas apenas alguns de nós admitimos o ser. Porque os outros, acham-se pobres de espírito. Inúteis. Massacrados e maltratados. No fundo, são apenas tolos, pois não admitem que tudo está as suas mãos, basta-lhes agarrar.

A Violência na Sociedade Brasileira


Nós queremos discutir neste artigo a violência na sociedade brasileira.
Além de ser um constrangimento físico ou moral, a violência é um ato vergonhoso que acontece diariamente, em todos os lugares do Brasil e no mundo. Ninguém sai mais à rua seguro de que vai voltar ao seu lar, muitas pessoas morrem e deixam famílias em sofrimento, por causa de um assalto, uma bala perdida ou outra causa de violência.
Ao andar pelas ruas, ninguém mais confia em ninguém, todos ao se aproximar de qualquer pessoa já ficam preocupadíssimos, sempre achando que irão ser assaltados ou coisa pior.
Cada dia que passa a violência aumenta rapidamente, em vez de todos serem unidos, parece que separam-se. Não sabemos o que será o dia de amanhã, há tanto medo dentro de nós que não pensamos em outra coisa senão a violência. Não podemos esquecer de ressaltar a violência nas torcidas de esportes. Coisa que deveria ser diversão acaba em violência e morte.
Quem não olha televisão? Todos os dias há casos e mais casos de mortes, assassinatos. Quase todos com uma coisa em comum: impunidade.
Como todos nós sabemos, continuam a ocorrer, no Brasil, graves violações dos direitos humanos.
As vítimas tendem a ser aqueles que mais precisam de proteção: os pobres urbanos e rurais, os povos indígenas, os negros, os jovens e também aqueles que trabalham em prol dos mesmos: advogados, sacerdotes, líderes sindicais, camponeses. Os violadores costumam ser agentes do Estado, cuja responsabilidade legal é a proteção dos cidadãos.
A despeito de algumas exceções notáveis, a impunidade ainda predomina para a maioria dos crimes contra os direitos humanos.
Em muitas cidades emergiram forças que passaram a explorar a desintegração social do ambiente urbano, para impor formas próprias de regulação social. As brechas cada vez maiores entre riqueza e pobreza, juntamente com as atividades do crime organizado e a disponibilidade de armas, criaram uma mistura explosiva, em que se deu a escalada da violência social brasileira. Somando-se a isso a inadequação do judiciário e a propensão de certos setores da polícia a agir como juiz, júri e carrasco daqueles que consideram "elementos marginais", formou-se um vácuo político e legal em que ocorrem violações brutais dos direitos humanos.
Mas, embora a história e os padrões sociais nos ajudem a entender os problemas dos direitos humanos no Brasil, não basta para explicar a impunidade de que desfruta um número excessivamente grande de violadores desses direitos.
 



Brechas da Impunidade 

Se formou no âmago da sociedade brasileira uma série de brechas, as quais permitem que tais crimes fiquem impunes.
A primeira é a brecha entre a legislação destinada a proteger os direitos humanos e a sua implementação.
O povo brasileiro tem a expectativa legítima de que os direitos civis e políticos inscritos na Constituição e na lei sejam justa e efetivamente aplicados pelo estado. No Rio de Janeiro, nos 10 meses que seguiram ao do massacre de Vigário Geral - de setembro de 1993 a junho de 1994 - foram registrada as mortes de 1.200 pessoas nas mãos dos esquadrões da morte. Mais de 80% desses crimes permanecem sem solução.
O panorama nas zonas rurais é ainda pior. Em apenas 4%, aproximadamente, dos casos de morte de camponeses e líderes sindicais rurais, os responsáveis foram levados a julgamento.
Quando são frustradas as expectativas daqueles que contam com a justiça e a procuram, a textura da sociedade começa a desintegrar-se. Assim como em outros países, tem sido essa experiência de muitos brasileiros, especialmente na periferia das grandes cidades e em algumas áreas rurais. Resulta daí que as relações sociais não são reguladas pela lei, mas sim por uma combinação de intimidação e apadrinhamento.
A Segunda brecha situa-se entre os setores das forças de segurança e o povo que juraram proteger.
O povo brasileiro tem o direito de viver sem medo do crime. Mas também tem o direito de viver sem medo da polícia. Dos 173 casos da assassinatos ocorridos no meio rural, em 19993, com a participação de pistoleiros contratados, que a Procuradoria Geral da Republica está investigando, comprovou-se que 80 contaram com a participação direta de policiais militares ou civis.
A morte do suspeito de um crime diante de câmeras de TV, no Rio de Janeiro, e o massacre de 111 detentos na Casa de Detenção, em São Paulo, têm um elemento comum: mostram que os policias sentem que têm controle sobre a vida e a morte dos cidadãos.
Como observou um ilustre membro da seção paulista de Ordem dos Advogados do Brasil, a respeito do caso Carandiru, mais aterrador que o número de vitimas foi o número de violadores. Isso mostra como um sentimento coletivo de impunidade poderia estar enraizado na cultura organizacional de certos setores das forças de segurança.
Mas é possível mudar. Após o massacre da Casa de Detenção, foram tomadas medidas para estabelecer padrões mais rigorosos de investigação de assassinatos cometidos por policias nas ruas, e todos os policiais envolvidos em tiroteios fatais foram obrigados a consultar um psiquiatra.
A terceira brecha estaria entre a procura da justiça e a capacidade do Estado para proporcioná-la.
Infelizmente para muitos brasileiros, sobretudo para os que integram os setores mais vulneráveis da população, o Brasil é também um país sem justiça.
Não é que o povo não acredite na justiça. É que suas convicções são cruelmente destruídas pelas próprias pessoas cujo dever seria preservá-las.
Essas brechas entre lei e a sua aplicação, entre as forças de segurança e o povo que juraram proteger, e entre a procura de justiça e a capacidade do Estado para proporcioná-la, criam uma brecha maior e mais fundável: uma brecha na própria alma da sociedade, que separa o Estado dos seus cidadãos e os cidadãos entre si.
É por isso que tais questões deixaram de preocupar apenas as vítimas, suas famílias e aqueles que lutam com coragem e determinação nas organizações de defesa dos direitos humanos, para afetar a sociedade brasileira como um todo.
 



Caminhos a percorrer

Para eliminar essas brechas, o movimento pelos direitos humanos precisa vencer quatro batalhas.
A primeira é a batalha pela identidade, uma batalha pela preservação da identidade individual das vítimas, como a das centenas de crianças e adolescentes mortos a cada ano nas principais cidades brasileiras.
Sabemos que, em sua maioria, as vítimas são jovens adolescentes de sexo masculino, provenientes de bairros pobres. Sabemos também que, contrariando a crença popular, a maioria deles não são crianças de rua nem têm ficha criminal.
Mas uma vítima não é um número estatístico nem categoria sociológica. Uma vítima é um ser humano. E para muitas dessas crianças e adolescentes a morte nem chega a conferir a dignidade humana elementar da identificação pelo nome.
Dos mais de 2 mil casos de assassinatos registrados no Rio de Janeiro no período de um ano, 600 das vítimas sequer foram identificadas. Como disse à Anistia Internacional um promotor estadual do Rio de Janeiro, em um número demasiadamente grande de casos, vítimas e violadores têm um atributo em comum: ambos são desconhecidos.


A Segunda é a batalha contra o esquecimento.  
"Vamos esquecer o passado", exigem os violadores de crimes contra os direitos humanos. Mas será que devemos esquecer os 144 "desaparecidos" durante os anos de governo militar? Devemos esquecer que os assassinos de Chico Mendes continuam em liberdade? Devemos esquecer que os responsáveis pela morte de Margarida Maria Alves ainda não foram julgados?
Justiça não significa esquecer o crime. "A justiça tarda mas não falha", diz o ditado popular. Só que, muitas vezes, "a justiça tarda mas não chega", e não chega porque tarda demais. Será que algum dia chegará para os membros das comunidades indígenas assassinados em meados da década de 80, cujos processos ainda estão paralisados na justiça?


A terceira é a batalha pela compaixão.
Muitos se voltaram contra as organizações de defesa dos direitos humanos, considerando seu trabalho pouco mais que a proteção de criminosos.
A ansiedade a respeito da escala do crime é alimentada por programas radiofônicos populares, que proclamam: " Bandido bom é bandido morto! "
Já faz muito tempo que muita gente aceita a morte de jovens suspeitos, desde que os mortos por engano não sejam seus próprios filhos.
Essas pessoas aceitaram a exibição pública dos corpos das vitimas, desde que não fosse realizada em áreas residenciais.
Aceitaram o fato de que grandes setores da população vejam negados seus direitos humanos básicos por serem pobres, ou viverem no bairro errado, ou terem a cor errada.
Mas as políticas do medo não trazem segurança. Pelo contrário, degradam a sociedade que tais crimes são tolerados e prejudicam a reputação internacional, da qual depende a prosperidade a longo prazo.            


A quarta batalha é a da responsabilidade.  
É claro que, para que a impunidade tenha fim , os responsáveis por crimes contra os direitos humanos devem ser levados a prestar contas dos seus atos perante um tribunal.
Mas há um sentido mais amplo em que a responsabilidade é crucial na luta pelos direitos humanos. O governo brasileiro é responsável, perante a lei internacional, pela garantia de que o Brasil cumpra os tratados internacionais de direitos humanos dos quais é signatário.
O governo brasileiro também é responsável perante a opinião pública internacional, pois o respeito pelos direitos humanos é uma obrigação moral que transcende as fronteiras nacionais.
Acima de tudo, o governo deveria prestar contas ao povo brasileiro.
 



Violência é proporcional à discriminação social

Os baixos salários, o desemprego e a recessão aumentam a miséria e a violência social. A violência pode não ser desejada pela sociedade civil, mas é desejada pelo governo, para afastar o povo da participação da vida nacional. É bom alertar também, que a recessão pode levar o país ao caos, à convulsão social e à ditadura.
A violência pode ser tomada como sinônimo de defesa. Ela é uma agressão de defesa. Um povo abandonado, amedrontado, humilhado, intimidado e atemorizado, até pela propaganda da violência, não participa. Nessa situação, consciente ou inconscientemente, uma intenção daqueles que estão no poder no sentido de afastar as pessoas da participação social, política e econômica. Isso vem ao encontro desse sistema que privilegia uma pequena minoria e prejudica a grande maioria. Por isso, a violência, muitas vezes é estimulada por aqueles que estão no poder para se manterem no poder.
As autoridades estão apostando na violência, pois agora se criam condições para que esta violência subsista e afaste o povo daquilo que é um direito do povo, a participação na vida nacional.
Temos grandes cidades que são de primeiro mundo. Aqui também temos a criminalidade do primeiro mundo. A criminalidade da droga, da violência policial, das quadrilhas organizadas. Agora, no Brasil real, que não é o Brasil do primeiro mundo, temos uma criminalidade que é fruto da discriminação social em que o povo vive, onde poucos são os donos e muitos são os escravos.
Pelo fato de o povo viver inseguro, amedrontado e intimidado, seria mais sensato e coerente que os meios de comunicação falassem de flores e amores em vez de promover programas de violência.
Mas o governo detêm os cordéis dos meios de comunicação e as grandes empresas se mantêm através do favorecimento do governo e através da manipulação da informação. Por isso eles promovem a violência exatamente para mostrar ao povo que ele tem que ficar na moita, sem o mínimo de esperança. Quando o povo chega em casa, depois de 12 horas de trabalho, e não só de trabalho, mas de envolvimento com toda esta loucura de vida, ele assiste novamente à violência do que foi sujeito. Isso quer dizer que ele vive permanentemente num mundo de violência, dentro e fora de casa. Que esperança este povo pode ter deste mundo?
 



Violência da tevê e dos brinquedos para a criança 

Nenhuma criança nasce violenta. Há consenso de que a condição de ser violento é adquirida no decorrer do desenvolvimento. Muitas famílias, pela condição infra-humana a que são submetidas, são forçadas a conviver constantemente com situações violentas. A isso, somam-se os brinquedos, em forma de armas miniaturizadas, colocadas facilmente ao acesso das crianças. A tevê colabora com imagens violentas e promiscuas. O que será das gerações futuras?
Os filmes violentos apresentados pela televisão têm influência sobre as crianças. O mundo atual faz com que a criança seja exposta, de forma muito intensa, a impulsos violentos. Vários psicólogos, principalmente norte-americanos, têm concluído que a violência gera, na criança, uma habituação. A criança se acostuma com a violência. Nessa habituação, para ser motivada, ela termina necessitando de mais estímulos violentos do que o necessário. Em experiências feitas nos EUA, um grupo de psicólogos tomou um grupo de crianças que viam pouca tevê e que passava o dia todo sob a estimulação de filmes violentos. Colocaram eletrocenfalogramas e aparelhos sensores para medir o pulso das crianças. Constataram, após algum tempo, que as crianças que estavam acostumadas com a violência, quando viam uma cena agressiva, não possuíam aceleração do pulso. De outra parte, as crianças que não estavam habituadas à violência, tinham uma saliente aceleração cardíaca.
Pela experiência acima, nota-se que, para as crianças acostumadas com violência, é necessário um impulso ainda mais violento para que reaja. Isso mostra que a violência gera violência: que a violência faz com que a pessoa necessite de maior violência. É prejudicial permitir que uma criança de 5 anos seja submetida a programas promíscuos e violentos da tevê. Essa superexposição violenta, para a criança, não é benéfica. Entendo que os meios de comunicação de massa acabam por estimular a forma violenta de viver, a partir do momento em que divulgam tanta violência. A gente, sem querer, acaba sendo envolvido, se habitua com ela, achando que é normal. Coisa que não acontecia com nossos antepassados, quando não havia o aparato da violência que temos hoje diante dos olhos. Chegavam a nós, com muita lentidão, e não com tanta intensidade como ocorre hoje.
Não é educativo apresentar o mundo violento a uma criança. Pois devemos preparar a criança para enfrentar o mundo com todos os outros aspectos violentos.
Mas isso depende do nível de desenvolvimento dessa criança. O que está ocorrendo, e que é prejudicial e que marca as crianças de hoje, é que elas, em etapas de desenvolvimento muito precoce, são submetidas a estímulos muito violentos do meio-ambiente. Conheço crianças com cinco anos de idade que assistem à televisão aos sábados até as quatro da manhã. Assistem a programas extremamente violentos e promíscuos. Isso não pode fazer bem para a criança. Deve haver uma adaptação. Precisamos tomar consciência de que todos nós, adultos, devemos lutar contra a violência. Estou percebendo que se nós não tomarmos essa atitude, vai ocorrer uma verdadeira autodestruição.
Uma questão que preocupa muito é a do castigo. Bater, dar palmadas, vários psiquiatras veem a questão das palmadas de duas maneiras, ambas decorrentes da estrutura familiar. Há famílias que são de uma permissidade muito grande para a criança. Elas não ajudam a criança a saber manejar seus impulsos agressivos, ou mesmo seus impulsos sexuais. E há outras famílias que são extremamente rígidas e que, também pela sua rigidez, não permitem que a criança saiba também manejar seus impulsos. Uma das necessidades básicas infantis é a disciplina, no bom sentido, e isto consiste em saber dar limites aos filhos. Se nós temos hoje tanta agressividade com jovens, é porque, possivelmente, os pais não souberam dar limites e, com isso, as crianças se tornam muito agressivas, onipotentes. Perdem o senso dos limites. Pensam que podem, inclusive, manejar com a vida dos outros. Penso que isso se deve a condutas agressivas assimiladas pela criança. Faltaram atitudes firmes, de parte dos pais. As vezes, os pais também perdem o controle e acabam batendo nos filhos de uma forma até violenta. Quando isso ocorre, eles têm que manter a coerência, sem, em seguida, mimar o filho.
Se eles acariciam o filho depois de uma surra, ele vai aprender a desobedecer, para ser beneficiado com o carinho posterior. Não há nada de errado em um pai perder a paciência e, vez por outra, dar uma palmada no filho. O que ele deve fazer é conservar, com firmeza, esta atitude.
Essa atitude firme tem que ser compartilhada pelo pai e pela mãe, evitando que um bata e o outro acaricie. Por que deve haver uma coerência de atitudes entre pais. Porque senão, vai ocorrer um fenômeno chamado dissociação, no qual um dos pais fica sendo carrasco ou mau e ruim, e outro bom e excelente. Isso só pode gerar intranquilidade para a criança.
A questão dos brinquedos violentos é polêmica. De um lado, temos a sociedade consumista que oferece as armas de todos os portes, e de todas as formas. Desde uma simples faca, até o mais sofisticado foguete. Tudo em miniatura. Sou de uma posição intermediária. Penso que o ideal seria o que ocorreu comigo: "Eu tinha meus brinquedos agressivos, eu tinha meus bodoques, minhas espadas, mas nós não fazíamos deste brinquedo algo como a meta principal. A gente jogava futebol e fazia outras coisas e se exercitava ao máximo desenvolvendo todas as capacidades motoras.
Acho que há necessidade de revisarmos a carga de instrumentos agressivos que colocamos ao alcance destes menores. Um hiperarmamento é prejudicial."
Alguns brinquedos agressivos são, entretanto, necessários para a criança, pois precisa extravasar a sua agressividade. Mas isso deve ser feito de uma forma adequada. O equilíbrio é aconselhável. Criança não pode passar o dia todo com brinquedos eletrônicos. É um perigo.
   



Conclusão

A conclusão que podemos tirar, é de que, a violência está cada vez maior.
Achamos que, algumas causas da violência são:

  • a exclusão;
  • as drogas;
  • a falta de atendimento às necessidades básicas, como saúde, educação e lazer.
A não venda de armas pode diminuir as estatísticas da mesma.
No mais, achamos que uma coisa que podemos fazer é criar nossos filhos de maneira correta, tentando educá-los para que nunca sejam violentos.
Temos que lutar juntos contra a violência na sociedade brasileira. Senão o que será do dia de amanhã?  


Bibliografia  

  • Livro: O que é Violência Urbana
  • Autor: Regis de Morais
  • Jornal: Mundo Jovem
  • Jornal: Zero Hora
  • Jornal: Correio do Povo