‘barbárie’, ‘genocídio’,
‘holocausto’, ou “massacre”?
(60 depois de Auschwitz é preciso fazer mais do que distinguir
conceitos)
"Alinhe-os contra uma parede,/
Fuzile-os e observe-os morrendo./ Adoro ouvir sua
agonia:/ Eles vomitam, gritam e choram".
“A história da humanidade
é a história da barbárie”
J.-F. Mattei
“Há que endurecer, porém jamais perder a
ternura”.
Che Guevara
No Iraque, insurgentes degolam civis e
soldados norte-americanos humilham prisioneiros iraquianos em fotos divulgadas
pela Internet. Em Madri, terroristas explodiram trens que transportavam
trabalhadores numa manhã ao se dirigirem para o trabalho. Em Israel, ônibus
lotados de civis são explodidos por homens-bomba. Na Rússia, uma escola é
transformada em campo de concentração e matadouro de crianças nos moldes
nazistas. Em vários lugares da África, a população é obrigada a morrer de fome,
ou pelo facão do grupo rival. No Brasil, moradores de rua, indefesos, são
covardemente mortos a pauladas.
O noticiário tem usado a palavra ‘barbárie’ para representar morticínios
aparentemente irracionais de grandes proporções. Mas, invariavelmente também
tem sido usadas palavras semelhantes, tais como: ‘genocídio’, ‘crime hediondo’,
‘holocausto’, ‘massacre’, ‘chacina’, etc. Adiantando o que será comentado mais
à frente (item 3), por exemplo, a palavra “holocausto” foi cunhada para ser
referir apenas aos crimes dos nazistas cometidos em escala inimaginável
principalmente contra os judeus.
A intenção desse artigo não é reduzir o fato criminoso a um simples
formalismo de linguagem. Longe disso, é um pretexto para relembrar o que jamais
deve ser esquecido, e denunciar as novas ocorrências, sem no entanto descuidar
do uso da linguagem, que jamais é neutra, mas pode ser usada para “enfeitiçar”
nosso entendimento da coisa acontecida, como diz Wittgenstein. Começamos,
então, pelo significado e uso atual da palavra barbárie.
1. Barbárie
A palavra ‘barbárie’ originalmente foi
empregada pela mentalidade eurocêntrica, que se considerava o exemplo de
organização social civilizada. Foi Vico [1638-1744] que cunhou de ‘barbárie’ o
estado primitivo ou selvagem de indivíduos ou grupos que não teriam evoluído
rumo ao estado de homem ocidental civilizado[2]. A barbárie passou a
se opor ao humanismo, ou seja, é um ato considerado ‘desumano’ porque não
respeita os fundamentais valores conquistados no campo da ética, do direito, da
ciência, da democracia pluralista e da própria organização social. No século
20, o termo ‘barbárie’ sofreu uma virada de sentido com as pesquisas
antropológicas que reconheceram as demais culturas humanas não brancas também
eram dotadas de organização social racional, tinham valores e preceitos morais
próprios, portanto, eram civilizadas. Essa virada, com C. Lévi-Strauss,
chegou-se ao extremo de considerar que bárbaro autêntico é aquele que apenas
denuncia a barbárie do vizinho e não se dá conta de reconhecer sua própria
barbárie[3].
Wittgenstein observou que o uso da palavra, determinado por certas contingências, muitas vezes perverte
o seu sentido original ou etimológico. Por exemplo, no Brasil, entre as décadas
de 60 e 70, surgiu um modismo lingüístico que empregava a palavra ‘bárbaro’
representando o ‘bom’, o ‘bonito’, a coisa ‘interessante’, o ‘novo’. Assim,
“Fulano de tal era considerado bárbaro!”, “Que coisa bárbara!”, são frases que
representavam algo novo, interessante e bom. Aproveitando o clima da época,
Caetano Veloso, Maria Betânia, Gal Costa e Gilberto Gil – hoje Ministro da
Cultura do Governo Lula – batizaram o seu show de “Os doces bárbaros”.
Todavia, nos dias de hoje, no início do terceiro milênio, a palavra
‘barbárie’ passou a significar o sentido originalmente negativo; passou a ser
empregada para caracterizar um ato criminoso em que os civis são o alvo[4], cujos requintes de
perversidade, até então impensável, representam um retrocesso no processo
civilizatório. Uma vez que o ato de guerra é dirigido contra forças militares
convencionais, o ato de barbárie é rotineiramente dirigido contra alvos civis, e, nesse sentido, é
considerado um ato covarde e repulsivo. Quando iraquianos
dançaram em volta de corpos de soltados norte-americanos queimados e pendurados
em postes, logo, foram considerados pela mídia de ‘bárbaros’. Da mesma forma a
decapitação, abolida depois da revolução francesa de 1889, também hoje é
considerada um ato de barbárie. Matar a pauladas moradores de rua (Brasil) ou
usar facões para decepar braços e pernas de crianças (Ruanda), são considerados
atos de barbárie. A escravidão conduzida pelo homem branco cristão maculou para
sempre a história da humanidade, é inegavelmente uma barbárie nascida na
civilização branca ocidental.
O filósofo J. Racière (2004) refere-se como ‘bárbaros’, na atualidade,
os jovens habitantes ainda não
socializados das periferias que fazem algazarras ou praticam violência contar
os passageiros dos transportes coletivos, contando com a indiferença e falta de
solidariedade das pessoas ditas civilizadas diante do sofrimento dos outros. A
globalização econômica, embora fazendo uso de instrumentos da civilização,
termina causando efeitos bárbaros de exclusão social, de competição insana
entre nações, grupos e pessoas, aumento da criminalidade, etc.
Mas, a barbárie consegue maior visibilidade quando o crime de morte
aparece em grandes proporções, numa forma antes impensável e surpreendente,
obtendo imediato destaque de espetáculo na mídia. Assim, os assassinatos dos
moradores de rua de São Paulo e Belo Horizonte são considerados atos de
barbárie, a matança de crianças são igualmente atos de barbárie, ou até mesmo
podem ser tipificados como genocídio.
2. Genocídio
O ‘Genocídio’ [do latim genus = família, raça, tronco, do grego genos e caedere = matar, cortar] é uma palavra cunhada por Raphael Lemkin em 1944 para
especificamente se referir à política do governo nazista de extermínio completo
dos judeus, ciganos, comunistas e homossexuais. Até então a humanidade não
tinha sofrido nada igual; nunca o crime foi imaginado, racionalmente planejado
e executado pelo Estado, em proporções gigantescas. O crime de genocídio constituiu uma das acusações contra os
líderes nazistas no Tribunal Militar Internacional de Nuremberg em 1944, e,
posteriormente, passou a vigorar na ONU sobre a Prevenção e Punição do Crime de
Genocídio (UNGC), que entrou em vigor em 1951, mas até hoje raras vezes foi
aplicado. Lemkin imaginava que a palavra genocídio poderia evocar nas pessoas uma atitude de repulsa ao crime de massa e de
luta pelos direitos humanos.
O genocídio quer dizer algo mais que um massacre[5] ou chacina total ou parcial de um grupo, mas sim a continuada e
persistente prática de extermínio em massa praticada principalmente por um
governo. A rigor, o genocídio é definido como “crime contra a
humanidade, que consiste em cometer, com a intenção
de destruir, no todo ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial ou
religioso, qualquer dos seguintes atos: I) matar membros do grupo; II)
causar-lhes lesão grave à integridade física ou mental; III) submeter o grupo a
condições de existência capazes de destruí-lo fisicamente, no todo ou em
parte...”.”.”.”. (Dic. Aurélio). Também é
considerado genocídio, a interdição da reprodução biológica e
social de membros de grupos étnicos, bem como também a prática de terror contra
supostos inimigos reais ou potenciais. O Brasil regula e
define o genocídio pela Lei no. 2. 889, de 1º. de outubro de 1956. A Lei no. 8.072, de
25-07-1990, o considera como “crime hediondo”[6] e, como tal, insustentável de anistia, graça, indulto, fiança e
liberdade provisória[7].
É curioso que o genocida geralmente utiliza mecanismos de defesa
psíquica como a racionalização e a intelectualização tentando desse modo justificar o seu ato como de “legítima defesa”,
proteção contra o “intruso”; ou seja, o outro é sempre visto como “perigoso”, “inferior”, “estrangeiro”, “infiel”,
“selvagem”, “coisa” ou “objeto”[8], enfim, o ‘outro’, o
‘diferente’ é sempre considerado um problema para a existência do genocida;
como é marcado na sua singularidade, o ‘outro’ não é visto como ser humano
total, não é ‘humanizado’ em sua condição de ser existente[9]. Não podemos
esquecer, por exemplo, que o ditador Saddan Hussein é acusado de cometer crime
de genocídio contra os curdos, que Milosevic, é igualmente acusado de crimes de
genocídio - “crimes contra a humanidade” - tal como foram primeiramente
acusados e condenados pelo Tribunal de Nuremberg, o alto comando do governo
nazista. É sabido que na pauta da política dos sérvios chefiados por Milosevic,
existia a chamada ‘limpeza étnica’ contra os que eles consideravam
‘inferiores’, resgatando desse modo a ideologia da “solução final” do governo
nazista de Hitler, que via principalmente nos judeus uma ameaça econômica e
racial para a supremacia da raça ariana.
Pode-se dizer que existe uma “razão genocida”, que constrói campos de
concentração, elabora um plano de economia sustentada no trabalho escravo de
prisioneiros, também elabora um discurso pretensamente moral sobre a
“legitimidade”, a “racionalidade” e mesmo a “virtuosidade” do extermínio em
massa de pessoas de todas as idades.
É necessário denunciar que o crime de genocídio do Estado ou de qualquer
ato de barbárie de grupos extremistas, embora pareçam ser irracionais, na
verdade, são cometidos em nome de alguma causa ‘justa’, uma ‘lógica do bode
expiatório’ (Zaluar, 2004). O ato monstruoso sempre recorre a uma moral tosca
cuja razão cínica satisfaz aos irmãozinhos que compartilham com a mesma crença,
que acreditam nas sombras dogmáticas projetadas por um psiquismo esclerosado.
Muitas vezes quem pratica o grande massacre se coloca como vítima, justificando
que foram ‘obrigados’ a praticar o ato monstruoso por ‘defesa própria’ ou por
‘virtude’. Ou seja, os grandes massacres “sempre foram feitos em nome da
religião verdadeira, da ideologia justa, do racionalismo legítimo, etc” (Japiassu,
2001 citando F. Jacob).
Depois de Auschwitz, a razão está sob suspeita. A razão não precisa
estar dormindo para produzir monstros. Pior, quanto acordada, a razão produz os
piores e inimagináveis monstros e monstruosidades que a própria razão
desconhecia ser capaz de cometer. Não podemos mais confiar em qualquer discurso
racional, ético ou moral, porque em nossa época até a razão e a linguagem são
usadas para fins irracionais. Cada vez mais – infelizmente – a razão cínica é
usada para forjar uma moral do ato criminoso, especialmente quando este foi
cometido em escala até então inimaginável, como foi o genocídio cometido pelos
nazistas, soviéticos, sérvios, sunitas, tribos africanas, enfim, não importa se
em nome da “supremacia da raça ariana”, da “da causa socialista”, ou da causa supostamente
‘santa’ que levou, por exemplo, ao massacre das crianças de Beslan.
3. Holocausto
A palavra holocausto [gr. Holókauston], originalmente,
significava o "sacrifício em que a vítima – um animal - era queimada
inteira", tendo assim um sentido de imolação ou expiação[10]. No período nazista,
entre 1935 e 1945, os judeus se viram diante de um novo holocausto, sendo
obrigados à perda da cidadania, a trabalhos forçados, a suportarem a brutal
separação dos membros da família inclusive de crianças, a serem fuzilados em
massa, a serem transportados pela força para os campos de concentração onde
terminavam sendo exterminados coletivamente em câmaras de gás. Durante o
holocausto, cerca de 6 milhões de judeus foram assassinados para cumprir o que
os nazistas chamavam de ‘solução final’.
Segundo alguns analistas, o emprego da palavra holocausto teve o intuito de significar mais que a
palavra ‘genocídio’. C. Lash (1990), por exemplo, argumenta que “o massacre dos judeus tornou-se holocausto porque a palavra
“genocídio”, numa época genocida havia perdido a capacidade de evocar os
sentimentos apropriados aos fatos que procurava caracterizar. Ao buscar uma
linguagem ainda mais extrema, os historiadores do holocausto contribuíram para
a degradação do “genocídio” (...). Contra os poloneses e outros povos cativos
da Europa oriental, Hitler praticou o que pode ser denominado de genocídio, de acordo co Y. Bauer (...). [isto é, a política nazista assassinou sistematicamente judeus, e,
também, comunistas, homossexuais, ciganos, Testemunhas de Jeová, e todos as
pessoas consideras ‘inferiores’. No entanto], “é preciso alertar
que somente os judeus experimentaram um holocausto” (Lash, 91). Portanto, mais do que o genocídio, a palavra holocausto passou a ser empregada com o sentido de
extermínio em massa racionalizado e insano dos judeus, coisa que era “impensável”
até acontecer de fato como o maior acontecimento trágico[11] do século 20.
Entretanto, o termo holocausto “tornou-se um slogan judeu válido para
qualquer assunto sobre o qual se converse”, na expressão de Jacob
Neusner,
“uma espécie de
palavra-chave judaica para o mal-estar comum. Uma sociedade formada por pessoas
que se vêem como vítimas e sobreviventes encontra em Auschwitz a mitologia
consumada da vitimização e da sobrevivência. Rejeitando a única lição que
Auschwitz têm para oferecer – a necessidade de uma renovação da fé religiosa, a
necessidade de um compromisso coletivo com condições sociais decentes – ela estuda minuciosamente os registros históricos em busca de um ensinamento
que Auschwitz provavelmente não pode render: como sobreviver a um holocausto. A Solução Final tornou-se uma obsessão particular dos judeus porque a
mitologia do holocausto ajuda a manter a identidade étnica judaica, como
apontou Neusner, num período do qual a identidade dos judeus não é definida
pela religião; mas ela se tornou uma obsessão geral porque carrega a promessa
falsa e sedutora de ingressos na tecnologia da sobrevivência”.... O holocausto
tornou-se um ‘vale-tudo’ literário”[12] e político.
Hoje, quando se levantam protestos contra os atos criminosos do Governo
de A. Sharon contra os palestinos,os judeus ultra-ortodoxos imediatamente sacam
de lugar de “vale tudo” sua condição de vítimas supostamente indefesas cercadas
por estados árabes ou por supostos terroristas islâmicos. O ‘muro da vergonha’
de Sharon, em construção, além de ser ato unilateral e bárbaro, divulga um
discurso vitimista e neofascista.
4. Barbárie X civilização
Num artigo de 1968, Adorno, influenciado pela psicanálise, diz entender por barbárie a agressividade primitiva humana, os impulsos de destruição que tem por
propósito destruir as conquistas da civilização, tais como a ética, o direito,
a democracia pluralista, as ciências, a idéia de progresso, etc.
No seu tempo, Adorno (1995b) apontava como a maior das barbáries o
genocídio praticado pela política nazista de extermínio em massa de judeus,
comunistas, testemunhas de Jeová, homossexuais, bem como o ato criminoso de
qualquer Estado totalitário – nazi-fascista ou comunista – contra os opositores
reais ou virtuais. No sistema democrático capitalista, o pensador alemão também
identificou a barbárie na arte, na cultura, na educação, na mídia, cujos
sintomas uma reação desproporcional em ato que faz oposição aos avanços da
civilização’. O autor alemão considera a falência da cultura e da educação a
“razão objetiva da barbárie” (1995a: 164); a barbárie se autoriza numa
sociedade onde a cultura e a educação deixam de ser prioridade tanto do governo
como da sociedade civil.
Estaríamos hoje vivendo um processo de barbarização em todos os setores da sociedade. A falta de respeito para com o
próximo, a falta de vergonha, a atitude dogmática e esclerosada do
pensamento, a recusa em reexaminar as posições conservadoras, a indiferença
para com o sofrimento dos outros, a incapacidade de identificação com os
diferentes, os chamados crimes de ódio, os atos amoucos[13] cada vez mais freqüentes, a crença de que somente a “lei do cão” é capaz
de consertar o mundo injusto e desigual, são alguns dos sintomas de barbárie do
nosso cotidiano.
Em hipótese alguma podemos esquecer que as conquistas do
estado de direito democrático – mesmo imperfeito e ditado pelo liberalismo
capitalista - do conhecimento científico, não podem ser anulados em nome do
tradicionalismo ou do irracionalismo que se estabelece antes pelo terror do que
pelo convencimento. A única garantia da
humanidade ainda se sustenta numa certa confiança na razão, na ética e no
diálogo entre diferentes. O pseudo-argumento de que “estou recorrendo ao
genocídio, ou ao massacre deste ou daquele grupo social como último recurso,
porque eles são mais terroristas do que eu”, deve ser desmascarado como imoral
e ilógico. Dizer que a barbárie cometida contra as crianças da escola de Beslan
vem da política do governo de Putin, não a faz menos barbárie. Nada justifica o
assassinato de crianças, diz o cineasta Mikhalkov. Um único ato de barbárie faz
a humanidade retroceder no que considera avanço de civilização.
“Eles não assumem o que fazem”
Aquele que comete qualquer ato bárbaro jamais se identifica como sujeito
de seu ato monstruoso. E, jamais se identifica com suas vítimas. Susan Sontag
(2003) observa que tanto os chefes nazistas como os chefes que comandaram as
atrocidades de Camboja, de Sarajevo, em Ruanda na África ou em Beslan na
Rússia, não se identificam com suas vítimas e seu desespero. E, nunca assumem
seu ato como monstruoso, isto é, quanto mais absurdo e cruel é caracterizado o
crime cometido maior é a negação do criminoso.
Os nazistas sempre dirão que o genocídio ou holocausto foi uma encenação
montada para as câmeras. O neonazista até hoje nega veementemente o holocausto.
Divulgam que os judeus fizeram aquele filme projetado no Tribunal de Nuremberg[14] como uma farsa de Hollywood. A mesma atitude teve o diretor de
propaganda em favor do ditador espanhol Franco ao afirmar que “foram os bascos que destruíram Guernica, sua própria cidade, e
ex-capital, em 26 de abril de 1937, pondo dinamite nos esgotos (numa versão
posterior, lançando bombas fabricadas em território basco), com o intuito de
despertar indignação no exterior e revigorar a resistência republicana”. Na guerra dos Bálcãs a maioria dos sérvios residentes na Servia ou no
exterior sustentavam, até o fim do cerco sérvio a Sarajevo, e mesmo depois, que
os próprios bósnios haviam perpetrado o tenebroso “massacre da fila do pão” em
maio de 1992, e o “massacre do mercado” em fevereiro de 1994, despejando bombas
de alto calibre no centro da sua capital ou instalando minas a fim de criar
cenas especialmente horripilantes para as câmeras dos jornalistas estrangeiros
e angariar mais apoio internacional para o lado bósnio. (Sontag, op. cit. ,
15). G.W. Bush nos EUA, A. Sharon em Israel, e V. Putin na Rússia, e tantos
outros políticos de feitio tirânico manipulam a mídia para seus próprios
interesses, construindo sua permanência no poder e sua política unilateral e
agressiva sustentando um discurso persecutório da ameaça terrorista
internacional. De um lado como de outro, a incapacidade de identificação com o outro em seu sofrimento, miséria,
intolerância e irracionalismo, promovem no mundo mais barbáries que nossa razão
não pode imediatamente entender.
5. Esperança na era de Aquarius ou na educação?
Nesse quadro de perspectivas sombrias, Adorno e Arendt (1972), já no
pós- guerra, sustentavam esperança na educação e na cultura – e não na repressão policial, na guerra ou no terror. Inicialmente
caberia a educação e a cultura um papel fundamental para evitar a metástase da
barbárie no mundo. Cabe a escola, a universidade e a mídia uma importante
função: ser agentes da civilização. “O professor é um agente que ajuda a
sustentar a civilização”, diz M. Oakeshott (s.d.).
Diante do crescente risco de barbarização dos valores da civilização, é
que Touraine, dentre vários filósofos de nossa época, vem a público dizer que é
preciso dar “prioridade para a preservação das conquistas da civilização
tais como o estado de direito, o respeito e o convívio para com as diferenças
humanas, a livre garantia de troca e de debate de idéias, a difusão do
conhecimento científico e a sustentação do ensino laico, esta
última como uma conquista do iluminismo, como declarou A.
Touraine (2004).
A educação, mais
especificamente, o ‘ensino’ [e não a
‘doutrinação’ baseada em livros religiosos ou laicos tomados como dogma],
quando investem na manutenção das conquistas humanas fundadas no conhecimento
dialógico, pode contribuir para evitar prevenir a metástase da barbárie no todo
da sociedade. Porém, o conhecimento científico, a idéia de progresso, e a razão
prática, não garantem evitar que a civilização se sustente. Adorno (1995a), por
sua vez, é enfático quando observa que a “questão mais urgente
da educação contemporânea é a desbarbarização” da humanidade (...); a
desbarbarização da humanidade é a precondição imediata da sua sobrevivência” (1995b: 101-103).
Se para Marx “a história da humanidade é a história da luta de classes”,
para J.-F. Mattei (2000) “a história da
humanidade é a história da barbárie” [15], ou a tentativa de se evoluir minimamente dela. A educação, o ensino e as
artes constituem quase que exclusivamente formas de evolução da barbárie.
A barbárie prova a cada dia ser constitutiva da humanidade. “Um animal ou um Deus não pode cair em barbárie, pois o animal, puro
instinto, ou o deus, pura razão, para empregar a linguagem de Pascal, estão
abaixo ou acima do humano” (Mattei, 2002 : 58). Só o homem pode cometer atos de barbárie, porque como é fruto
da cisão entre razão e pulsão-instinto, do entendimento e da paixão, a pulsão
não educada ou não civilizada suficientemente, pode levar um sujeito ou grupo
humano aos desatinos sem volta.
O grande perigo da barbárie hoje é ter pretensões apocalípticas de
destruição da humanidade e do próprio planeta. Entretanto, há otimistas – que
bom que eles ainda existem - que entendem que nossa dimensão demasiadamente humana pode ser educada e transformada em desejo canalizado em prol da cultura, da linguagem dialógica e da construção de uma verdadeira civilização dotada sobretudo de sabedoria.
[1] O
autor do poema está preso nos EUA, por assassinar um mendigo. Citado por Alba
Zaluar, Folha S.Paulo-Cad. Mais, 29/08/2004.
[2] ABBAGNANO,
N. Dicionário de Filosofia. Nova
Fronteira, 2000, p. 104-5.
[3] DUROZOI,
G. & ROUSSEL, A. Dic. De filosofia,
Papirus, 1993.
[5] Usualmente
são empregados: “massacre do Carandiru”, “massacre dos moradores de rua”
e “chacina de Vigário Geral”, “chacina da Candelária” ...
[6] Segundo
o dicionário, ‘hediondo’é: sórdido, repelente, repulsivo, horrendo,
pavoroso, sinistro, medonho, imundo, etc. (Dic. Aurélio).
[7] SILVA,
P. Dic. Jurídico,
2003, p. 656.
[8] Conferir
a interessante análise de Becker, S., “A criação da representação de coisa
'judeu-objeto'", 1990, pp. 59 e ss.
[9] O Dicionário do Pensamento Social do Séc. XX (1996)
acrescenta o genocídio como efeito do poder ‘revolucionário e totalitário,
exclusivo de ideologias nacionalistas, fascistas e comunistas. “No pós-guerra,
foi pratica dos novos estados, especialmente os estados com governos comunistas
ou autoritários”. Diz, ainda, que o genocídio geralmente vem associado com a
pilhagem.
[10] Sergio
Becker, psicanalista e autor do livro “A fantasia da eleição da eleição
divina – Deus e o homem.” (Rio: Ed. C. de Freud, 1999, a meu pedido,
esclarece que “os hebreus realizavam o holocausto de animais (...),
eles não imolavam vítimas humanas, o que é impensável. Também esclarece que “o
termo holocausto foi cunhado por Eli Viesel, autor sobrevivente do nazismo e
vencedor do prêmio Nobel da paz”. (e-mail recebido em 29/12/2004).
[11] Embora
a barbárie e o genocídio sejam acontecimentos realmente trágicos, o sentido
aqui deve ser empregado com reservas. É mais correto usar a palavra “trágico”
para eventos ou acontecimentos determinados pela fúria da natureza ou determinados
pelo acaso. Os terremotos, maremotos, a erupção de vulcões, uma tempestade
entre outros fenômenos da natureza geográfica ou climática ou mesmo um acidente
de carro, uma trombada de trem, são eventos “trágicos”. Ainda, segundo G. W.
Most (2001) deve-se distinguir o "trágico" da "tragédia"; a primeira palavra refere-se a eventos
"trágicos" enquanto que as "tragédias" referem-se a um
gênero dramático específico de literatura que floresceu muito raramente na
cultura ocidental, sobretudo na Grécia antiga, em Atenas, no séc. V a. C. O
"trágico" deve ser entendido segundo os acontecimentos que
fatalizam o cotidiano da vida do ser humano, donde seguem algumas
características: 1) a eventos reais ou situações tristes; 2) envolve separações
abruptas e perdas irreparáveis, em que a morte é não natural, isto é, imprevisível,
desnecessária e prematura; 3)
uma certa crença em um inevitável destino funesto dos acontecimentos e dos
personagens. (Cf.: MOST, G. W. “Da tragédia ao trágico”. In: Filosofia
e literatura: o trágico na Filosofia Política. V.
3/ 1. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001, p. 20-35).
[12] Lash,
C. O mínimo eu – sobrevivência psíquica em tempos
difíceis. São
Paulo: Brasiliense, 1990 : 100. O grifo é meu.
[13] Transcrevo
esse fragmento do sociólogo (marxista?) alemão R. Kurz (2001) sobre o ato
“amouco”: “Em 1997, na cidade de West Paducah (Kentucky), um
adolescente de 14 anos matou a tiros, após a oração matinal, três colegas de
escola, e cinco outros foram feridos. Em 1998, em Jonesboro (Arkansas), um
menino de 11 e um de 13 anos abriram fogo contra sua escola, matando quatro
meninas e uma professora. No mesmo ano, em Springfield (Oregon), um jovem de 17
anos matou a tiros em uma "high school" dois colegas e feriu 20
outros. Um ano mais tarde, dois jovens de 17 e 18 anos provocaram o célebre
banho de sangue de Littleton (Colorado): com armas de fogo e explosivos, eles
mataram em sua escola 12 colegas, um professor e, em seguida, a si próprios. Na
Europa, esses massacres em escolas foram de início interpretados, ainda no
contexto do tradicional antiamericanismo, como conseqüência do culto às armas,
do darwinismo social e da escassa educação social nos EUA (...). Na pequena
cidade canadense de Taber, apenas uma semana após o caso de Littleton, um
adolescente de 14 anos disparou ao seu redor, matando um colega de escola.
Outros massacres em escolas foram notificados nos anos 90 na Escócia, no Japão
e em vários países africanos. Na Alemanha, em novembro de 1999, um ginasiano de
15 anos matou sua professora, munido de duas facas; em março de 2000, um garoto
de 16 anos matou a bala o diretor da escola e depois tentou se suicidar; em
fevereiro de 2001, um jovem de 22 anos matou com um revólver o chefe de sua
firma e depois o diretor de sua ex-escola para finalmente ele mesmo voar pelos
ares detonando um tubo de explosivos. O recente ato amouco de um jovem de 19
anos em Erfurt, que, no fim de abril de 2002, durante o exame de conclusão do
secundário, chacinou com uma "pump gun" 16 pessoas (entre elas quase
o corpo docente inteiro de sua escola) e que em seguida atirou contra a própria
cabeça, foi somente o ápice até agora de toda uma série (...) Um suíço de
índole correta, que no fim de 2001 crivou de balas com uma pistola automática
meio parlamento cantonal e depois se matou, chegou à triste celebridade mundial
tanto quanto aquele universitário francês, graduado e desempregado, que poucos
meses depois abriu fogo com duas pistolas contra a Câmara Municipal da
cidade-satélite parisiense de Nanterre, matando oito políticos locais(...).
[Enfim,] a bárbara "cultura do ato amouco" tornou-se há tempos, em
muitos países, um acontecimento midiático periódico”.
Para Kurz tanto o ato
amouco como o ato terrorista parecem irracionais-loucos, impulsivos. Mas, na
verdade, os sujeitos que cometem essa barbárie fazem uso da razão para planejar
o crime em grades proporções como se fosse um espetáculo; eles eram cidadãos
normais, vivendo o cotidiano como qualquer um, até cometerem o ato de barbárie.
Podemos suspeitar que ambos são efeitos sintomais de uma estrutura social
perversa ou patológica.
[14] No
Julgamento de Nuremberg, ao ser mostrado um filme com cadáveres empilhados aos
montes, muitos em estado de decomposição, e sobreviventes esqueléticos
que mal podiam ficar em pé, o alto escalão nazista demonstrou incapacidade de
sentir culpa, nem responsabilidade pelo genocídio, mas com tiradas cínicas
tentavam buscar forjar argumentos como o de que eles nada sabiam sobre as
barbaridades que ocorriam nos campos de concentração porque os que pertenciam
ao alto escalão não estavam necessariamente a par com o que acontecia nos
escalões inferiores. O efeito produzido por esses filmes nos acusados foi
cuidadosamente observado pelo psicólogo Gilbert. Alguns, como Funk e Frank,
choraram; outros como Speer e Fritzsche, ficaram prestes a chorar; Ribbentrop,
Neurath, Schacht e von Papen recusavam-se a olhar; outros como Seyss-Inquart, e
Streicher, assistiram, estoicamente. Hess murmurou: “Não acredito nisso”.
H. Goering, considerado o segundo depois de Hitler, assistiu o que chamou de
“filme horrível” atribuiu o filme que mostrava as atrocidades como praticadas
pelos russos e jamais pelos alemães. Ainda, embora tenha sido a inteligência
que fosse o fundador dos campos de concentração a fim de eliminar a oposição,
em sua defesa, Goering admitiu que não tinha conhecimento de tais coisas,
portanto, não era o responsável direto pelo genocídio. Parece que somente Speer
admitiu responsabilidade.
[15] “A história da humanidade é uma história de
horror”, também é dito por Rémy, personagem central do filme
canadense “As invasões bárbaras” de Denys Arcand (2003).