Por Paulo da Silva Neto Sobrinho – extraído do site www.espirito.org.br/
“A maior ignorância é a que não sabe e crê saber, pois dá origem a
todos os erros que cometemos com nossa inteligência”. (SÓCRATES).
“Tão surpreendente quanto a naturalidade das pessoas em emitirem
juízo sobre algo que pouco sabem, é seu desinteresse em melhor
informarem-se”. (LOEFFLER).
“Se não se convencem pelos fatos, menos o fariam pelo raciocínio”. (KARDEC).
Introdução
Dentre vários outros, a comunicação com os chamados mortos é um dos
princípios básicos do Espiritismo, inclusive podemos dizer que é um dos
fundamentais, pois foi de onde surgiu todo o seu arcabouço doutrinário.
Na conclusão de O Livro dos Espíritos, Kardec argumenta que:
“Esses fenômenos … não são mais sobrenaturais que todos os
fenômenos aos quais a Ciência hoje dá a solução, e que pareceram
maravilhosos numa outra época. Todos os fenômenos espíritas, sem
exceção, são a conseqüência de leis gerais e nos revelam um dos poderes
da Natureza, poder desconhecido, ou dizendo melhor, incompreendido até
aqui, mas que a observação demonstra estar na ordem das coisas”. (p.
401).
Essa abordagem de Kardec é necessária, pois apesar de muitos
considerarem tais fenômenos como sobrenaturais, enquanto que inúmeros
outros os quererem como fenômenos de ordem religiosa, as duas teses são
incorretas. A origem deles é espontânea e natural e ocorrem conforme as
leis Naturais que regem não só o contato entre o mundo material e o
espiritual, mas toda a complexa interação que mantém o equilíbrio
universal. Por isso não precisaríamos relacioná-los, nem mesmo buscar
comprovação de sua realidade, entre as narrativas bíblicas.
A Bíblia, apesar de merecer de todos nós o devido respeito, por ser
um livro considerado sagrado por várias correntes religiosas, não é,
nunca foi e jamais será um livro que contém todas as leis que regem o
Universo, nem tão pouco o que acontece em função das leis naturais,
portanto, divinas, já desvendadas pelo homem.
A Ciência vem, ao longo dos tempos, demonstrando a impossibilidade de
serem verdadeiros certos fatos narrados pelos autores da Bíblia, como
também, trazendo outros que nem supunham existir. A Terra como o centro
do Universo, Adão e Eva como o primeiro casal humano, entre inúmeros
outros pontos da Bíblia, que não poderão ser mais considerados como
verdades, uma vez que a Ciência provou o contrário. A fertilização in
vitro, a ida do homem ao espaço, a clonagem, o transplante de órgãos,
esse computador com o qual estamos escrevendo, como milhares de outras
maravilhas descobertas pela Ciência não se encontram profetizadas, em
uma linha sequer, nas Escrituras Sagradas.
Apesar disso tudo, estaremos desenvolvendo esse estudo com a
finalidade de constatar que a comunicação dos mortos está na Bíblia, não
por nós, mas por aqueles que insistem em relacionar esses fenômenos
como de cunho religioso e que, para serem verdadeiros, teriam que
constar na Bíblia.
Passagens bíblicas para comprovação
A primeira coisa que teremos que buscar para apoio é algo que venha
nos dar uma certeza da sobrevivência do espírito, pois ela é a peça
fundamental nas comunicações. Leiamos:
Quanto a você [Abraão], irá reunir-se em paz com seus antepassados e será sepultado após uma velhice feliz. (Gn 15,15).
Quando Jacó acabou de dar instruções aos filhos, recolheu os pés na cama, expirou e se reuniu com seus antepassados. (Gn 49,33).
Eu digo a vocês: muitos virão do Oriente e do Ocidente, e se sentarão
à mesa no Reino do Céu junto com Abraão, Isaac e Jacó. (Mt 8,11).
E, quanto à ressurreição, será que não leram o que Deus
disse a vocês: “Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de
Jacó”? Ora, ele não é Deus dos mortos, mas dos vivos. (Mt 22,31-32).
Podemos concluir dessas passagens que há no homem algo que sobrevive à
morte física. Não haveria sentido algum dizer que uma pessoa, após a
morte, irá se reunir com seus antepassados, se não se acreditasse na
sobrevivência do espírito. Além disso, para que ocorra a possibilidade
de alguém poder “sentar à mesa no Reino do Céu junto com Abraão, Isaac e
Jacó” teria que ser porque esses patriarcas estão tão vivos quanto nós.
A não ser que Jesus tenha nos enganado quando disse, em se referindo a
esses três personagens, que Deus é Deus de vivos.
Os relatos bíblicos nos dão conta que o intercâmbio com os mortos
eram fatos corriqueiros na vida dos hebreus. Por outro lado, quase todos
os povos, com quem mantiveram contato, tinham práticas relacionadas à
evocação dos espíritos para fins de adivinhação, denominada necromancia.
O Dicionário Bíblico Universal nos dá a seguinte explicação sobre ela:
Meio de adivinhação interrogando um morto. Babilônios, egípcios,
gregos a praticavam. Heliodoro, autor grego do III ou do século IV d.C.,
relata uma cena semelhante àquela descrita em 1Sm (Etíope 6,14). O
Deuteronômio atribui aos habitantes da Palestina “a interrogação dos
espíritos ou a evocação dos mortos” (18,11). Os israelitas também se
entregaram a essas práticas, mas logo são condenadas, particularmente
por Saul (1Sm 28,3B). Mas, forçado pela necessidade, o rei manda evocar a
sombra de Samuel (28, 7-25): patético, o relato constitui uma das mais
impressionantes páginas da Bíblia. Mais tarde, Isaías atesta uma prática
bastante difundida (Is 8,19): parece que ele ouviu “uma voz como a de
um fantasma que vem da terra” (29,4). Manasses favoreceu a prática da
necromancia (2Rs 21,6), mas Josias a eliminou quando fez sua reforma
(2Rs 23,24). Então o Deuteronômio considera a necromancia e as outras
práticas divinatórias como “abominação” diante de Deus, e como o motivo
da destruição das nações, efetuada pelo Senhor em favor de Israel
(18,12). O Levítico considera a necromancia como ocasião de impureza e
condena os necromantes à morte por apedrejamento (19,31; 20,27). (Pág.
556).
Iremos ver, no decorrer desse estudo, algumas dessas passagens, mas, por hora, apenas destacaremos:
Não se dirijam aos necromantes, nem consultem adivinhos, porque
eles tornariam vocês impuros. Eu sou Javé, o Deus de vocês. (Lv 19,31).
Quem recorrer aos necromantes e adivinhos, para se prostituir com
eles, eu me voltarei contra esse homem e o eliminarei do seu povo. (Lv
20,6).
Quando entrares na terra que o Senhor teu Deus te der, não
apreenderás a fazer conforme as abominações daqueles povos. Não se
achará entre ti quem faça passar pelo fogo o seu filho ou a sua filha,
nem adivinhador, nem prognosticador, nem agoureiro, nem feiticeiro; nem
encantador, nem necromante, nem mágico, nem quem consulte os mortos;
pois todo aquele que faz tal cousa é abominação ao Senhor; e por tais
abominações o Senhor teu Deus os lança de diante de ti. Perfeito serás
para com o Senhor teu Deus. Porque estas nações, que hás de possuir,
ouvem os prognosticadores e os adivinhadores; porém a ti o Senhor teu
Deus não permitiu tal cousa. (Dt 18,9-14).
As três passagens acima dizem respeito à adivinhação e à necromancia –
que é um tipo de adivinhação, conforme explicação, já citada, do
dicionário –, devemos observar que elas se encontram entre as
proibições. A preocupação central era proibir qualquer tipo de coisa
relacionada à adivinhação, não importando por qual meio fosse realizada,
como fica claro pela última passagem onde se diz “… estas nações, ….
ouvem os prognosticadores e os adivinhadores…”, reunindo assim todas as
práticas a essas duas.
Por outro lado, a grande questão a ser levantada é: os mortos
atendiam às evocações ou não? Se não, por que da proibição? Seria
ilógico proibir algo que não acontece. Teremos que tentar encontrar as
razões de tal proibição. Duas podemos destacar. A primeira é que
consideravam deuses os espíritos dos mortos, mais à frente iremos ver
sobre isso, quando falarmos de 1Sm 28. Levando-se em conta que era
necessário manter, a todo custo, a idéia de um Deus único, Moisés,
sabiamente, institui a proibição de qualquer evento que viesse a
prejudicar essa unicidade divina. As consultas deveriam ser dirigidas
somente a Deus, daí, por forças das circunstâncias, precisou proibir
todas as outras. A segunda estaria relacionada ao motivo pelo qual iam
consultar-se aos mortos. Normalmente, eram para coisas relacionadas ao
futuro, como no caso de Saul que iremos ver logo à frente, ou para
situações até ridículas, quando, por exemplo, do desaparecimento das
jumentas de Cis, em que Saul, seu filho, procura um vidente, para que
ele dissesse onde poderiam encontrá-las.
A figura do profeta aparece como sendo a pessoa que tinha poderes
para fazer consultas a Deus, ou receber da divindade as revelações que
deveriam ser transmitidas ao povo. Em razão de querer a exclusividade
das consultas a Deus, por meio dos profetas, é que Moisés disse que:
“Javé seu Deus fará surgir, dentre seus irmãos, um profeta como eu em
seu meio, e vocês ouvirão”. (Dt 18,15). Elucidamos essa questão com o
seguinte passo: “Em Israel, antigamente, quando alguém ia consultar a
Deus, costumava dizer: ‘Vamos ao vidente’. Porque, em lugar de
‘profeta’, como se diz hoje, dizia-se ‘vidente’”. (1Sm 9,9). O que é
vidente senão quem tem a faculdade de ver os espíritos? Poderá, em
alguns casos, ver inclusive o futuro, daí a idéia de que poderia prever
alguma coisa, uma profecia, derivando-se daí, então, o nome profeta.
Podemos confirmar o que estamos dizendo aqui nesse parágrafo, pela
explicação dada à passagem Dt 18,9-22:
“Contrapõem-se nitidamente duas formas de profetismo ou de
mediação entre os homens e Deus. O profetismo de tipo cananeu, com suas
práticas para conhecer o futuro, ou vontade dos deuses (v.9-14), visava
controlar a divindade, tornado-a favorável ao homem. Contra isso o Dt
estabelece a mediação do ‘profeta como Moisés’ (v.15-22; cf. Ex
20,18-21), a cuja palavra, pronunciada em nome de Deus, o israelita deve
obedecer”. (Bíblia Sagrada, Ed. Vozes, pág. 217).
É interessante que, neste momento, venhamos a dizer alguma coisa
sobre profeta. Buscaremos as informações com Dr. Severino Celestino, que
nos diz:
A palavra profeta, em hebraico, significa “Navi”, no plural,
“Neviim”. Apresenta ainda outros significados como “roê” (videntes).
Veja I Samuel 9:9: “antigamente em Israel, todos os que iam consultar
IAHVÉH assim diziam: vinde vamos ter com o vidente (roê); porque aquele
que hoje se chama profeta (navi), se chamava outrora vidente (roê)”.
A palavra vidente, em hebraico, também significa (chozê), pois,
consultando o texto original, encontramos citações que usam o termo
(roê) sendo que outras citam (chozê), como veremos adiante. O vidente
era, portanto, o homem a ser interrogado quando se queria consultar a
Deus ou a um espírito e sua resposta era considerada resposta de Deus.
O termo profeta chegou ao português, derivado do grego (???)
“prophétes” que significa “alguém que fala diante dos outros”. No
hebraico, o significado é bem mais amplo, possui uma raiz acádica que
significa “chamar”, “falar em voz alta”, e interpretam-no como “orador,
anunciador”. (Analisando as Traduções Bíblicas, pp. 259-260). (Grifos do
original).
Dito isso, podemos agora concluir que Moisés não era totalmente
contra o profetismo (mediunismo), apenas era contrário ao uso indevido
que davam a essa faculdade. Podemos, inclusive, vê-lo aprovando a forma
com que dois homens a faziam, conforme a seguinte narrativa em Nm 11,
24-30:
Moisés saiu e disse ao povo as palavras de Iahweh. Em seguida reuniu
setenta anciãos dentre o povo e os colocou ao redor da Tenda. Iahweh
desceu na Nuvem. Falou-lhe e tomou do Espírito que repousava sobre ele e
o colocou nos setenta anciãos. Quando o Espírito repousou sobre eles,
profetizaram; porém, nunca mais o fizeram.
Dois homens haviam permanecido no acampamento: um deles se chamava
Eldad e o outro Medad. O Espírito repousou sobre eles; ainda que não
tivessem vindo à Tenda, estavam entre os inscritos. Puseram-se a
profetizar no acampamento. Um jovem correu e foi anunciar a Moisés: “Eis
que Eldad e Medad”, disse ele, “estão profetizando no acampamento”.
Josué, filho de Nun, que desde a sua infância servia a Moisés, tomou a
palavra e disse: “Moisés, meu senhor, proíbe-os!” Respondeu-lhe Moisés:
“Estás ciumento por minha causa? Oxalá todo o povo de Iahweh fosse
profeta, dando-lhe Iahweh o seu Espírito!” A seguir Moisés voltou ao
acampamento e com ele os anciãos de Israel.
Fica claro, então, que pelo menos duas pessoas faziam dignamente o
uso da faculdade mediúnica (profeta), daí Moisés até desejar que todos
fizessem como eles.
Outro ponto importante que convém ressaltar é a respeito da palavra
Espírito, que aparece inúmeras vezes na Bíblia. Mas afinal o que é
Espírito? Hoje sabemos que os espíritos são as almas dos homens que
foram desligadas do corpo físico, pelo fenômeno da morte. Assim, podemos
perfeitamente aceitar que fora às vezes que atribuem essa palavra ao
próprio Deus, todas as outras estão incluídas nessa categoria.
Tudo, na verdade, não passava de manifestações dos espíritos, que
muitas vezes eram tomados à conta de deuses, devido a ignorância da
época, coisa absurda nos dias de hoje.
Isso fica tão claro que podemos até mesmo encontrar recomendações de
como nos comportar diante deles, para sabermos suas verdadeiras
intenções. Citamos: “Amados, não acrediteis em qualquer espírito, mas examinai os espíritos para ver se são de Deus,…” (1 Jo 4, 1).
Disso pode-se concluir que era comum, àquela época, o contato com os
espíritos. De fato, já que podemos confirmar isso com o Apóstolo dos
gentios, que recomendou sobre o uso dos “dons” (mediunidade), conforme
podemos ver em sua primeira carta aos Coríntios (cap. 14). Nela ele
procura demonstrar que o dom da profecia é superior ao dom de falar em
línguas (xenoglossia), pois não via nisso nenhuma utilidade senão
quando, juntamente, houvesse alguém com o dom de interpretá-las.
Ao lado dos espíritos, também vemos inúmeras manifestações do
demônio. Sobre ele, encontramos a seguinte informação, citada pela Dra.
Edith Fiore, sobre o pensamento do historiador hebreu Flávio Josefo: “Os
demônios são os espíritos dos homens perversos” (Possessão Espiritual,
p. 29). Com isso as manifestações espirituais se ampliam, pois agora se
nos apresentam os demônios como espíritos de seres humanos
desencarnados, ficando, portanto, provado que a Bíblia está repleta de
fenômenos mediúnicos. Onde há mediunidade haverá, conseqüentemente,
manifestação espiritual, pouco importa a denominação que venha se dar
aos que se apresentam aos encarnados,por essa via.
Vejamos, então, um caso específico relatado sobre uma consulta aos
mortos. Chamamos a sua atenção para o motivo da consulta, que não poderá
passar despercebido, visto o termos citado como uma das causas da
proibição de Moisés. Leiamos:
Samuel tinha morrido. Todo o Israel participara dos funerais, e o
enterraram em Ramá, sua cidade. De outro lado, Saul tinha expulsado do
país os necromantes e adivinhos. Os filisteus se concentraram e
acamparam em Sunam. Saul reuniu todo o Israel e acamparam em Gelboé.
Quando viu o acampamento dos filisteus, Saul teve medo e começou a
tremer. Consultou a Javé, porém Javé não lhe respondeu, nem por sonhos,
nem pela sorte, nem pelos profetas. Então Saul disse a seus servos:
“Procurem uma necromante, para que eu faça uma consulta”. Os servos
responderam: “Há uma necromante em Endor”. Saul se disfarçou, vestiu
roupa de outro, e à noite, acompanhado de dois homens, foi encontrar-se
com a mulher. Saul disse a ela: “Quero que você me adivinhe o futuro,
evocando os mortos. Faça aparecer a pessoa que eu lhe disser”. A mulher,
porém, respondeu: “Você sabe o que fez Saul, expulsando do país os
necromantes e adivinhos. Por que está armando uma cilada, para eu ser
morta?” Então Saul jurou por Javé: “Pela vida de Javé, nenhum mal vai
lhe acontecer por causa disso”. A mulher perguntou: “Quem você quer que
eu chame?” Saul respondeu: “Chame Samuel”. Quando a mulher viu Samuel
aparecer, deu um grito e falou para Saul: “Por que você me enganou? Você
é Saul!” O rei a tranqüilizou: “Não tenha medo. O que você está vendo?”
A mulher respondeu: “Vejo um espírito subindo da terra”. Saul
perguntou: “Qual é a aparência dele?” A mulher respondeu: “É a de um
ancião que sobe, vestido com um manto”. Então Saul compreendeu que era
Samuel, e se prostrou com o rosto por terra. Samuel perguntou a Saul:
“Por que você me chamou, perturbando o meu descanso?” Saul respondeu: “É
que estou em situação desesperadora: os filisteus estão guerreando
contra mim. Deus se afastou de mim e não me responde mais, nem pelos
profetas, nem por sonhos. Por isso, eu vim chamar você, para que me diga
o que devo fazer”. Samuel respondeu: “Por que você veio me consultar,
se Javé se afastou de você e se tornou seu inimigo? Javé fez com você o
que já lhe foi anunciado por mim: tirou de você a realeza e a entregou
para Davi. Porque você não obedeceu a Javé e não executou o ardor da ira
dele contra Amalec. É por isso que Javé hoje trata você desse modo. E
Javé vai entregar aos filisteus tanto você, como seu povo Israel. Amanhã
mesmo, você e seus filhos estarão comigo, e o acampamento de Israel
também: Javé o entregará nas mãos dos filisteus”. (1Sm 28,3-19)
Inicialmente, se diz que Saul consultou a Javé, como não obteve
resposta, resolveu então procurar uma necromante para que, pessoalmente ,
pudesse consultar-se com um espírito. Isso foi o que dissemos sobre uma
das razões da proibição de Moisés. Saul diante da necromante foi
taxativo: quero que adivinhe o futuro evocando um morto. Aqui é o
próprio rei que vai consultar-se com um morto, pelo motivo de querer
saber o futuro. Se os mortos nunca tivessem revelado o futuro, estaria o
rei numa situação ridícula dessa?
Mas Saul não desejava consultar-se com qualquer um espírito, queria
especificamente a presença de Samuel. Após a evocação da mulher, o
relato confirma que a necromante viu Samuel-espírito aparecer. Sem
margem a nenhuma dúvida. Quando descreve o que vê o próprio Saul
reconhece ser o profeta Samuel que estava ali. Fato confirmado, pela
indubitável afirmativa de que foi o próprio Samuel quem fez uma pergunta
a Saul. Após a resposta de Saul, novamente, Samuel responde ao que veio
o rei saber.
Algumas Bíblias ao invés de “vejo um espírito subindo da terra”
traduzem por “vejo um deus subindo da Terra”. A frase dessa maneira nos é
explicada:
“A palavra hebraica para significar Deus, também designa os seres
supra-humanos e, como neste caso, o espírito dos mortos. Havia a
convicção de que os espíritos dos mortos estavam encerrados no sheol, e
este se situaria algures por baixo da terra” (Bíblia Sagrada, Ed.
Santuário, pág. 392).
Com isso, fica fácil entender por que Saul, após certificar-se de que
Samuel-espírito estava ali, se prostra diante dele (v. 14). Atitude
própria de quem endeusava os espíritos e, conforme já o dissemos
anteriormente, esse foi um dos motivos pelo qual Moisés proibiu a
comunicação com os mortos.
A frase “Javé fez com você o que já lhe foi anunciado por mim” tem a
seguinte tradução em outras Bíblias: “O Senhor fez como tinha anunciado
pela minha boca”, do que podemos concluir que naquele momento não estava
falando pela sua boca, usava a boca da mulher, pela qual confirmou o
que tinha falado a Saul quando vivo, não deixando então nenhuma dúvida
que era mesmo Samuel-espírito quem estava ali. Estamos dizendo isso,
porque com algumas interpretações distorcidas, bem à moda da casa,
querem insinuar que quem se manifestou foi o demônio. A isso, poderemos,
além do que já dissemos, colocar para corroborar nosso pensamento uma
explicação dada a 28,15-19:
O narrador, embora não aprove o proceder de Saul e da mulher (v. 15),
acredita que Samuel de fato apareceu e falou com Saul: isso Deus podia
permitir. Logo, não é preciso pensar em manobra fraudulenta da mulher ou
em intervenção diabólica…. (Bíblia Sagrada, Ed. Vozes, pág. 330).
Por outro lado, ninguém conseguirá provar que em algum lugar da
Bíblia está dizendo que os demônios aparecem no lugar dos espíritos
evocados. Assim, de modo claro e inequívoco, temos essa questão de que
não são os demônios como definitivamente resolvida. Não bastasse isso, a
própria Bíblia confirma o ocorrido quando falando a respeito de Samuel
está dito: “Mesmo depois de sua morte, ele profetizou, predizendo ao rei
o seu fim. Mesmo do sepulcro, ele levantou a voz, numa profecia, para
apagar a injustiça do povo”. (Eclo 46,20). Sabemos que os protestantes
não possuem esse livro, mas como os católicos também afirmam que sua
Bíblia não contém erros, pegamos a deles para a confirmação dessa
ocorrência.
Ao que parece, a consulta aos mortos era fato tão corriqueiro, que, às vezes, era esperada, conforme podemos ver em Isaías:
“Quando disserem a vocês: ‘Consultem os espíritos e adivinhos,
que sussurram e murmuram fórmulas; por acaso, um povo não deve consultar
seus deuses e consultar os mortos em favor dos vivos?’, comparem com a
instrução e o atestado: se o que disserem não estiver de acordo com o
que aí está, então não haverá aurora para eles”. (Is 8,19-20).
Isaías até sabia o que iriam dizer, realidade da época, com certeza.
Quanto à expressão seus deuses, explicam-nos que equivale a os espíritos
dos antepassados (Bíblia Sagrada, Ed. Ave Maria, pág. 950). O que vem
reforçar a justificativa para a proibição de Moisés, que buscava fazer o
povo hebreu aceitar o Deus único. Interessante que essa passagem irá
nos remeter a uma outra, que fala exatamente dos antepassados, como uma
explicação que nos ajudará a entendê-la. Vejamo-la:
“Consulte as gerações passadas e observe a experiência de nossos
antepassados. Nós nascemos ontem e não sabemos nada. Nossos dias são
como sombra no chão. Os nossos antepassados, no entanto, vão instruí-lo e
falar a você com palavras tiradas da experiência deles”. (Jó 8,8-10).
Considerando que à época não se tinha muita coisa escrita, e se
tivesse talvez pouco adiantaria, pois poucos sabiam ler, só poderemos
entender essa passagem como sendo uma consulta direta às gerações
passadas. O que em bom Português significa que isso ocorria através da
consulta aos seus deuses, em outras palavras, aos espíritos dos
antepassados, que pessoalmente viam transmitir suas experiências. É
notável que exatamente isso que está ocorrendo nos dias de hoje com os
Espíritos, que, mesmo sem que tenham sido evocados para serem
consultados, vêm livremente, com a permissão de Deus, é claro, nos
passar as suas experiências pessoais, para que possamos aprender com
elas, de modo que podemos evitar erros já cometidos por ignorância das
leis divinas.
Uma coisa nós podemos considerar. Se ocorriam manifestações naquela
época, por que não as aconteceria nos dias de hoje? Veremos agora a mais
notável de todas as manifestações de espíritos que podemos encontrar na
Bíblia, pois ela acontece, nada mais nada mesmos do que, com o próprio
Cristo. Leiamos:
Seis dias depois, Jesus tomou consigo Pedro, os irmãos Tiago e João, e
os levou a um lugar à parte, sobre uma alta montanha. E se transfigurou
diante deles: o seu rosto brilhou como o sol, e as suas roupas ficaram
brancas como a luz. Nisso lhes apareceram Moisés e Elias, conversando
com Jesus. Então Pedro tomou a palavra, e disse a Jesus:
“Senhor, é bom ficarmos aqui. Se quiseres, vou fazer aqui três
tendas: uma para ti, outra para Moisés, e outra para Elias.” Pedro ainda
estava falando, quando uma nuvem luminosa os cobriu com sua sombra, e
da nuvem saiu uma voz que dizia: “Este é o meu Filho amado, que muito me
agrada. Escutem o que ele diz.” Quando ouviram isso, os discípulos
ficaram muito assustados, e caíram com o rosto por terra. Jesus se
aproximou, tocou neles e disse: “Levantem-se, e não tenham medo.” Os
discípulos ergueram os olhos, e não viram mais ninguém, a não ser
somente Jesus. Ao descerem da montanha, Jesus ordenou-lhes: “Não contem a
ninguém essa visão, até que o Filho do Homem tenha ressuscitado dos
mortos”.(Mt 17,1-9).
Ocorrência inequívoca de comunicação com os mortos, no caso, os
espíritos Moisés e Elias conversam pessoalmente com Jesus. E aí
afirmamos que se fosse mesmo proibida por Deus, Moisés-espírito não
viria se apresentar a Jesus e seus discípulos, já que foi ele mesmo,
quando vivo, quem informou dessa proibição, e nem Jesus iria infringir
uma lei divina. Portanto, a proibição de Moisés era apenas uma proibição
particular sua ou de sua legislação de época. Os partidários do demônio
ficam sem saída nessa passagem, pois não podem afirmar que foi o
demônio quem apareceu para eles, já que teriam que admitir que Jesus foi
enganado pelo “pai da mentira”.
Podemos ainda ressaltar que, depois desse episódio, Jesus não proibiu
a comunicação com os mortos, só disse aos discípulos para não contassem
a ninguém sobre aquela “sessão espírita”, até que acontecesse a sua
ressurreição. E se ele mesmo disse: “tudo que eu fiz vós podeis fazer e
até mais” (Jo 14,12) os que se comunicam com os mortos estão seguindo o
exemplo de Jesus. Os cegos até poderão ficar contra, mas os de mente
aberta não verão nenhum mal nisso.
Já encontramos pessoas que, querendo fugir do inevitável, afirmaram
que Moisés e Elias não morreram, foram arrebatados. A coisa é tão séria,
que, no afã de se justificarem, desvirtuam a realidade mudando até
mesmo narrativas bíblicas, pois, até onde sabemos, existe a passagem
falando da morte e sepultura de Moisés, o que poderá ser comprovado em
Dt 34,5-8. Quanto a Elias é que se diz ter sido arrebatado. Acredite
quem quiser. Mas o que faremos com o corpo físico na dimensão
espiritual? “O espírito é que dá vida a carne de nada serve” (Jo 6,63),
“a carne e o sangue não podem herdar o reino do céu” (1Cor 15,50). São
passagens que contradizem peremptoriamente um suposto arrebatamento de
Elias de corpo e alma.
Por várias vezes, Jesus apresentou a seus discípulos ensinamentos por
meio de parábolas. Há uma que poderemos citar, pois nela encontramos
algo que irá nos auxiliar no entendimento daquilo que propomos. Vejamos:
Havia um homem rico que se vestia de púrpura e linho fino, e dava
banquete todos os dias. E um pobre, chamado Lázaro, cheio de feridas,
que estava caído à porta do rico. Ele queria matar a fome com as sobras
que caíam da mesa do rico. E ainda vinham os cachorros lamber-lhe as
feridas. Aconteceu que o pobre morreu, e os anjos o levaram para junto
de Abraão. Morreu também o rico, e foi enterrado. No inferno, em meio
aos tormentos, o rico levantou os olhos, e viu de longe Abraão, com
Lázaro a seu lado. Então o rico gritou: ‘Pai Abraão, tem piedade de mim!
Manda Lázaro molhar a ponta do dedo para me refrescar a língua, porque
este fogo me atormenta’. Mas Abraão respondeu: ‘Lembre-se, filho: você
recebeu seus bens durante a vida, enquanto Lázaro recebeu males. Agora,
porém, ele encontra consolo aqui, e você é atormentado. Além disso, há
um grande abismo entre nós: por mais que alguém desejasse, nunca poderia
passar daqui para junto de vocês, nem os daí poderiam atravessar até
nós’. O rico insistiu: ‘Pai, eu te suplico, manda Lázaro à casa de meu
pai, porque eu tenho cinco irmãos. Manda preveni-los, para que não
acabem também eles vindo para este lugar de tormento’. Mas Abraão
respondeu: ‘Eles têm Moisés e os profetas: que os escutem!’ O rico
insistiu: ‘Não, pai Abraão! Se um dos mortos for até eles, eles vão se
converter’. Mas Abraão lhe disse: ‘Se eles não escutam a Moisés e aos
profetas, mesmo que um dos mortos ressuscite, eles não ficarão
convencidos’. (Lc 16,19-31).
Poderemos tirar várias reflexões dessa parábola, mas nos
restringiremos ao assunto deste estudo. Uma pergunta nos vem à mente: se
não acreditassem na comunicação entre os dois planos, por que então o
rico pede a Abraão para enviar Lázaro para alertar a seus irmãos? Da
análise da resposta de Abraão podemos dizer que há a possibilidade da
comunicação, entretanto, ela é completamente inútil, pois se nem aos
vivos as pessoas deram ouvidos, que dirá aos mortos. Fato incontestável,
que vem acontecendo até nos dias de hoje, já que a grande maioria
prefere ignorar a comunicação dos mortos, que vêm nos alertar para que
transformemos as nossas ações, de modo que beneficiem ao nosso próximo, a
fim de evitar que, depois da morte física, tenhamos que ir para um
lugar de tormentos.
A expressão “mesmo que um dos mortos ressuscite” significa que mesmo
que algum dos mortos ressuscite na sua condição espiritual, para se
comunicar, que eles não se convenceriam. Mas alguém pode objetar dizendo
que esse texto implica na necessidade de uma ressurreição corpórea para
que ocorra esta comunicação. Isto é um subterfúgio, já que na própria
Bíblia encontramos indícios de que o termo ressurreição também era usado
para indicar a influência dos mortos sobre os vivos, conforme podemos
confirmar no seguinte passo: “Alguns diziam: ‘João Batista ressuscitou
dos mortos. É por isso que os poderes agem nesse homem’”. (Mt 14,2; Mc
6,14).
Quem já teve a oportunidade de ler a Bíblia, pelo menos uma vez,
percebe que ela está recheada de narrativas com aparições de anjos. Na
ocasião da ressurreição de Jesus algumas delas nos dão conta do
aparecimento, junto ao sepulcro, de “anjos vestidos de branco” (Jo
20,12; Mt 28,2), enquanto que outras nos dizem ser “homens vestidos de
branco” (Lc 24,4; Mc 16,5). Demonstrando que anjos, na verdade, são
espíritos humanos de pessoas desencarnadas. Até mesmo os nomes dos anjos
são nomes dados a seres humanos: Gabriel, Rafael, Miguel, etc. Vejamos
se isso é coerente.
Nesse tempo, o rei Herodes começou a perseguir alguns membros da
Igreja, e mandou matar à espada Tiago, irmão de João. Vendo que isso
agradava aos judeus, decidiu prender também Pedro. Eram os dias da festa
dos pães sem fermento. Depois de o prender, colocou-o na prisão e o
confiou à guarda de quatro grupos de quatro soldados cada um. Herodes
tinha a intenção de apresentar Pedro ao povo logo depois da festa da
Páscoa. Pedro estava vigiado na prisão, mas a oração fervorosa da Igreja
subia continuamente até Deus, intercedendo em favor dele. Herodes
estava para apresentar Pedro. Nessa mesma noite, Pedro dormia entre dois
soldados. Estava preso com duas correntes, e os guardas vigiavam a
porta da prisão. De repente, apareceu o anjo do Senhor, e a cela ficou
toda iluminada. O anjo tocou o ombro de Pedro, o acordou, e lhe disse:
“Levante-se depressa.” As correntes caíram das mãos de Pedro. E o anjo
continuou: “Aperte o cinto e calce as sandálias.” Pedro obedeceu, e o
anjo lhe disse: “Ponha a capa e venha comigo.” Pedro acompanhou o anjo,
sem saber se era mesmo realidade o que o anjo estava fazendo, pois
achava que tudo isso era uma visão. Depois de passarem pela primeira e
segunda guarda, chegaram ao portão de ferro que dava para a cidade. O
portão se abriu sozinho. Eles saíram, entraram numa rua, e logo depois o
anjo o deixou. Então Pedro caiu em si e disse: “Agora sei que o Senhor
de fato enviou o seu anjo para me libertar do poder de Herodes e de tudo
o que o povo judeu queria me fazer.” Pedro então refletiu e foi para a
casa de Maria, mãe de João, também chamado Marcos, onde muitos se haviam
reunido para rezar. Bateu à porta, e uma empregada, chamada Rosa, foi
abrir. A empregada reconheceu a voz de Pedro, mas sua alegria foi tanta
que, em vez de abrir a porta, entrou correndo para contar que Pedro
estava ali, junto à porta. Os presentes disseram: “Você está ficando
louca!” Mas ela insistia. Eles disseram: “Então deve ser o seu anjo!”
Pedro, entretanto, continuava a bater. Por fim, eles abriram a porta:
era Pedro mesmo. E eles ficaram sem palavras. (At 12,1-16).
Com a prisão de Pedro, por Herodes, todos já esperavam que
aconteceria com ele o mesmo destino de Tiago, seria morto. Mas um anjo o
solta. Ele se dirige à casa onde os outros estavam reunidos, bate à
porta. Rosa, que atende a porta, reconhece a voz de Pedro, espavorida
corre para dentro a fim de contar aos outros. Entretanto, como supunham
que Pedro havia morrido disseram a ela: “Então deve ser o seu anjo”.
Isso vem dizer exatamente o que estamos querendo concluir, que anjo, na
verdade, é um espírito de um ser humano que morreu, o que não contradiz a
narrativa, antes ao contrário, lhe é extremamente coerente.
Conclusão
Ao que podemos concluir, sem sombra de dúvidas, é que realmente a comunicação com os mortos está comprovada pela Bíblia, por mais que se esforcem em querer tirar dela esse fato.
Apenas para reforçar tudo o quanto já dissemos do que encontramos na
Bíblia, poderemos ainda enumerar as pesquisas que estão sendo realizadas
sobre a comunicação dos espíritos por aparelhos eletrônicos: a
Transcomunicação Instrumental – TCI. Buscamos comprovar com isso que,
conforme o dissemos no início, tais ocorrências, são de ordem natural,
dentro, portanto, das leis da natureza, que acontecem até os dias de
hoje e que elas vêm despertando grande interesse por parte de inúmeros
pesquisadores descompromissados com dogmas religiosos.
A pesquisadora Sonia Rinaldi, em seu livro Espírito – O desafio da Comprovação,
traz gravações de vozes paranormais. Muitas possuem a particularidade
de terem sido gravadas também, e simultaneamente, no lado reverso da
gravação normal. Isso vem colocar as coisas num nível bem próximo da
prova científica, pois ainda não existe tecnologia humana para produzir
gravações desse tipo. Resta-nos esperar que cientistas, menos
compromissados com dogmas religiosos, se disponham a realizar essas
pesquisas com o rigor científico, com todo o controle e instrumentação
técnica necessária para se chegar a uma conclusão final e definitiva.
Agosto/2004.
Referências bibliográficas:
Bíblia de Jerusalém, 1ª ed. São Paulo: Paulus, 2002.
Bíblia Sagrada – Edição Pastoral, s/e. São Paulo: Paulus, 1990.
Bíblia Sagrada, 5ª ed. Aparecida-SP: Santuário, 1984.
Bíblia Sagrada, 8ª ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1989.
Bíblia Sagrada, 68ª ed. São Paulo: Ave Maria, 1989
FIORE, E., Possessão Espiritual, São Paulo: Pensamento, 1995.
MONLOUGOU L.; DU BUIT, F.M. Dicionário Bíblico Universal, Aparecida-SP: Santuário; Petrópolis-RJ: Vozes, 1996.
RINALDI, S. Espírito – O desafio da Comprovação. São Paulo: Elevação, 2000.